O Oscar teve alguns bons momentos, mas deixou de premiar quem mais deveria: as mulheres

05. março 2018 Cinema 2
O Oscar teve alguns bons momentos, mas deixou de premiar quem mais deveria: as mulheres

Desde que os indicados ao Oscar foram anunciados, todo mundo ficou animado com as várias possibilidades de prêmios para as mulheres. Greta Gerwig havia sido indicada para Melhor Roteiro Original, Melhor Direção e Melhor Filme, graças ao seu filme “Lady Bird: A Hora de Voar”.

“Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississípi” poderia render prêmios de Melhor Roteiro Adaptado, Canção Original e Fotografia, podendo ir mais além da história que já foi feita, já que Dee Rees, diretora e roteirista da obra, e Rachel Morrison, tornaram-se, respectivamente, a primeira mulher negra e a primeira mulher indicadas em seus campos de atuação (roteiro e fotografia). 

Em Figurino, Jacqueline Durran tinha dois filmes na disputa (“A Bela e a Fera” e “O Destino de Uma Nação”); em Mixagem de Som, Mary H. Ellis era a sexta mulher na história a concorrer na categoria; Animação tinha duas mulheres no páreo (Nora Twomey, por “Breadwinner”, e Dorota Kobiela, por “Com Amor, Van Gogh”). Em Melhor Documentário em Curta-Metragem, havia três produções dirigidas por mulheres (“Heroin(e))”, “Traffic Stop” e “Edith+Eddie”). Havia um bom número de mulheres indicadas, ainda que em uma quantidade menor em relação aos homens. Mas apenas 6 delas saíram vitoriosas.

E isso aconteceu em uma cerimônia que se esforçou para chamar a atenção para o fato de que as mulheres têm menos oportunidades na indústria cinematográfica, e que lembrou a força daquelas que romperam com o silêncio e denunciaram o assédio sexual no ambiente de trabalho. No final das contas, parece que tudo não passou de discurso sobre mudanças que virão apenas no futuro. No presente, as mulheres precisam brigar para ter seus trabalhos reconhecidos.

Mas vamos falar sobre a cerimônia. Ela foi comandada pelo apresentador Jimmy Kimmel, mais uma vez. Depois do erro na entrega do prêmio de Melhor Filme, ele voltou para “se redimir”. E se saiu bem. Em seu monólogo de abertura, Kimmel fez uma comparação divertida sobre o Oscar e o comportamento masculino.

“Ele é o homem mais amado e respeitado em Hollywood. E há um motivo para isso. Olhem para ele. Ele mantém suas mãos onde podemos vê-las. Ele nunca fiz algo ruim e, mais importante, nenhum pênis”, brincou. “Ele é, literalmente, uma estátua de limitações. E é mais homens como esse que precisamos nessa cidade”.

O mestre de cerimônias também comentou sobre as mudanças que as mulheres têm feito em Hollywood, no que diz respeito ao fim do assédio sexual e abuso de poder no ambiente de trabalho. Jimmy ainda aproveitou para falar sobre as disparidade salarial entre homens e mulheres e comemorou as conquistas femininas no Oscar deste ano.

Sam Rockwell foi premiado Melhor Ator Coadjuvante por seu papel em “Três Anúncios Para Um Crime”, mesmo que seu personagem tenha uma relação complicada envolvendo racismo e uma aparente ‘redenção’ ao final. A Melhor Atriz Coadjuvante foi Allison Janney, de “Eu, Tonya”. Essas duas categorias eram bem previsíveis, uma vez que ambos os artistas levaram prêmios em outros eventos pelos mesmos trabalhos. Enquanto isso, “A Forma da Água” e Guillermo Del Toro levaram, respectivamente, Melhor Diretor e Melhor Filme.

Aliás, o Oscar foi bem previsível em outras categorias, também. O Melhor Ator foi Gary Oldman, por “O Destino de Uma Nação”. Ignorou-se o fato de que o artista possui acusações de violência doméstica, para premiá-lo com uma das mais altas honrarias de Hollywood. E ele não foi o único: o ex-jogador de basquete Kobe Bryant foi acusado de estuprar uma mulher em 2003, e também foi premiado com o Oscar de Melhor Curta de Animação por “Dear Basketball”.

E numa época em que muito se fala sobre o movimento #MeToo e #TimesUp, é decepcionante que dois homens com complicados históricos envolvendo violência contra a mulher sejam premiados. Aliás, foram poucos os momentos em que as iniciativas foram lembradas durante toda a transmissão do Oscar.

Antes da cerimônia começar, pouco foi perguntado às atrizes no tapete vermelho sobre a campanha pelo fim do assédio em Hollywood. Ashley Judd e Mira Sorvino, que denunciaram o ex-produtor Harvey Weinstein, falaram sobre a causa e revelaram que estão trabalhando para alterar leis nos Estados Unidos, para proteger as mulheres nos mais variados ambientes de trabalho. Quem mais se manifestou foi Taraji P. Henson que, ao conversar com Ryan Seacrest (também acusado de assédio por uma antiga stylist), disse: “O universo tem um jeito de cuidar de pessoas boas. Você entende o que eu digo?”.

Mas poucas celebridades usaram o pin da Time’s Up (Jane Fonda fez questão de não esconder o seu) e, durante a cerimônia, poucos usaram o momento em cima do palco para começar uma discussão sobre os direitos das mulheres. Porém, foi bonito ver Ashley Judd, Salma Hayek e Annabella Sciorra dizerem algo a respeito.

“Nesse ano, muitos falaram a sua verdade e a jornada na nossa frente é longa, mas aos poucos, um novo caminho surgiu”, disse Sciorra. Judd acrescentou que “as mudanças que nós estamos testemunhando são lideradas pelas novas vozes poderosas, pelas vozes diferentes, pelas nossas vozes, unindo-se em um coro que diz que a hora finalmente chegou”.

