Pais de crianças negras mostram em vídeo como falam sobre racismo com seus filhos

29. novembro 2016 Internet 0
Pais de crianças negras mostram em vídeo como falam sobre racismo com seus filhos

Como conversar com crianças sobre racismo? E como conversar com crianças negras sobre o racismo? Não é um assunto fácil de ser abordado, e é seguro afirmar que nenhum pai de filhos negros gostaria de falar sobre o preconceito racial que eles provavelmente encontrarão em suas vidas.

Porém, essa conversa ainda é necessária para muitas famílias negras e inter-raciais, as quais precisam preparar as crianças para o duro e violento mundo. O vídeo “Dear Child” (“Querido Filho”, em português), da plataforma de storytelling Jubilee Project, traz pais de crianças negras tendo a difícil conversa sobre racismo com os pequenos.

“Eu quero que você saiba que há muitas coisas acontecendo no mundo. Não vou mentir para você: você vai ver coisas que vão te entristecer, que vão machucar. Sei como é difícil para você se ver no lugar de Tamir Rice [garoto negro de 12 anos que foi morto por um policial enquanto brincava com uma pistola de brinquedo]. Então, eu quero que você esteja sempre preparado e de olho. Sei que isso tira de você a oportunidade de ser criança, mas estou tentando te proteger agora.

Se você for abordado pela polícia, fique calmo, não lute, não refute. Você precisa entender que, se você quiser continuar vivo, você precisa fazer o que eles dizem. Porque isso pode ser a diferença entre eu ver você de novo e não poder vê-lo de novo.

É triste dizer que, às vezes, isso pode não funcionar. Vou ser honesta: talvez nem funcione. Sei que é difícil. E eu sei que parece assustador, mas não é sua culpa. Vivemos em uma sociedade que funciona para que nós não possamos fazer sucesso. Ela é construída de tal maneira, que faz com que nós falhemos, e você precisa ser melhor do que tudo isso.

Ande sempre com sua cabeça erguida e tenha orgulho. Você é um guerreiro. Tenha sempre em mente que você é inteligente, lindo, brilhante, e que você tem futuro. Você tem valor nessa sociedade. E acima de tudo: você é meu filho. Independente do que aconteça, porque eu não sei o que vai acontecer hoje, amanhã… Não importa. Só não mude. Não mude e tenha orgulho de quem você é.

Eu amo você com todas as minhas forças, vou ensinar a você a caminhar por essa vida. Você não precisa ter medo de nada. Nós vamos passar por isso juntos. E nunca, mas nunca mesmo, culpe-se pelo que as outras pessoas fazem. Eu te amo. Eu acredito em você. E eu acredito que os outros que são como você vão usar sua luz e, juntos, vão mudar o mundo”.

Alertar as crianças negras sobre o racismo, bem como fortalecer a autoestima delas, para que não se sintam menores do que as outras, é fundamental na criação desses indivíduos. E essa conversa independe de classe social. As atrizes Sandra Bullock e Taís Araújo, ambas mães de crianças negras, também já afirmaram que conversam com seus filhos sobre racismo, como forma de protegê-los e prepará-los para a vida.

Contudo, é igualmente importante que crianças brancas também sejam educadas sobre a diversidade racial e a respeitar as diferenças. Segundo um estudo realizado em 1997, crianças conseguem notar raças em torno dos 6 meses de idade. Entre 3 e 5 anos, elas começam a formar algumas percepções sobre raça.

“As pessoas precisam começar a pensar: ‘como surge uma pessoa racista? Como ela aprende a ser racista? Será que eu estou ensinando ou deixando meu filho internalizar práticas racistas?'”, disse Luciana Bento, autora do blog A Mãe Preta, em entrevista ao Catraca Livre. “Essas reflexões precisam ser feitas por todos os pais, principalmente por pais de crianças que não são alvo de racismo. Porque nessa situação, não há como se omitir: ou você se posiciona contra o racismo ou você está o referendando silenciosamente”.

O vídeo acima traz um olhar para dentro de famílias negras, e força uma reflexão sobre o tipo de mundo que estamos deixando a elas, e a forma como estamos criando os futuros adultos. Combater o racismo é um trabalho de todos nós. E é preciso que comecemos a fazer isso desde muito cedo.