A representação de pessoas com deficiência no cinema ainda tem muito o que melhorar

05. novembro 2018 Cinema 0
A representação de pessoas com deficiência no cinema ainda tem muito o que melhorar

A linguagem cinematográfica é algo fantástico. Ela, além de ser influenciada por aspectos e valores – ou desvalores – sociais, também os constrói. Para exemplificar: um desses desvalores sociais é o pensamento de que pessoas com deficiência não podem ter participação na sociedade. Assim, é possível inferir que, quem está por trás da produção de um filme, não colocará pessoas com deficiência como personagens – ao menos, não como personagens expressivos para a trama.

E o cinema é uma das principais máquinas que ensinam valores e desvalores da sociedade. É claro que as pessoas têm uma natural noção de distinção entre o real e o imaginário: ninguém acredita que alienígenas e super-heróis existam ou que o céu está caindo, por exemplo. Mas os valores que a trama transmite podem influenciar diretamente os telespectadores. E um dos exemplos desses valores que merece ser incentivado é o de que pessoas com deficiência devem ser incluídas em meios sociais; sejam vivendo em uma sociedade exemplar e sem capacitismo (preconceito em relação às pessoas com deficiência) ou, então, lutando por um mundo sem capacitismo.

UMA ANÁLISE MAIS PROFUNDA — Amaral e Monteiro (2016) fizeram um levantamento de filmes que retratam sobre a questão das pessoas com deficiência lançados dentre 1994 e 2014 e o classificaram por gênero.

Analisando o gráfico elaborado pelos autores, é possível perceber que há uma (óbvia) concentração grande de personagens com deficiência nos filmes de gênero “Drama”. Os outros quatro maiores gêneros em que as pessoas com deficiência são retratadas são: “Documentário” (39), “Biografia/Drama” (19), “Comédia/Drama” e “Comédia” (7) (AMARAL & MONTEIRO; 2016. Grifos da autora).

Para entendermos melhor o gráfico, é preciso explicar os momentos históricos da representação das pessoas com deficiência no cinema, que Albuquerque (2008) divide em cinco:

  • No primeiro momento (final do século XIX e início do século XX), as pessoas com deficiência eram retratadas de forma satirizada e inspirada em mendigos de Nova York, que passavam longe de ter um formato padrão considerado aceitável para a sociedade.
  •  No segundo momento (que vai até a metade do século XX), pessoas com deficiência eram comumente vistas em freakshows, estilos de filmes inspirados nos antigos circos dos horrores (AMARAL & MONTEIRO, 2016). Lá, eram representadas como serem com corpos totalmente deformados, como forma de surpreender a plateia.
  • O terceiro momento retrata as pessoas com deficiência como vilões malucos e anormais, que estão sempre atrás de vingança com quem causou a deficiência.
  • O quarto momento passou a retratar pessoas com deficiência como heróis.
  •  No quinto momento, as pessoas com deficiência ficam concentradas no gênero “Drama”, o qual explora muito bem questões pessoais e sentimentais dos personagens.

Como explicar, então, que existam vários filmes atuais apresentando pessoas com deficiência como exemplos de superação?

Segundo Nogueira (2010), existem dois tipos de drama: os sociais e os psicológicos. Os sociais são histórias em que as pessoas lutam contra um preconceito (por exemplo, “Extraordinário”).

“Já o drama psicológico, põe o indivíduo em confronto consigo mesmo, com os medos, as incertezas, insegurança e convicções, espelhadas frequentemente por aqueles que o rodeiam” (NOGUEIRA, 2010, p. 24).

O aumento dos movimentos sociais e a luta pela emancipação, empoderamento e ocupação das pessoas com deficiência, que, no caso do cinema, estão exigindo mais do que um espaço maior nas telonas e boas representações de si mesmos.

Mas ainda há muito o que lutar.

PRINCIPAIS PROBLEMAS QUE PODEM APARECER EM FILMES QUE RETRATAM PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

  • Aliás, ainda existem os dramas psicológicos trazendo pessoas com deficiência em papéis que sugerem uma condenação aquele indivíduo ser ‘diferente’. Ou melhor, sendo ele mesmo.
  • Como vimos, uma boa parte dos filmes se encaixa no gênero “Drama”. Essa hiperconcentração precisa acabar. Pessoas com deficiência podem ser o que quiserem.
  • É comum que muitos filmes dramáticos tratem com ‘coitadismo’ as pessoas com deficiência, seja porque sofrem preconceito, seja porque elas ‘seriam incapazes’.
  • Nos filmes, raramente a sexualidade e a vida com os amigos dos personagens com deficiência são abordados.
  • Muitos filmes retratam as pessoas com deficiência como superiores e/ou como exemplos de superação. Quando a realidade é bem outra: elas são apenas pessoas comuns.

REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE, M.A. A pessoa com deficiência e suas representações no cinema brasileiro. 2008. 84f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

NOGUEIRA, L. Manuais de Cinema II: Géneros Cinematográficos. Covilhã: Livros LabCom [online], 2010. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2016.

AMARAL, Mateus Henrique do; MONTEIRO, Maria Inês Bacellar. Análise de Obras Cinematográficas para Compreender as Concepções de Professores sobre o Aluno com Deficiência. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, vol. 22, n° 4, Oct/Dec. 2016. Disponível em: . Acesso em: 3 dec. 2018.