Olivia Munn denunciou sozinha um caso de abuso sexual. Quando homens começarão a fazer o mesmo?

16. setembro 2018 Famosos 0
Olivia Munn denunciou sozinha um caso de abuso sexual. Quando homens começarão a fazer o mesmo?

“O Predador” estreou nos cinemas brasileiros na última quinta-feira (13) com uma cena a menos, graças à atriz Olivia Munn. Depois das gravações do filme, a artista soube por uma conhecida que o homem com quem atuou na cena em questão era acusado de ter abusado sexualmente de uma menor de idade. Ao tomar conhecimento do fato, ela avisou a Fox, produtora do filme, que retirou a sequência da obra. Em 2009, o ator Steven Wilder Striegel, de 47 anos, foi preso por tentar convencer uma menina de 14 anos a fazer sexo com ele, e no ano seguinte, se declarou culpado da acusação. Munn contracenou com ele em apenas uma cena, na qual ele dá em cima dela repetidas vezes. 

Por meio de um porta-voz, a Fox afirmou que não sabia das acusações contra Steven Wilder.

“Nosso estúdio não estava ciente do passado do sr. Striegel quando ele foi contratado”, disse o porta-voz ao jornal Los Angeles Times. “Nós não estávamos cientes do seu passado durante o processo de escolha dos atores, devido a limitações legais que impedem estúdios de checar o histórico dos artistas”.

Quem sabia, contudo, era o diretor de “O Predador”, Shane Black, que disse à mesma publicação que optou por “ajudar um amigo”.

“Pessoalmente, eu escolhi ajudar um amigo”, disse em um comunicado à mesma publicação. “Eu entendo que outras pessoas possam desaprovar isso, já que a condenação dele se deu em uma acusação sensível e que não deve ser encarada superficialmente”. O cineasta, porém, acrescentou que sempre acreditou que o amigo foi “pego em uma situação ruim em vez de algo depravado”.

Mesmo com a situação resolvida, obviamente o assunto seria pauta para a mídia, que perguntou continuamente à Olivia Munn sobre o que aconteceu nos bastidores do filme. E é aí que, em vez de ter o apoio dos colegas de elenco e do estúdio, a atriz se viu sozinha, tendo de lidar com os questionamentos da imprensa sem a ajuda de ninguém. Em entrevista à apresentadora Ellen DeGeneres, ela disse ter se sentido ‘castigada’ por falar a verdade.

“Quando eu contei aos meus colegas de elenco, eu fui castigada no dia seguinte pelas pessoas do estúdio por contar a eles e não ter ficado quieta. E bem, foi algo que aconteceu. Quando você faz filmes, você tem um grande alcance. Ele vai para todos os lugares; pessoas do mundo todo vêem o que fazemos. E um pouquinho de fama não pode ser usado para machucar alguém”, disse, acrescentando que o restante do elenco se manteve em silêncio em vez de falar sobre a situação.

“Ninguém disse nada sobre isso comigo. Ninguém conversou comigo. Ninguém veio até mim naquele dia. No começo, achei que, talvez, fosse porque eles não sabiam o que dizer. Mas, em particular, eu me senti deixada de lado. E isso é o que eu acho que é importante que as pessoas entendam: quando você ver alguma coisa, você precisa dizer alguma coisa, embora não seja fácil. E vai haver pessoas que ficarão com raiva de você por não fazer parte do jogo. Acho que as pessoas esperavam que eu ficasse quieta, pois esse filme é meu. Mas a verdade é que eu não ligo. Eu não me importo que esse filme possa me dar todo o dinheiro e poder do mundo: se ele custa a vida de uma pessoa, eles podem ficar com tudo isso. Eu não quero essa carreira”.

Depois que a história ganhou força internet na semana passada, Sterling K. Brown e Boyd Holbrook, colegas de elenco de Olivia em “O Predador”, mandaram mensagens de apoio à estrela. Mais importante ainda, a vítima do abuso sexual, Paige Carnes, agradeceu à atriz por ter se manifestado.

