Podemos finalmente parar de dizer que filmes com protagonistas negros não vendem?

22. agosto 2017 Cinema 0
Podemos finalmente parar de dizer que filmes com protagonistas negros não vendem?

Na semana passada, o filme “Girls Trip” tornou-se a primeira comédia do ano a fazer US$ 100 milhões em bilheteria só nos Estados Unidos. Embora o feito seja impressionante, ele é ainda mais especial porque o filme é protagonizado por quatro atrizes negras (Regina Hall, Queen Latifah, Jada Pinkett Smith e Tiffany Haddish), dirigido por um cineasta negro (Malcolm D. Lee), escrito por dois negros (Kenya Barris e Tracy Oliver) e produzido por negros (Malcolm D. Lee e Will Packer). Ou seja, é uma obra feita para e sobre negros, tornando-se a primeira a ter toda uma equipe negra a realizar tal marca.

“Girls Trip” mostra a viagem de quatro amigas para Nova Orleans, uma premissa parecida com a de “A Noite É Delas”, longa protagonizado por Scarlett Johansson, e que possui um elenco pouco diverso. Porém, apesar de temas similares, os resultados foram bem diferentes: enquanto o primeiro arrecadou mais de US$ 100 milhões em ingressos e uma avaliação de 71 pontos no Metacritic (que reúne opiniões sobre filmes) e 88% no Rotten Tomatoes, o segundo fez apenas US$ 22 milhões e uma avaliação de 51 pontos no Metacritic e 48% no Rotten Tomatoes.

Se esses números querem dizer algo, é que: 1) o público quer ver mais diversidade nas telas e 2) filmes com protagonistas negros vendem muito bem.

O segundo ponto faz ainda mais sentido quando lembramos que “Corra!”, lançado no começo do ano, também passou a marca de US$ 100 milhões apenas nos EUA, e mais de US$ 252 milhões no mundo todo. Atualmente, ele é o filme mais lucrativo de 2017, dando um retorno financeiro de 630% e um lucro de US$ 217 milhões ao estúdio. A película dirigida por Jordan Peele narra a uma história de terror de um garoto negro ao conhecer os pais de sua namorada branca, e recebeu diversas críticas positivas. No Metacritic, sua avaliação é de 84 pontos, enquanto no Rotten Tomatoes, sua avaliação é de 99%

E vale lembrar do indicado ao Oscar “Estrelas Além do Tempo”, que faturou mais de US$ 169 milhões só nos Estados Unidos (US$ 230 milhões globalmente), US$ 14 milhões a mais do que “La La Land”, também indicado ao prêmio máximo do cinema. Dirigido por Theodore Melfi, o longa contou a história real das três cientistas negras que foram fundamentais para levar o primeiro americano à orbita da Terra. 

São três filmes com protagonistas negros que superaram a marca dos US$ 100 milhões em um curto espaço de tempo nos cinemas. E em uma época de manifestações racistas e nazistas acontecendo, ver essas obras prosperando e fazendo sucesso com o público e com a crítica é uma boa resposta ao preconceito e discursos de ódio que temos visto.

Porém, embora sejam feitos que mereçam reconhecimento, a indústria cinematográfica ainda permanece cética quanto à contratação de artistas negros na frente e atrás das câmeras. Segundo um recente estudo sobre diversidade em Hollywood, foi constatado que entre 2007 e 2016, pouca coisa mudou para atores, atrizes e cineastas negros. 

A Escola Annerbeg de Comunicação e Jornalismo, por meio da Iniciativa de Mídia, Diversidade e Mudança Social, avaliou os 100 maiores filmes do ano passado, e fez um comparativo com os resultados das pesquisas dos anos anteriores. Somente em 2016, 70,8% dos personagens eram brancos, um percentual que vem caindo desde 2007, mas que não significa uma melhora para minorias étnicas. No ano passado, apenas 13,6% dos personagens eram negros, 5,7% eram asiáticos, 3,4% eram árabes e 3,1% eram latinos. Também em 2016, 25 dos 100 maiores filmes não tinham nenhum personagem negro com falas. Para as mulheres, a situação é ainda pior: 47 filmes não tinham nenhuma mulher negra.

E no que diz respeito à diversidade na criação de conteúdo do cinema, desde 2007, somente 5,6% de negros dirigiram alguns dos 900 filmes mais populares lançados até o ano passado. Desse total, apenas 3 mulheres negras dirigiram algumas dessas produções. 

Ou seja, há um claro e problemático desiquilíbrio entre o que Hollywood está fazendo e o que o público quer ver. O que falta é oportunidade, como Viola Davis já disse uma vez, e nós não cansamos de repetir. Ao negar espaço para histórias de pessoas negras, continuamos deixando de lado suas perspectivas, ideias e humanidade.

Filmes sobre negros vendem, sim. E eles já deixaram de ser exceção. É bom a indústria cinematográfica abrir os olhos logo.


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