O que rolou no Simpósio Global sobre Gênero na Mídia do Instituto Geena Davis

11. março 2016 Cinema 0
O que rolou no Simpósio Global sobre Gênero na Mídia do Instituto Geena Davis

No dia 8 de março, eu conheci as mulheres do Think Olga e ouvi e aprendi muito com outras mulheres incríveis. Isso porque rolou nessa semana o “3º Simpósio Global sobre Gênero na Mídia”, realizado pelo Instituto Geena Davis no escritório do Google, em São Paulo. E como a representação das mulheres (e de minorias, em geral) na mídia é um tema recorrente aqui no blog, fez muito sentido para mim participar do evento.

A representação feminina tornou-se uma preocupação para Geena Davis após sua atuação em “Thelma & Louise” e “Uma Equipe Muito Especial”, cujos papéis não são tradicionalmente dados a mulheres. Mas foi somente depois de ser mãe, e assistir aos programas que sua filha assistia, que a desigualdade de gênero a incomodou e a fez tomar uma atitude.

“Imediatamente eu percebi que havia muito mais personagens masculinos do que femininos no que era produzido para crianças. Isso me deixou aterrorizada”, contou a atriz ao Entertainment Tonight. “Que tipo de mensagem é essa? Honestamente, eles deveriam mostrar meninos e meninas dividindo a caixinha de areia igualmente, com meninas fazendo metade das coisas interessantes também.”

Isso a inspirou a criar um seu instituto, o qual realiza pesquisas sobre a representação feminina, e trabalha junto a indústria do entretenimento para aumentar a participação das mulheres na mídia, além de reduzir estereótipos e melhorar a igualdade de gênero.

E nesta semana, sua ONG veio ao Brasil com um trabalho inédito sobre a representação das mulheres nos filmes e novelas do nosso país. Somos um dos maiores mercados cinematográficos do mundo, numa lista que inclui Estados Unidos, Austrália, China, França, Alemanha, Índia, Japão, Coréia do Sul, Rússia e Reino Unido.

O evento começou com atraso, às 16h, com a apresentação do resultado de uma pesquisa realizada com o público brasileiro sobre suas percepções quanto a gênero e raça na mídia:

  • para 75% da população, a TV e o cinema têm muita influência sobre a forma como as pessoas pensam e agem.;
  • 74% acredita que a violência mostrada na TV e no cinema influencia a forma como as pessoas se comportam na vida real;
  • 74% das pessoas concordam que há muita nudez na mídia brasileira;
  • 69% dos entrevistados acreditam que a TV e o cinema mostram mais homens no comando, além de reforçar a crença de que homens devem reprimir seus sentimentos e agir agressivamente,
  • enquanto isso, 69% concordam que as mulheres ficam  com papéis tradicionais, como esposa, dona de casa, e à espera de salvação;
  • ao mesmo tempo, 73% acreditam que mulheres são representadas de maneira hipersexualizada;
  • 63% acham que os padrões de beleza mostrados na TV e no cinema estão longe da realidade dos brasileiros;
  • 69% dos entrevistados concordam a diversidade racial presente em filmes e novelas representam a sociedade brasileira;
  • contudo, 64% deles acreditam que as pessoas de minorias étnicas são representadas com estereótipos;
  • 51% dos brasileiros acham que a mídia trata como aceitável o assédio contra mulheres no local de trabalho;
  • 86% das pessoas acham que a mídia deveria tratar mais questões sociais em suas produções.

De acordo com um estudo do Instituto Geena Davis, as mulheres brasileiras são 37,1% de todas as personagens do cinema nacional. Atrás das câmeras, o Brasil se saiu bem em relação aos outros países no número de mulheres trabalhando na área de produção: 47,2%. Já nos cargos de roteiro, elas representam 30,8%. Na direção, o percentual foi um dos mais baixos entre os avaliados: 9,1%. Um levantamento do jornal Folha de São Paulo, divulgado no ano passado, diz que as mulheres dirigiram apenas 16,5% dos filmes lançados nos últimos 20 anos.

