O racismo contra Beyoncé no Grammy Awards (e um resumo do que rolou na premiação)

13. fevereiro 2017 POP 1
O racismo contra Beyoncé no Grammy Awards (e um resumo do que rolou na premiação)

O Grammy Awards rolou entre a noite de domingo e a madrugada dessa segunda-feira (13), terminando com Adele recebendo os maiores prêmios da noite: ‘Canção’, ‘Gravação’ e ‘Álbum do Ano’. Este último, contudo, deveria ter sido entregue a Beyoncé, que fez um belíssimo trabalho com “Lemonade”, álbum lançado no ano passado, e que teve um grande impacto social e artístico.

Com o disco, Queen Bey recebeu 9 indicações ao Grammy, mas saiu de lá com apenas 2 gramofones dourados: ‘Melhor Clipe’ e ‘Melhor Álbum Urban’. Foi uma esnobada enorme ao seu trabalho, algo reconhecido pela própria Adele, que chorou no palco ao receber o último prêmio da noite.

“Eu não posso aceitar esse prêmio. Estou honrada e agradecida, mas a artista da minha vida é a Beyoncé”, disse a cantora em seu discurso. “Esse álbum, o ‘Lemonade’, foi tão monumental, Beyoncé. Foi tão monumental e bem-pensado e libertador, e todos nós pudemos ver um outro lado seu que você nem sempre nos permite ver. E nós agradecemos por isso. Todos os artistas aqui adoram você. Você é nossa luz. E a forma como você fez eu e meus amigo nos sentirmos, a forma como você fez meus amigos negros se sentirem é empoderador. E você os fez fortes. Eu sempre te amei e sempre vou te amar”.

Beyoncé foi mais uma vítima do racismo do Grammy Awards, que até hoje deu o prêmio de ‘Álbum do Ano’ a apenas 10 artistas negros nos 59 anos de premiação. O último foi Herbie Hancock, em 2008, com o disco “River: The Joni Letters”, um trabalho que reunia regravações da cantora Joni Mitchell.

Mas Beyoncé não foi a única artista negra a ser esnobada na noite de ontem: Rihanna e Kanye West, ambos com 8 indicações, não levaram nenhum prêmio para a casa. É como se artistas negros servissem apenas para o entretenimento, mas não para ter seus trabalhos reconhecidos.

E assim como em outras premiações, o Grammy teve seus momentos de críticas ao cenário político dos Estados Unidos, país comandado por Donald Trump. O apresentador James Corden, mestre de cerimônia do evento musical, fez duas referências ao presidente americano. Na abertura, enquanto fazia um rap, disse que “com Donald Trump não sabemos o que vem a seguir” e, em outro momento, brincou com o hábito de Trump de considerar qualquer notícia negativa sobre ele como sendo falsa.

“Todos os tweets negativos que vocês verem são falsos. Esses tweets são falsos”, disse Corden enquanto tweets maldosos eram exibidos na cerimônia. “Vamos seguir em frente”.

Jennifer Lopez subiu ao palco para anunciar o vencedor da categoria ‘Artista Revelação’, mas aproveitou a ocasião para pedir a todos que se manifestem contra injustiças.

“Nesse ponto particular da história, nossas vozes são mais necessárias do que nunca”, começou a cantora e atriz, que citou uma frase da vencedora do Nobel de Literatura, Toni Morrison. “Como Toni Morrison disse uma vez, essa é a hora exata para que os artistas trabalhem. Não é hora de desespero, não há espaço para autopiedade, não há necessidade para o silêncio e não há espaço para o medo. Nós fazemos a linguagem, é assim que as civilizações se curam. Por isso, hoje à noite, nós celebramos nossa linguagem mais universal, a música, enquanto celebramos as vozes do passado e do presente”.

Katy Perry também fez uma apresentação política no Grammy. Divulgando seu mais novo single, “Chained to the Rhythm”, a cantora surgiu toda de branco, em uma possível referência às sufragistas, que se manifestavam vestidas na mesma cor, e uma faixa em seu braço que dizia ‘persista’. Ela cantou com Skip Marley, presente na faixa, e ao final da performance, ambos ficaram em frente a um painel de espelhos que trazia a mensagem ‘nós, o povo’ e a constituição dos Estados Unidos. “Não ao ódio”, pediu Katy.

