Nem todas as pessoas reagem a um trauma como Kesha. E elas também merecem respeito

13. setembro 2017 POP 0
Nem todas as pessoas reagem a um trauma como Kesha. E elas também merecem respeito

Já se passaram mais de dois meses desde o lançamento de “Praying”, single que marcou a volta de Kesha ao cenário musical, depois de quatro anos lutando judicialmente contra o produtor Dr. Luke, o qual ela acusa de ter abusado-a física, emocional e sexualmente. A música integra o mais novo disco da cantora, “Rainbow”, que reúne canções que demonstram sua evolução espiritual e mental nesses últimos tempos.

Segundo a artista, “Praying” é sobre sua “luta intensa contra a ansiedade, a depressão, um incansável distúrbio alimentar, e todas as merdas básicas que acontecem com o ser humano”. “Eu me tornei uma mulher forte e independente. Percebi por meio dessa longa jornada de altos e baixos que, se eu tenho sorte por ter uma voz quer as pessoas escutam, então, eu devo usá-la para o bem e para a verdade.

E embora ela nunca tenha dito com todas as letras que a música é, também, sobre seu agressor, é difícil não associá-la a ele. Especialmente nos versos em que canta “porque você trouxe as chamas e me fez viver um inferno/eu tive de aprender a lutar sozinha/e nós sabemos toda a verdade que eu poderia dizer/vou só dizer que isso é um adeus a você”.

Desde que “Praying” foi lançada, Kesha foi muito elogiada, tanto pelo conteúdo da música quanto pela qualidade do material. Com seus vocais poderosos, a cantora coloca em versos toda a dor que enfrentou e a força que teve para se reerguer; uma narrativa similar a de muitas pessoas que viveram traumas e encontraram na canção identidade e consolo.

Mas essa é a história de Kesha, vale dizer. Se na mesma música ela diz que espera que seu agressor esteja “rezando” e que sua alma mude e que ele encontre sua paz, cabe o lembrete de que nem todo mundo reage da mesma maneira. E isso não quer dizer que essas pessoas não mereçam nosso respeito e empatia. 

Recentemente, uma mensagem foi compartilhada no Twitter por diferentes contas, na qual alguém comparava Kesha com Taylor Swift, que recentemente lançou o single “Look What You Made Me Do”, uma possível resposta a todos que fizeram algum mal a ela. 

“Há duas formas de responder ao trauma. Você pode ser Kesha ou Taylor Swift. Você pode ter raiva, jurar vingança e continuar a sofrer. Ou você pode seguir em frente e esperar que as pessoas que te machucaram possam encontrar a sua paz. Eu não sei quanto a você, mas eu prefiro ser Kesha”.

Embora seja positivo que alguém consiga superar seus traumas e tocar sua vida sem relembrar os males sofridos, a mensagem acima acaba criando dois tipos de pessoas. Como se houvesse alguém “melhor” do que o outro, além de fazer a velha comparação entre mulheres, que em pleno ano de 2017 não precisaria mais existir.

Mas acredito que esse discurso seja ainda mais problemático porque reforça o imaginário de que exista uma “vítima perfeita”. É aquele ser evoluído, cujas dores ensinaram a ser alguém acima dos demais, capaz de perdoar e viver uma vida sem ressentimentos. O contrário disso seria uma pessoa que vive magoada, amarga e solitária, sempre na posição de vítima e incapaz de deixar o passado para trás.

É uma ideia perturbadora, pois não leva em conta a complexidade do trauma vivenciado por alguém, já que cada pessoa reage à dor de forma diferente. Nem mesmo vítimas de estupro, como Kesha, respondem a essa violência seguindo em frente e perdoando seus agressores. O estupro deixa marcas na vida de um indivíduo, que podem durar uma vida inteira.

Depois desse tipo de ataque, uma pessoa pode vir a desenvolver ataques de pânico, transtornos de ansiedade e alimentares, depressão e até vir a cometer suicídio. Não é algo que muitas pessoas consigam simplesmente deixar para lá e viver como se nada tivesse acontecido. Em outras palavras, o estupro pode vir a causar danos psicológicos irreversíveis. Portanto, é importante dizer que nem todo mundo é igual a Kesha. Nem todo mundo emerge de um trauma com mais força e poder.

Parece que encorajamos, enquanto sociedade, que vítimas de abuso – especialmente mulheres – sejam sempre fortes. Como sobreviventes, é preciso esquecer que também foram vítimas de um crime cruel. Como se elas fossem obrigadas a criar do além uma força e resiliência para viver suas vidas, pois ninguém quer ver alguém chorando e remoendo o passado. Pior ainda, queremos que ela sejam sempre fortes, pois ninguém quer lidar com o estupro, uma realidade perversa e que faz vítimas, no Brasil, a cada 11 minutos.

É admirável que Kesha tenha se reerguido e possa voltar a fazer música sem o homem que a abusou de diferentes formas e tentou nos últimos anos acabar com sua carreira. Mas será que todas as mulheres e vítimas de traumas deveriam perdoar quem as fez mal? Não podemos simplesmente aceitar que nem todas as pessoas conseguem, ou sequer querem, perdoar e desejar que o indivíduo em questão “encontre sua paz”? Afinal, mais uma vez, as marcas dos traumas permanecem por anos, talvez uma vida inteira. Por isso, é mesmo justo exigir que sejamos todos como a Kesha?

Eu não estou tentando diminuir o que ela vivenciou. Mas a experiência dela é só dela. Não podemos querer que todos reajam a um trauma como ela. A dor não torna uma pessoa mais forte, mas talvez a sua capacidade de lidar com isso. Embora empoderadora, não podemos achar que uma música pop sobre uma experiência individual e vendida ao mundo seja um modelo de como todos devam se comportar. Isso tira a humanidade e diminui quem não consegue fazer o mesmo.

Tenho orgulho de Kesha e de sua jornada. Mas eu também tenho orgulho de cada pessoa que está tentando seguir em frente e lidar com seu trauma de sua própria maneira. Porque a luta é diária e nem todos saem vitoriosos dela. E nem por isso são menos importantes e suas existências menos válidas. Não somos todos Kesha. E tudo bem não ser. 


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