“Eu não pude falar por mim quando tinha 14 anos. Eu não tenho vergonha do que foi feito comigo. Não sou eu quem precisa carregar a vergonha”, disse Paige ao Los Angeles Times. “Ela [Olivia] falou por mim. Ela tomou uma posição e, assim, ela tomou uma posição por todas que sofreram como eu. Ser reconhecida por uma estranha em uma plataforma pública sobre esse problema é incrivelmente empoderador”.

É ótimo e positivo que Olivia Munn tenha conseguido deletar a cena do filme, além de ter tornado o caso de abuso público, afinal, ninguém mais saberia sobre ele e o ator continuaria trabalhando em Hollywood tranquilamente. O problema, contudo, está nos homens que não se manifestam e ainda dão cobertura a outros homens que cometeram crimes contra as mulheres. Shane Black, diretor de “O Predador”, deu trabalho para Steven Wilder Striegel em outros dois filmes: “Homem de Ferro 3” e “Dois Caras Legais”. Ou seja, mesmo sabendo do crime cometido pelo amigo, Black preferiu ignorar o passado e continuar apoiando um abusador. E no caso de seu mais recente longa-metragem, ainda colocou em risco a segurança da única mulher de grande destaque da obra. Essa ‘passada de pano’ é uma das manifestações mais nocivas da masculinidade tóxica, pois coloca a segurança das mulheres em perigo o tempo todo, permitindo que a cultura de estupro permaneça intacta.

A camaragem – ou ‘broderagem’ masculina – também é muito perpetuada na cultura pop, como no seriado “13 Reasons Why”, no qual o personagem Justin (Brandon Flynn) sabe que sua namorada Jessica (Alisha Boe) é estuprada pelo amigo Bryce (Justin Prentice), mas opta por não denunciá-lo. Na série “How I Met Your Mother”, Barney (Neil Patrick Harris) possui um lema: bros before hoes, ou em português, os amigos antes das vadias. O sentido da frase é de que as amizades sejam priorizadas em vez relacionamentos, e embora pareça positivo, denigre as mulheres, ao mesmo tempo em que facilita que os crimes dos amigos sejam acobertados pelos seus pares.

Por isso, Shane Black deveria servir como exemplo do que NÃO fazer em casos de violência contra a mulher: não esconda, não faça de conta que não viu ou que é algo menor. Denuncie. 

E além disso, os colegas de elenco de Olivia Munn, também não devem sair ilesos das críticas: ao não falar sobre o assunto, deixaram com que a atriz tivesse de lidar com o peso da situação sozinha, e ainda perpetuam a noção de que é dever das mulheres fazer esse tipo de denúncia. Mais do que nunca, as mulheres estão demonstrando que não irão mais se calar em casos de violência. E é preciso que os homens as escutem, mas que também ajam. Não dá para mudar o mundo quando metade dele não faz nada ao tomar conhecimento de um caso de assédio. Eles levaram muito tempo para se manifestar – e só o fizeram depois de Olivia ter dito exaustivamente o quão sozinha se sentiu pela falta de engajamento dos colegas. 

A violência contra as mulheres não vai acabar enquanto todos não estiverem determinados a combatê-la. Aos homens, especialmente, é preciso escutar mais as mulheres e desconstruir junto de seus pares essa masculinidade que agride e mata tantas mulheres. 

Mais uma vez, vale ressaltar o quão positivo foi o gesto de Olivia Munn. Que ele sirva como uma chamada de atenção aos homens e à indústria cinematográfica, para que levem a sério as mulheres e suas denúncias.

“Eu tentei fazer a coisa certa. Quando eu vejo alguma coisa, eu faço alguma coisa. Você não pode simplesmente se calar e esperar que isso proteja o seu filme”, disse a atriz à revista The Hollywood Reporter. “Nós não podemos contar histórias sobre pessoas e não nos importarmos com elas”.

E essa é a lição que todos podemos tirar de Olivia.