Em seguida, um bonito vídeo sobre a importância da diversidade e da representatividade foi ao ar.

Sandra Bullock e Emma Stone foram as responsáveis por ‘cutucar’ a baixa quantidade de mulheres indicadas ao Oscar. A primeira entregou o prêmio de Melhor Fotografia e, ao anunciar os indicados, disse: “eis os quatro homens indicados e a pioneira mulher indicada”, em referência a Rachel Morrison, única mulher da categoria e a primeira em 90 anos de Oscar a receber a indicação nessa categoria.

Já Emma Stone, encarregada de chamar o Melhor Diretor ao palco, brincou dizendo: “esses quatro homens e Greta Gerwig criaram suas próprias obras-primas nesse ano”. Foi um comentário que fez muita gente cair da cadeira e um verdadeiro puxão de orelha para a Academia e Hollywood, mas não podemos nos esquecer, também, que nessa categoria, um negro nunca levou o prêmio. Seria a primeira vez, caso Jordan Peele fosse o vencedor.

E falando nele, Peele fez história no Oscar: premiado com Roteiro Original, pelo filme “Corra!”, o cineasta se tornou o primeiro negro da história a vencer na categoria. 

“Isso significa muito para mim. Eu parei de escrever esse filme umas 20 vezes, porque achei que ele era impossível, porque achei que ele não iria funcionar, porque achei que ninguém o faria. Mas eu voltava a ele, porque achava que, se alguém me deixasse fazê-lo, as pessoas o ouviriam e o assistiriam”, disse. “[Dedico] À minha mãe, que me ensinou a amar, mesmo em meio ao ódio”.

Em um momento de descontração, Tiffany Haddish e Maya Rudolph roubaram a cena no Oscar, fazendo ótimas piadas e deixando a gente querendo que as duas apresentem a premiação no próximo ano. Aliás, Tiffany compareceu ao evento com o mesmo vestido que usou na estreia do filme “Girls Trip” e no humorístico “SNL”! Maravilhosa! Para um vestido que custa os olhos da cara, vale a pena, sim, usá-lo até gastá-lo.

LGBTs também tiveram seu momento no Oscar: a diretora e roteirista Dee Rees compareceu à cerimônia com sua esposa; “Me Chame Pelo Seu Nome” venceu na categoria Melhor Roteiro Adaptado; “Uma Mulher Fantástica”, longa chileno protagonizado por uma atriz trans, Daniela Vega, ganhou Melhor Filme Estrangeiro, e a atriz se tornou a primeira artista abertamente trans a apresentar um indicado à estatueta dourada. E isso aconteceu ao introduzir Sufjan Stevens, que canta “Mystery of Love”, música do filme “Me Chame Pelo Seu Nome”. Em 2018, filmes com personagens LGBT foram indicados mais uma vez nas principais categorias da premiação.

Mas quando falamos de gênero, o Oscar ainda tem muito a melhorar: Greta Gerwig, Dee Rees, Rachel Morrison, Tatiana S. Riegel, Jacqueline Durran e outras mulheres saíram de mãos vazias. Ao mesmo tempo em que o evento exaltou as mulheres, se negou a dar a elas o reconhecimento por seus trabalhos. 

Além de Allison Janney, as outras mulheres premiadas foram: Lucy Sibbick (Cabelo e Maquiagem – “O Destino de Uma Nação”), Darla K. Anderson (produtora da animação “Viva: A Vida é Uma Festa”), Kristen Anderson-Lopez (Canção Original, “Viva a Vida é uma Festa”), Rachel Shenton (Cura-metragem, por “The Silent Child”) e Frances McDormand (Melhor Atriz – “Três Anúncios Para Um Crime”).

Esta última, inclusive, ao subir ao palco, homenageou todas as mulheres indicadas da noite.

“Estou hiperventilando. Se eu cair, me levantem, porque eu tenho umas coisas a dizer”, começou Frances, agradecendo seu marido e seu filho, os quais foram criados por mulheres feministas. “Eles se valorizam e valorizam aqueles em torno deles. Sei que vocês têm orgulho de mim e isso preenche meu coração com uma alegria sem fim”.

Em seguida, ela colocou seu prêmio no chão, para ter uma “perspectiva maior”.

“Eu poderia ter a honra de ver todas as mulheres indicadas em todas as categorias de pé comigo?”, pediu. “Meryl, se você fizer isso, todo mundo fará. As cineastas, as produtoras, as diretoras, as roteiristas, as cinegrafistas, as compositoras, as designers. Vamos”, continuou. “OK. Olhem à sua volta. Olhem, homens e mulheres, porque nós todas temos histórias a contar e projetos que precisam de financiamento. Não conversem sobre isso em festas. Convidem-nos para ir a seus escritórios algum dia ou vocês podem vir aos nossos. O que quer que seja melhor para você, e nós falaremos sobre eles. Eu tenho duas palavras para dizer a vocês hoje à noite, homens e mulheres: INCLUSION RIDER”.

Inclusion Rider, segundo explicou a revista The Hollywood Reporter, é uma cláusula que atores podem colocar em seus contratos, para garantir igualdade de gênero e raça nos sets de filmagem. Isso inclui não apenas o elenco, mas toda a equipe envolvida na produção de um filme.

Essa parece ser uma boa iniciativa para vermos uma diversidade maior nos filmes que chegam aos cinemas. E quem sabe assim, também veremos mais mulheres premiadas no Oscar. Parabéns às ganhadoras, mas a Academia tem muito a melhorar ainda.