Já Beyoncé fez um pedido de inclusão. Após fazer uma performance incrível de “Love Drought” e “Sandcastles”, na qual ela fez uma celebração às mulheres negras e à fertilidade (vestida, possivelmente, como a orixá Oxum, que reina sobre o amor e a beleza), ela venceu ‘Melhor Álbum Urban’ e fez um discurso emocionante.

“Todos nós experimentamos dor e perda e, frequentemente, nos tornamos inaudíveis. Minha intenção ao fazer o filme e o álbum foi o de criar um trabalho que desse uma voz às nossas dores, nossas lutas, nossa escuridão e nossa história”, começou Queen Bey, cuja filha Blue Ivy não parava de comemorar a vitória da mãe.

“É importante, para mim, mostrar imagens para meus filhos que reflitam a beleza deles. Para que eles possam crescer em um mundo onde eles possam se olhar no espelho, primeiro, pelas suas próprias famílias, assim como nas notícias, no Super Bowl, nas Olimpíadas, na Casa Branca e no Grammy. Para que se vejam e não tenham dúvidas de que eles são lindos, inteligentes e capazes. Isso é algo que eu quero para todas as crianças de todas as raças. Acho que é vital aprender com o passado e reconhecer nossas tendências em repetir nossos erros”.

Porém, o grupo de hip-hop A Tribe Called Quest foi quem fez o maior ato contra Trump na noite da premiação. Junto com Anderson .Paak e Busta Rhymes, eles fizeram um medley de “Movin Backwards,” “Award Tour,” “Can I Kick It?” e a música de protesto “We the People.”

“Nós gostaríamos de dizer a todas as pessoas ao redor mundo, a todas aquelas que estão pressionando as pessoas no poder para representá-las, hoje nós representamos vocês”, começou o rapper Q-Tip. Depois, Busta Rhymes pegou o microfone para chamar o presidente dos Estados Unidos de ‘agente laranja’. Ao final, todos terminaram a performance com punhos ao alto e aos gritos de resistência.

“Eu quero agradecer ao presidente agente laranja por perpetuar todo a vilania que você esteve perpetuando por todos os EUA. Eu quero agradecer ao presidente agente laranja por sua tentativa mal-sucedida de banir os muçulmanos. Agora, nós nos unimos”.

Além dessas performances, a noite do Grammy teve poucas surpresas. Uma dessas que foi positiva foi a vitória de Chance The Rapper, o primeiro rapper a vencer ‘Artista Revelação’ desde 1999. Ele agradeceu a Deus e à sua equipe, ignorando a música de encerramento do discurso.

David Bowie, que morreu no ano passado, ganhou 5 prêmios pelo disco “Blackstar”, lançado dois dias antes de sua morte.

Mas, obviamente, a maior tragédia da premiação foi a esnobada em Beyoncé. Nos bastidores, após levar ‘Álbum do Ano’, Adele reconheceu, mais uma vez, o talento da voz de “Formation”.

“Um pedaço do meu coração morreu, enquanto fã da Beyoncé”, ela afirmou. “Eu torci por ela, votei nela. Achei que esse era o seu ano. O que mais ela precisa fazer para ganhar o ‘Álbum do Ano’?”

Não é culpa da Adele. Ela é uma ótima artista e que soube prestigiar o valor da arte feita por uma negra, mas é triste que ela, e não o Grammy, quem teve de fazer isso. Queen Bey e a obra visual de “Lemonade” chegaram a perder até na categoria ‘Melhor Filme Musical’ para um documentário sobre uma turnê dos Beatles.

O Grammy possui um problema muito parecido com o Oscar, que teve de mudar seu corpo de membros, após duas edições recebendo críticas pela falta de diversidade entre os indicados. Se a premiação musical não fizer o mesmo, derrotas difíceis de engolir, como a de Beyoncé, continuarão existindo. Vamos ver o que nos aguarda em 2018.