Papo sério: a gente precisa de uma mulher para apresentar o Oscar no ano que vem

06. novembro 2017 Cinema 0
Papo sério: a gente precisa de uma mulher para apresentar o Oscar no ano que vem

Depois das denúncias de assédio sexual e estupro envolvendo o produtor Harvey Weinstein, Hollywood tem visto inúmeras acusações contra atores, diretores e produtores. A indústria cinematográfica está sendo obrigada a lidar com sua conhecida misoginia, que afeta as mulheres muito mais do que apenas nos testes de elenco, salários desiguais, caracterizações de personagens ou falta de oportunidades de trabalho na frente e atrás das câmeras. O problema é muito pior.

E anualmente, acontecem as tradicionais premiações que celebram os melhores do cinema e da televisão, como o Oscar e o Globo de Ouro. Esses eventos têm se tornado cada vez mais políticos ao passar dos anos. Isto é, os apresentadores e os organizadores têm utilizado os palcos e holofotes para tocar em assuntos sensíveis e que merecem atenção do público. Obviamente, Harvey Weinstein, Kevin Spacey e tantos outros acusados de assédio serão o alvo das piadas dos apresentadores. O Oscar já escolheu seu mestre de cerimônias: Jimmy Kimmel comandará o prêmio pelo segundo ano consecutivo, e o Globo de Ouro ainda anunciará seu MC, mas é muito provável que seja mais um homem.

Mas será que queremos homens fazendo piadas sobre assédio sexual? Por que não dar o espaço para que as mulheres, as maiores vítimas desse tipo de violência, possam falar sobre o tópico?

O número de mulheres apresentando premiações sempre foi bem inferior aos homens, embora em tempos recentes elas tenham tido oportunidades de chefiar essas premiações. Em 2014, ao lado de James Franco, Anne Hathaway foi uma das apresentadoras do Oscar. No ano seguinte, foi a vez de Ellen DeGeneres ocupar o posto, quando fez a selfie mais compartilhada da história do Twitter.

Já no Globo de Ouro, Tina Fey e Amy Poehler comandaram o prêmio por três anos consecutivos (2013-2015), fazendo piadas sobre os padrões duplos de Hollywood, padrões de beleza e até sobre as acusações de estupro envolvendo o comediante Bill Cosby. Quanto ao último ponto, vale dizer que elas não brincaram sobre as vítimas ou a violência, mas com o próprio agressor.

Mas a situação é menos sobre oportunidades iguais na função de mestre de cerimônias e mais sobre lugar de fala. Sim, muitos homens relataram ter sido vítimas de assédio sexual na indústria cinematográfica, e ainda assim, seus agressores eram todos homens. Contudo, essa é uma situação que atinge em maior parte as mulheres: segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 52% das mulheres economicamente ativas no mundo todo já sofreram assédio sexual no ambiente de trabalho.

Por isso, de novo, queremos mesmo que um homem faça humor com o assunto? Não é nada pessoal: Jimmy Kimmel, Fallon ou qualquer outro apresentador podem trabalhar esse tópico de maneira inteligente. Eu tenho certeza (principalmente no que diz respeito ao primeiro), que eles, junto ao time de roteiristas, possam fazer uma crítica sobre Harvey Weinstein e os diversos casos de misoginia que aconteceram dentro da indústria cinematográfica. Porém, não será genuíno. Homens não vão conseguir captar todas as nuances desse tipo de violência, justamente por serem homens.

É mais do que necessário que os organizadores dos eventos permitam que as mulheres subam aos palcos e falem sobre assédio sexual, estupro e etc. É preciso que as próprias mulheres de Hollywood possam criticar o sistema violento em que estão inseridas e que todos as ouçam. Não que elas nunca tenham feito isso, mas agora, mais do que nunca, é urgente deixá-las falar e criar a reflexão no grande público.

Por isso, fica aqui um apelo para que os Kimmel, e todos os outros homens que apresentarão os prêmios no ano que vem, deixem o holofote ao menos dessa vez. Se quisermos criar mudanças, é preciso permitir que as mulheres possam liderar. E acreditem: elas sabem como fazê-lo.


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