No que diz respeito ao item em que a população acredita que a diversidade racial está bem representada nas novelas e filmes, o mesmo estudo avaliou que há um número muito pequeno de atores negros nos folhetins da Globo quando comparado ao percentual de atores brancos. Isso chocou todos os presentes no evento e me fez pensar que, talvez, essa naturalização da mídia em apagar a população negra nos tornou “cegos” em relação à exclusão dessas pessoas.

Houve ainda uma entrevista da roteirista, produtora e diretora Deborah Calla com Melissa Rosenberg, showrunner da série “Jessica Jones”, sucesso da Netflix. Ela contou que a história da super-heroína foi escrita para a TV aberta inicialmente, mas a obscuridade da personagem não permitiu que o projeto seguisse adiante. Ela ainda falou sobre a importância de histórias como a de Jessica, que é uma mulher com defeitos como qualquer pessoa, fugindo da ideia de que mulheres precisam ser seres perfeitos.

Dois painéis foram realizados no simpósio. O primeiro contou com a participação das cineastas Tata Amaral e Anna Muylaert, a gerente de produções locais da Fox e Warner, Cristina Fantato, e as criadoras de conteúdo para o Youtube, Tatiany Leite e Stephanie Noelle. Elas falaram sobre a dificuldade de criar conteúdo em um meio ainda muito masculino, mas a força que as histórias têm em quebrar preconceitos e empoderar mulheres.

“Eu gosto de quebrar estereótipos, principalmente no casting. Por que o mundo que a gente vê na mídia é uma ditadura, que eu não sei quem criou, mas certamente foi um ditador branco, homem e rico. E meu papel como artista é quebrar isso”, disse Muylaert.

Tata Amaral contou que foi a experiência ao levar sua filha ao cinema, na década de 80, que a fez perceber como o cinema pode influenciar a forma como pensamos e lidamos com as pessoas.

“Ela não entendia as legendas e começou a fazer perguntas como ‘mamãe, ele vai morrer?’, ao ver um personagem negro. E eles morriam. Então, eu muito cedo percebi que era uma linguagem que veicula conceitos de forma subliminar. Eu sei que estou lidando com um veículo poderoso. Tenho plena consciência do que eu faço no sentido de gênero, raça e de todo tipo de valores.”

Nana Lima, do Think Olga, apresentou o trabalho do Youtube Space para encorajar meninas e mulheres a entrarem na plataforma para criarem seus vídeos. O projeto foi comentado aqui no Prosa Livre e tem a Jout Jout como embaixadora brasileira na apresentação do mesmo, e que conta com a participação de diversas youtubers. Nana disse que houve um cuidado para que as meninas não reproduzissem nenhum tipo de preconceito nos vídeos do projeto, o que foi muito bacana, já que a gente sabe como a internet está bem cheia disso.

Por fim, o último painel reuniu Juliana de Faria, do Think Olga, João Amorim, do Sesame Workshop, Maristela Bizarro, co-fundadora ONG Women in Film & Television Brasil (WIFT), Tatiana Moura e Letícia Serafim, da Promundo Brasil, e a produtora, roteirista e diretora de cinema Thais Scabio. Todos falaram rapidamente sobre seus trabalhos e como eles impactam a mídia no que diz respeito a questões femininas.

A organização do evento poderia ter sido um pouco melhor. Eu não tive tantos problemas, mas houve um atraso de uma hora para a abertura do simpósio e havia apenas um telão trazendo os dados da pesquisa. Entretanto, foi uma experiência incrível ter esse contato com as mulheres que fazem o nosso audiovisual, e foi inspirador ver que há um movimento para que ele melhore e dê mais oportunidades para elas e para as demais minorias.

Representatividade importa muito e eu saí de lá encorajado a continuar batendo nessa tecla e ajudar, de alguma forma, a chamar atenção para essa questão. O Brasil tem muito o que avançar, na frente e atrás das câmeras, mas é seguro dizer que o pontapé para as mudanças tão atrasadas no nosso país já foi dado.