Por que a roteirista de “Dirty Dancing” optou por colocar um aborto ilegal no filme

25. setembro 2017 Cinema 0
Por que a roteirista de “Dirty Dancing” optou por colocar um aborto ilegal no filme

Já faz 30 anos desde que o filme “Dirty Dancing” foi lançado, trazendo uma história de amor que ficou para sempre eternizada no cinema. Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original,  o filme narrava os acontecimentos que levaram Frances “Baby” Houseman (Jennifer Grey) e Johnny Castle (Patrick Swayze) a se apaixonarem um pelo outro. 

Baby é uma jovem rica, que vai a um acampamento com a família, onde trabalha Johnny, um instrutor de dança. Junto de Penny (Cynthia Rhodes), a dupla arrasa nos movimentos, mas a moça precisa deixar o trabalho, pois fica grávida e decide fazer um aborto. A produção é ambientada em 1963, quando o procedimento ainda era ilegal nos Estados Unidos.

Desde 1973, ele é permitido em solo americano, por conta do famoso caso “Roe x Wade”, que culminou com a decisão histórica da Suprema Corte dos EUA, a qual reconheceu “o direito ao aborto como integrante da liberdade pessoal, garantida pela 14ª Emenda à Constituição, na qual o Estado não deve interferir”. 

“Dirty Dancing” foi lançado em 1987, quase 15 anos depois da legalização do aborto naquele país. Embora o longa pudesse retratá-lo de forma legal, a roteirista Eleanor Bergstein tomou a decisão de tratá-lo em um período em que ele ainda não era permitido. E ela precisou brigar para que seu texto fosse mantido, já que o estúdio queria cortar a narrativa da obra original.

“O que eu sempre digo para as pessoas, já que elas estão sempre reclamando que são colocadas questões morais nos filmes e que são retiradas depois, é que se você vai colocar um tema político, é melhor incorporá-lo à história”, disse Eleanor ao Broadly. “Do contrário, vai chegar o dia em que eles irão cortá-lo. E se eles puderem, eles farão isso. Se estiver no canto da tela, ele sempre será retirado”.

E Bergstein revelou ainda o motivo pelo qual optou por um aborto ilegal, mesmo em uma época em que ele já era permitido por lei.

“Quando eu fiz o filme em 1987, sobre o ano de 1963, eu coloquei o aborto ilegal e todo mundo me perguntou: ‘por que? Nós temos Row x Wade. Por que você está fazendo isso?’. Eu disse: ‘bem, eu não sei se sempre teremos Roe x Wade’. E eu recebi muitas críticas por isso”, admitiu a roteirista. “Pior ainda, havia meninas que não se lembravam do período antes de Row x Wade. Por isso, para elas, eu era como [a ativista] Susan B. Anthony dizendo: ‘lembrem-se, lembrem-se, lembrem-se'”.

Eleanor também fez questão de que a representação do aborto ilegal fosse real e dramática, não apenas um procedimento banal (como muitos contra o procedimento insistem em acreditar).

“Quando nós o gravamos, eu deixei claro que nós o faríamos como ele é: difícil. [Fizemos] Referências a facas sujas, uma mesa dobrável, os gritos de Penny no corredor”, disse. “Eu coloquei um médico no set de filmagem para ter certeza que a representação do aborto ilegal estava correta. A razão para essa linguagem era porque eu sentia que, mesmo com um aborto tão genérico, uma geração toda de pessoas, e especialmente mulheres, não entenderiam o que era um aborto ilegal. Por isso, eu coloquei uma linguagem gráfica e trabalhei duro nas gravações, para que ele fosse mostrado de forma realista”.

E o aborto ilegal de Penny, em 1987, é o mesmo de tantas mulheres brasileiras em 2017. Por aqui, o procedimento só é permitido em 3 situações: em caso de estupro, anencefalia do feto e risco de morte para a gestante (e ainda assim, muitas mulheres enfrentam dificuldade para realizá-los). Excluídos esses casos, todas as mulheres são obrigadas a continuar a gravidez. Mas isso não impede que elas procurem o aborto ilegal, que acaba se tornando uma escolha fatal para elas, especialmente para negras e periféricas.

Atualmente, a prática é a quinta causa de morte materna no Brasil. Estima-se que 1 milhão de abortos clandestinos sejam feitos no país e que, em média 4 mulheres morrem todos os dias nos hospitais por complicações em decorrência da interrupção da gravidez. Essas vidas poderiam ser poupadas, caso o aborto fosse legalizado e as mulheres tivessem acesso seguro a ele.

Nos Estados Unidos, mesmo sendo um direito garantido por lei, isso não significa que o procedimento esteja protegido, especialmente durante a presidência de Donald Trump. Por lá, os conservadores são maioria no Congresso americano e clínicas de aborto vêm sendo fechadas e legislações contra a prática vêm sendo adotadas em diversos estados. 

Tudo isso é para percebermos que, de 1987 para cá, pouca coisa mudou nos direitos reprodutivos das mulheres. A luta e a vigia sobre direitos conquistados precisam ser constantes. Do contrário, tudo pode ser perdido. Por isso, a mensagem de Eleanor Bergstein, roteirista de “Dirty Dancing”, ainda é atual e precisa ser amplificada.

“Pessoas reais fazem abortos, mesmo quando estão dançando e se apaixonando”, concluiu ao Broadly

*Nesta semana, vários eventos online discutirão a importância da discussão do tema. É a II Virada Pela Legalização do Aborto. Você pode conferir cada um deles, assuntos e palestrantes neste link.


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