“Please Like Me” é uma das melhores séries a retratar doenças mentais – você devia vê-la agora

“Please Like Me” é uma das melhores séries a retratar doenças mentais – você devia vê-la agora

Tendo transtorno de ansiedade, acho muito difícil – e até complicado – ver esse distúrbio sendo retratado em filmes e séries de maneira apurada. Aliás, qualquer doença mental. Isso porque a representação é, no geral, marcada por estereótipos, histórias com forte apelo dramático ou com soluções simples. E viver com uma doença não é nada como a mídia nos faz acreditar: embora seja uma luta diária, também é possível viver uma vida normal.

É por isso que eu tenho gostado muito de “Please Like Me”, um seriado australiano que, além de abordar temas como a homossexualidade, HIV e aborto, ainda trata de transtornos mentais de maneira honesta, sem floreios ou rodeios.

O ponto de partida da série é o término do namoro entre Josh (Josh Thomas) e Claire (Caitlin Stasey), a qual acredita que ele seja gay. No mesmo dia, ele se envolve com um outro rapaz, e é fácil acreditar que essa seria apenas mais uma história sobre sair do armário. E é, mas há outros conflitos: após passar a noite com o garoto, Josh recebe uma ligação de seu pai (David Roberts), que o avisa que sua mãe, Rose (Debra Lawrance), tentou suicídio e está internada em um hospital.

Desse momento em diante, a saúde mental é tratada com a mesma importância da recém-descoberta sexualidade do protagonista. Ela é parte fundamental da trama, que na segunda temporada chega a ter parte de sua ambientação dentro de um hospital psiquiátrico, mostrando como os indivíduos que ali vivem tentam arrumar formas de lidar com suas doenças para poder viver vidas mais saudáveis e seguras.

E o tema é muito familiar para Josh Tomas, que além de atuar, também é o criador e roteirista de “Please Like Me”. A inspiração para a história de sua mãe (na verdade, toda a produção é baseada na vida dele) no seriado veio de sua própria experiência com sua mãe na vida real, que também teve de lutar contra a depressão.

“Minha mãe na vida real teve muitos problemas. E algo que ela dava muita importância era de que as pessoas soubessem disso”, recordou o artista em um vídeo para o site do canal Pivot. “Ela não queria que o faxineiro soubesse que ela esteve em um hospital psiquiátrico. Para mim era algo estúpido, pois ela só estava doente. Não precisava ser essa coisa vergonhosa. Então eu tive a ideia de fazer uma série que não tornasse isso algo para se ter vergonha”.

Para retratar as doenças mentais de forma mais apurada possível, Josh contou que muita pesquisa foi feita, acrescentando que, quanto mais pesquisava sobre depressão, ansiedade e bipolaridade, mais percebia que não existe apenas uma forma de viver esses transtornos, pois cada pessoa reage a elas de uma maneira muito individual.

“É algo que varia muito. Mas funciona assim: essa pessoa está doente, precisa de ajuda e tudo bem. Vamos ajudá-la. Esse é um problema. As pessoas têm problemas e está tudo bem”, disse.

Ao longo de suas quatro temporadas, “Please Like Me” apresentou mais personagens lidando com algum tipo de doença mental, além de Rose. Na segunda temporada, conhecemos Arnold (Keegan Joyce), o qual possui transtorno de ansiedade, levando-o a ter ataques de pânicos em situações de estresse, e Hannah (Hannah Gadsby), uma mulher lésbica com depressão.

Eles, assim como qualquer outro personagem da trama (e da vida real), também estão tentando viver suas vidas da melhor maneira possível, enfrentando seus problemas e procurando formas de superá-los. Contudo, por estarmos falando de saúde mental, e como mencionei anteriormente que a série trata o tema de maneira honesta, algumas situações são feitas de maneira que o público possa ter um maior entendimento e até empatia sobre o que aqueles indivíduos estão vivendo.

Por exemplo, quando Arnold tem um ataque de pânico na praia ao ver Josh sendo beijado por outro rapaz. O sentimento de que não é bom o bastante para Josh desencadeia a crise no garoto que fica sentando e pede para que ele não seja tocado e que ninguém fale com ele, apenas que alguém fique por perto para ter certeza de que tudo ficará bem.

Outro exemplo – e um dos episódios mais bonitos e sensíveis de toda a série – , é quando Josh e sua mãe fazem uma trilha juntos, após o suicídio da melhor amiga de Rose no hospital psiquiátrico. Em um determinado momento, os dois conversam sobre o assunto e a mãe pergunta ao filho se ele nunca teve raiva por ela também ter tentado se matar, já que Rose estava com muita raiva da amiga. É um diálogo que emociona e que mostra uma empatia verdadeira do protagonista ao não culpar sua mãe pela doença dela, além de mostrar ao público que suicídio não é uma tentativa de chamar a atenção de ninguém.

Mas eu só me dei conta da intenção de “Please Like Me” em retratar doenças mentais como elas são ao ver um episódio em que Hannah começa a se agredir, após decidir por conta própria que não queria mais tomar seus medicamentos para depressão. Foi algo que realmente mexeu comigo, pois eu também tinha o hábito de me machucar. E ao ver aquela mulher se ferindo daquela maneira, por mais difícil que seja de assistir, percebi que é preciso conversar sobre distúrbios psíquicos abertamente e mostrá-los como eles são e os efeitos dele em cada pessoa.

Nesse mesmo episódio, Rose diz a Hannah quer parar de tomar a medicação para a depressão, pois sente que ela está tornando-a uma pessoa vazia.

“Eu sei, não é o ideal. Você toma o remédio para sair de um buraco escuro, mas acaba em uma casa de exposição em uma rua vazia”, diz Hannah. “Eu mesma tirei o meu remédio. E estou ferrada. Ferrada mesmo. É ruim. Comecei a me agredir de novo. Vou tomar meus remédios de novo. Voltarei a ser normal de novo. Simplesmente dói saber que eu preciso tomar pílulas só para funcionar. É muito doloroso”.

Ou seja, assistir ao seriado, ao mesmo tempo em que distrai a nossa mente, também temos contato com pessoas lidando com doenças mentais e como podemos assimilar aquilo e ajudar quem estiver passando pelo mesmo. Porque essa é mágica das artes: ao nos transportar para a vida e a visão de outra pessoa, elas conseguem nos fazer questionar o que achávamos que sabíamos e aplicar ou adaptar aquilo para a nossa realidade.

E “Please Like Me” cumpre essa missão de forma divertida, mas também real. As quatro temporadas do seriado estão disponíveis na Netflix.


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