Pela primeira vez, um cineasta transgênero é indicado ao Oscar: conheça Yance Ford

05. Fevereiro 2018 Cinema 0
Pela primeira vez, um cineasta transgênero é indicado ao Oscar: conheça Yance Ford

“Uma Mulher Fantástica”, protagonizado pela atriz trans Daniela Vega, não é o único candidato ao Oscar com um artista transgênero envolvido na produção. O documentário da Netflix, “Strong Island”, fez história na premiação: o diretor da obra, Yance Ford, é o primeiro cineasta trans a receber uma indicação.

O filme de Yance aborda a sua busca por justiça, após a morte de seu irmão, William Ford Jr., em 1992. Negro e professor em uma escola de ensino médio, ele foi morto a tiros por Mark Reilly, um homem branco e mecânico. O rapaz chegou a ser indiciado, mas nunca sentenciado pelo crime que cometeu.

Foi na oficina mecânica de Reilly que o crime aconteceu. William foi até lá para buscar seu carro e discutiu com Mark. Não houve testemunhas na hora do disparo, além de um amigo do primeiro, chamado Kevin Myers. Ambos estavam desarmados e foram tratados como criminosos pela polícia, que acabou liberando o mecânico. Um júri todo formado por pessoas brancas determinou que o caso não precisaria ser julgado e ele foi encerrado.

“O caso do meu irmão ocorreu há 25 anos, e simplesmente afirma o que vemos agora”, disse Ford ao Democracy Now. “Não importa se você segue as regras: o sistema de justiça não funciona para pessoas negras nesse país”.

Foi durante esse doloroso momento familiar que Yance começou a lidar com sua identidade de gênero. 

“Eu deixei de ir ao centro de aconselhamento, para descobrir como iria me assumir como lésbica para minha família, para ir ao centro de aconselhamento e descobrir como eu iria lidar com o assassinato do meu irmão, contou o cineasta ao jornal The Guardian.

Para realizar seu documentário, ele levou 10 anos para produzi-lo e vê-lo ganhar as telas do mundo.

E de acordo com Yance, o filme ajuda não apenas a fortalecer uma conversa sobre as relações entre raça e sistema penal, como também ajuda a esclarecer um fato que colocou seu irmão como o “primeiro suspeito de sua própria morte”.

“A coisa mais animadora quando penso na história, é que esse longa é uma correção à ficha do meu irmão”, disse o diretor à revista Entertainment Weekly. “E se essa indicação [ao Oscar] ajuda a engrandecer isso, e se ao fazer história eu ajudo a engrandecer isso, então, está tudo bem para mim”.

Sarah Kate Ellis, presidente e CEO da GLAAD, organização que monitora a representação LGBT na mídia dos Estados Unidos, acredita que a indicação de “Strong Island”, junto a de outros filmes, foi “um grande dia para filmes LGBT no Oscar”.

“Filmes como ‘A Forma da Água’, ‘Uma Mulher Fantástica’, ‘Lady Bird’ e ‘Me Chame Pelo Seu Nome’ não têm apenas representações complexas, detalhadas e emocionantes, mas provam que o público e os críticos querem histórias que abracem a diversidade”, afirmou Ellis em um comunicado à EW. “Essas importantes histórias contribuem para a aceitação LGBT em uma época em que as imagens da mídia são, frequentemente, o holofote de comunidades marginalizadas”.

Outros artistas trans já foram indicados ao maior prêmio do cinema americano: a compositora Angela Morley (em 1974, com “O Pequeno Príncipe”, e em 1976, com “O Sapatinho e a Rosa: A História de Cinderela”), a cantora Anohni (com a música “Manta Ray”, do documentário “Racing Extinction”) e a a artista visual Paige Warner já foi homenageada pela Academia. Agora, Yance se torna o primeiro homem trans a concorrer pela famosa estatueta dourada.

“Todo mundo deveria saber que há uma geração de diretores trans que estão vindo pegar seus Oscar”, concluiu Ford à EW, depois de receber a indicação a Melhor Documentário. “Por isso, eu posso ser o primeiro, mas não serei o último, com certeza”.