Paternidade e a relação entre pai e filho com deficiência

09. dezembro 2018 Cinema 0
Paternidade e a relação entre pai e filho com deficiência

Na militância PCD (Pessoas Com Deficiência), muito se discute o quanto a mídia (inclusive os filmes), influencia no tratamento de quem cuida da criança com deficiência. O que se enxerga, muitas vezes, são histórias de superação, carregadas de drama – e muitas vezes colocando as pessoas com deficiência como reféns de uma situação e/ou coitadinhas. Como resultado, muitas pessoas que cuidam de crianças com deficiência acabam não tendo outra referência midiática a não ser o maior apelo para o coitadismo quando se fala entre relação pais e filhos: o mimo.

Mas, por influências do machismo, toda essa discussão do parágrafo anterior é mais voltada para as mães. E os pais?

Bom, cada vez mais os pais estão cuidando das crianças.

No modelo antigo, tínhamos o pai autoritário. “O pai personifica autoridade e segurança, ideais e valores” (Baruffi, 2000, p.4). Além disso, nele também tínhamos a mãe como sendo a apoiadora emocional e o pai suprindo o que falta diante do amor incondicional da mulher pelo filho: era ele quem colocava dinheiro em casa.

No novo modelo, temos pais mais envolvidos com o dia-a-dia dos filhos. Lamb (1997) ressalta que crianças com pais altamente envolvidos apresentam maior competência cognitiva, maior nível de controle interno, maior empatia, e menor interesse sexualmente estereotipado.

Entretanto, muitos serviços de saúde e educação evidenciam apenas a presença da mãe nos cuidados das crianças. Conforme explicam Silva e Aiello (2009), ainda que pesquisas tenham indicado o crescente envolvimento paterno e as mudanças nos papéis que homens e mulheres exercem como cuidadores em lares onde coabitam ambos os genitores, menos de 2% dos pais compartilham igualmente as tarefas de cuidados com a criança.

Mas isso tudo se aplica para crianças sem deficiência. Mas e no caso das com deficiência?

De acordo com Lamb e Billings (1997), as pesquisas que envolvem a relação parental e familiar de pessoas com deficiência ainda estão muito focadas na mãe. E, quando se fala do pai, elas o fazem de maneira rasa, não aprofundada. “Às vezes, relata-se que as mães são significativamente mais envolvidas que os pais e, outras vezes, que os pais gastam um tempo significativo com seus filhos deficientes.”. (SILVA & AIELLO, 2009, p. 495).

Entretanto, Silva e Aiello (2009) fizeram uma série de entrevistas com pais de crianças com deficiência. Como resultado, analisaram algumas características em comum para com esses pais.

– Pouca escolaridade e nível socioeconômico baixo, o que prejudica o comportamento do pai já que, assim, estes ficam mais estressados.

– Pouca demonstração de stress diante de um filho com deficiência. Mas muita demonstração de auto-estima elevada.

– Muitos deles até passavam tempo com os filhos, mas não cuidavam deles efetivamente.

– Esforço de nível razoável para com o envolvimento familiar.

Segundo o mesmo estudo, como resultado:

– Pouquíssimos pais compartilham das mesmas tarefas que as mães, sendo que muitas famílias com filhos com deficiência se apresentam no modelo antigo de estrutura familiar.* Além disso, são fonte de apoio financeiro e emocional para as mulheres. E isso sem falar sobre o tempo que os pais reservam para os filhos: neles, não cuidam das crianças, mas brincam e se divertem com elas.

*A maioria sequer vai pesquisar ou procurar apoio em relação à deficiência do filho.

PATERNIDADE, MASCULINIDADE TÓXICA E FICÇÃO – Antes de mais nada, é preciso entender o conceito de masculinidade tóxica. Ela se refere a um grupo de comportamentos que podem ser (auto)destrutivos e perigosos para homens e à sociedade como um todo.

Para exemplificá-la e como ela afeta uma criança com deficiência, pensemos no filme “Como Treinar Seu Dragão”, em que o protagonista Soluço e seu pai Stoico não têm um relacionamento saudável, dada à natureza agressiva do segundo, que insiste em ensinar o filho a adotar uma postura violenta e o incentiva a matar um dragão. 

Soluço, contudo, é muito doce e vai na contramão dos ensinamentos do pai, fazendo amizade com um dragão, o Banguela. Juntos, eles mudam a forma como as criaturas são vistas, fazendo uma verdadeira revolução – na qual todos são aceitos, inclusive os dragões, que antes eram perseguidos pelo pai e pelo povo de Berk, a vila viking onde os personagens vivem.

Embora na ficção as coisas tenham ido bem entre Soluço e Stoico, as coisas não são bem assim na realidade. Seria muito positivo que mais produções trouxessem boas representações de pais com seus filhos que tenham alguma deficiência. Assim, muitas situações como aquelas de “Como Treinar Seu Dragão” e da vida real, descritas acima, ficarão no passado.

FONTES

Baruffi, A. M. Z. (2000). Família e socialização: um estudo das implicações da situação de presença/ausência paterna, São Paulo. Tese de doutorado não-publicada, Universidade de São Paulo.

Lamb, M. E. (1997). Fathers and child development: An introductory overwiew and guide. In M. E. Lamb (Org.), The role of the father in child development (pp. 1-18). New York: Wiley.

Lamb, M. E., & Billings, L. A. L. (1997). Fathers of children with especial needs. In M. E. Lamb (Org.), The role of the father in child development (pp.179-190). New York: Wiley.

SILVA, Nancy Capretz Batista da; AIELLO, Ana Lúcia Rossito. Análise descritiva do pai da criança com deficiência mental. 2007. P. 493-503. Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2009.

Seis vídeos para entender masculinidade e masculinidade tóxica na cultura pop – Nebulla