“Outros jeitos de usar a boca”: um livro sobre traumas, perdas, autodescobrimento e cura

“Outros jeitos de usar a boca”: um livro sobre traumas, perdas, autodescobrimento e cura

Meu primeiro contato com Rupi Kaur foi em 2015, quando uma imagem sua de uma marca de menstruação foi suspensa pelo Instagram. Ela lutou contra a rede social e teve sua foto recuperada. Foi um manifesto importante pela normalização de algo que acontece com muitas mulheres no mundo todo, cujos corpos ainda são vistos com reprovação quando não são explorados sexualmente.

E, então, meu segundo contato com ela veio com um vídeo da Jout Jout, falando sobre o livro “Outros jeitos de usar a boca”, uma coleção de poemas escritos por Rupi. Eu fiquei comovido com a sensibilidade e toda a dor transmitida pela escritora nas poucas poesias que a youtuber leu. Logo imaginei que a obra não seria de uma leitura fácil, mas ao mesmo tempo irresistível. E essa é uma das poucas vezes que posso dizer sem modéstia que eu estava certo.

Quando recebi o livro da Editora Planeta, responsável pela publicação do livro no Brasil, li de uma vez, de tão curioso que estava pelo que estava escrito impresso naquelas páginas. Quando o terminei, foi como se eu tivesse vivenciado, de alguma maneira, toda a dor, a perda, o trauma e o amor que Rupi experienciou em sua vida e transformou em palavras.

“Outros jeitos de usar a boca” é dividido em quatro capítulos: “a dor”, “o amor”, “a ruptura” e “a cura”, os quais são quatro olhares distintos sobre diferentes partes da sua vida e, provavelmente, de muitas mulheres. Há uma certa universalidade em sua escrita, como se ela quisesse demonstrar, por meio de suas vivências, o que significa ser mulher em um mundo patriarcal. Sobretudo, uma mulher que não é branca (Rupi possui origens indianas).

A autora não tem medo de se mostrar vulnerável, e faz disso sua arma e sua força para romper com seus traumas e amores que não acabaram bem. Logo no primeiro capítulo, ela fala sobre estupro, relacionamentos abusivos, a dor de conviver com um pai alcoólatra e ausente e uma relação complicada até com a própria mãe. Todos os traumas que carrega estão ali, ainda vivos e perturbadores, e infelizmente muito comuns a tantas pessoas.

Adiante, no capítulo chamado “o amor”, ela escreve por vezes de maneira doce, por vezes de maneira crua, afastando a idealização do outro e a ideia de que esse sentimento é simples. Não é. E nessa mesma parte, a escritora fala sobre sexo, masturbação feminina e a importância de ser inteira antes de se doar a outra pessoa. Aqui é impossível não se conectar, pois se os traumas nem sempre são universais, o amor, aquele fogo que arde no peito, é algo que todo mundo já viveu – e sofreu quando acabou.

E por falar nisso, “a ruptura” vem em seguida com temas bem amargos, como a traição, o medo da solidão e de nunca mais ser amada por outra pessoa. Ao mesmo tempo, é uma jornada de autodescobrimento: quem somos nós quando não estamos com alguém? Quem somos nós quando não temos mais uma pessoa para apontar nossas falhas e acertos? E por estarmos falando de trechos da vida da própria Rupi Kaur, ela não esconde que também já foi feriu outra pessoa, que já esteve alguém por conveniência e ficou com alguém pela sua incapacidade de estar só. 

Por fim, “a cura” vem pelo perdão a si mesma e pela aceitação de ser quem é. Esse é um capítulo poderoso que instiga os leitores – principalmente as leitoras – a serem mais gentis e carinhosos com seus próprios corpos, templos de todo Deus que habita em cada um. Não só isso, ela nos força a aceitar que somos quem somos por conta das diferentes coisas que vivemos, e que está tudo bem sermos assim. Somos seres complexos, cheios de qualidades e defeitos, cujas características nos tornam únicos. Não só isso, além de fazer as pazes consigo mesmo, a autora nos pede uma última coisa: jamais mudar por outra pessoa ou esperar que o outro seja a nossa salvação para uma vida triste e solitária. Como ela mesma escreve: “você precisa ter vontade de passar o resto da vida antes de tudo com você”.

“Outros jeitos de usar a boca” é um livro que emociona, arrepia, nos faz refletir e demonstra a força que existe em cada um de nós para superarmos qualquer dor e trauma para, enfim, seguirmos em frente. Não é uma leitura sempre fácil, como eu disse anteriormente, pois tudo ali é escrito de maneira tão humana, que assusta. Reconhecer quem somos nem sempre é uma tarefa agradável. Porém, como Rupi Kaur coloca em suas páginas, essa é uma experiência dolorida, mas sempre recompensadora.


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