O racismo escancarado do Brasil

01. setembro 2014 Internet 2
O racismo escancarado do Brasil

Na semana passada, o racismo sofrido pelo jogador do Santos, Aranha, durante a partida entre o time da Baixada Santista e o Grêmio, em Porto Alegre, na última quinta-feira, pela Copa do Brasil, ganhou o noticiário e a internet. Parte da torcida do tricolor gaúcho o xingou de preto e macaco, entre outras coisas. É difícil de acreditar que, em 2014, ainda há gente que acha que outro ser humano vale menos do que ele por conta da sua cor.

Vários torcedores do tricolor gaúcho foram reconhecidos, graças às câmeras de um canal de TV. Patrícia Moreira, que estava no estádio e proferiu claramente a palavra “macaco” ao jogador, reuniu-se com seu advogado hoje. Segundo ele, sua cliente quer pedir desculpas a Aranha. “Ela é de uma família humilde, tem amigos negros, que jamais tiveram qualquer tipo de problema com ela. Infelizmente, no futebol, que a gente sabe que prevalece muito mais a paixão, e ela fez um xingamento errado, e foi flagrado, e ela vai responder”.

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“Tem amigos negros” e “calor do jogo” vão ser argumentos para normatizar violência até quando? Sim, se você usa esse tipo de argumento para justificar suas atitudes, você é racista. Consigo acreditar que a moça esteja arrependida, mas só porque o caso tomou proporções na mídia e porque recebeu ameaças e teve sua casa apedrejada. Caso ela não tivesse sido flagrada gritando “macaco” na televisão, sua conduta seria diferente? Aposto que não.

Vale dizer aqui que eu jamais vou ser conivente com violência, muito menos achar justo responder violência com violência. Acho terrível fazerem ameaças e jogarem pedras na casa da moça. Os responsáveis pelas ações também precisam ser punidos, afinal, vivemos num Estado Democrático de Direito, e fazer justiça com as próprias mãos não é e nunca será solução para qualquer coisa. Devemos nos indignar sim, mas transferir aos órgãos competentes a responsabilidade de se fazer justiça no nosso país.

Voltando ao tema desse post, não é difícil ouvirmos e/ou lermos por aí que racismo não existe mais no Brasil. Bom, se não existisse, não teríamos 36 mil negros mortos, só em 2013, no país. O índice é mais do que o dobro do número de mortes de não negros: 16 mil. O IPEA, Instituto de Pesquisa Ecônomica Aplicada, responsável pela pesquisa, apontou como causa das mortes o racismo e os fatores econômicos e sociais. Logo, são os jovens negros e pobres que morrem mais.

O que me deixa louco, não é só ver gente branca negando o racismo (sim, tem brancos que acham que não existe, porque não sentem na pele), mas minimizando a violência, usando argumentos vazios e bobocas para silenciarem a voz de quem pede por igualdade, além de acusarem os negros de “vitimização”. Pouco após o caso de racismo sofrido pelo Aranha parar na internet, imagens sobre uma postagem do apresentador Danilo Gentili ganharam a internet.

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Seria uma tentativa de minimizar, através da fala de um cara influente na nossa mídia, o racismo sofrido pelo jogador? Seria uma tentativa de expôr mais uma babaquice dita por Danilo Gentili? Acredito nas duas possibilidades.

Eu não fui procurar na página do Facebook essa postagem, confesso. Mas um cara que acha engraçado fazer piadas sobre uma mulher que era a maior doadora de leite materno do Brasil e oferece uma banana para um cara que o chamou de racista, não dá para esperar muita coisa. Em ambos os casos, Gentili saiu ileso. Só mais uma prova de quem paga por crimes no Brasil é quem não tem dinheiro. Mas voltando ao argumento ruim do apresentador, é preciso avisá-lo que não existe racismo inverso.

Como bem apontou Djamila Ribeiro (leia aqui), “Racismo é um sistema de opressão e para haver racismo deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre com um histórico de opressão e violência que a exclui. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Quem são os donos dos meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que privilegia um grupo em detrimento de outro”.

É racismo chamar de alguém de palmito? Não. É bobo, é infantil. Mas não é racismo. Ser chamado de branquelo te chateia? Imagina fazer parte dos 36 mil negros mortos em 2013! Isso sim é preocupante e precisa ser tratado com urgência.

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