O que o Orgulho LGBT significa para você? Conversamos com ativistas e influenciadores e eis suas respostas

O que o Orgulho LGBT significa para você? Conversamos com ativistas e influenciadores e eis suas respostas

Hoje, 28 de junho, é Dia do Orgulho LGBT, data que lembra um episódio importante na história do movimento LGBT, a chamada Rebelião de Stonewall, que ocorreu em 1969 na cidade de Nova York. Naquele dia, os frequentadores do bar Stonewall Inn resolveram reagir às batidas policiais no local, que ocorriam sem justificativa e com frequência, o que resultou em dias de protestos, e marcou a luta por direitos civis da população LGBT. 

E até hoje, muitos se perguntam do por que ter Orgulho. Embora muitos avanços tenham sido feitos em relação aos nossos direitos, ainda vivemos em um mundo que tenta apagar nossas identidades, além de ser muito violento contra lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans. Para se ter uma noção, um LGBT morre no Brasil a cada 25 horas, segundo um levantamento do Grupo Gay da Bahia. Esse número pode ser ainda maior, já que a LGBTfobia não é um crime reconhecido no país.

Ou seja, comemorar o Orgulho ainda é comemorar a resistência em meio a tanta crueldade. E para ajudar a entender mais essa questão, procuramos alguns ativistas e influenciadores, que dentre outros tópicos, contaram para a gente o que significa o Orgulho para cada um deles.

Participaram dessa ação: Samuel Gomes, do canal Guardei no Armário; Herbet Castro, do Canal das Bee; Andy; Lana de Holanda, da página Transgressiva; Joely Nunes, do canal AFRONTAY; Thalita Coelho, escritora da página Thalita Coelho; Gabi Brito, da página Bifobia É Real; e Louie Ponto, do canal Louie Ponto.

1) O que significa Orgulho para você?

Samuel Gomes: Orgulho, pra mim, é ter e poder andar de cabeça erguida com a vida que tem, com as falhas e acertos que possui.

Herbet Castro: Reconhecer a minha própria identidade e expor ela em qualquer circunstância. Não há absolutamente nada de errado em deixar fluir os sentimentos e as características que me identificam como o que sou. Pelo contrário, é lindo! Por isso, tenho Orgulho de mim. É um sentimento de deixar fluir com naturalidade a beleza da minha própria existência.

Andy: Pra mim, orgulho é aquela vontade de gritar algo pro mundo sobre algo que faz seu peito se encher de alegria ou satisfação.

Lana de Holanda: Antes de me assumir como mulher trans/travesti, eu não entendia muito bem o motivo de existir um Dia do Orgulho LGBT. Eu era identificada como homem gay, mas sempre me senti deslocada nesse lugar, e a Parada LGBT, por exemplo, não dialogava comigo. Depois, com o início da transição, e comigo me encaixando em um lugar específico enquanto pessoa, enquanto mulher e enquanto militante, eu passei a entender. Orgulho é o contrário de vergonha. E eu tinha vergonha de ser quem sou, tinha vergonha e medo. Hoje tenho orgulho de poder ser, orgulho de andar na rua, orgulho de ocupar os espaços que são negados o tempo todo pras pessoas trans. A vergonha virou uma memória, um gosto amargo do passado, mas que foi fundamental pra hoje eu valorizar o orgulho de ser uma mulher trans/travesti.

Joely Nunes: O orgulho em contexto positivo para mim significa satisfação, plenitude e uma mistura de emoções boas.

Thalita Coelho: Para mim, orgulho, no que concerne ao social, é aprender a amar em mim aquilo que todos odeiam e que me ensinaram a odiar. É sobre vencer obstáculos pessoais criados pela sociedade para oprimir aquelas pessoas que são, de alguma forma, diferentes. É sobre amor próprio e aceitação.

Gabi Brito: Pra mim, Orgulho é se sentir bem em ser quem é, buscar amar aquilo que te diferencia dos outros, principalmente quando é algo marginalizado, apagado, deslegitimado.

Louie Ponto: Orgulho é amar a parte de mim que o mundo tentou me ensinar a odiar. Orgulho é resistência! 

2) Por que representação LGBT importa para você?

Samuel Gomes: Porque sem ela a grande massa não saberá da nossa existência. É necessária as ocupações dos espaços por LGBTQA+. Precisamos que outras pessoas saibam que estamos em todos os lugares e ocupando as diversas áreas de trabalho.

Herbet Castro: Porque eu cresci sem nenhuma ou com quase nenhuma referência do que é ser LGBT. O que se via nos meios de comunicação nos anos 90 não passava de uma imagem estereotipada e ligada a questões negativas. Ser LGBT não parecia certa, uma vez que se via como destino, a morte, doenças…enfim! Produzir conteúdo LGBT pra mim, representa preencher uma lacuna que eu mesmo tive durante muito tempo.

Andy: A representação a representação LGBT é algo extremamente necessário, pois PRECISAMOS que o mundo nos veja, que nos enxergue, precisamos que as pessoas lembrem que nós existimos e que somos todos iguais. Precisamos dessa representação pra alcançarmos cada vez mais nosso tão sonhado respeito.

Lana de Holanda: Representação importa muito pra mim, porque foi o que me faltou a vida toda. Eu não sabia o que eu era, pois não tinha um nome, não tinha um rosto, não tinha uma voz, que dialogasse comigo. Hoje quando alguma garota trans diz que se sente representada por mim, de alguma forma, eu sei que eu tô no caminho certo. Porque o importante não é eu ser a representação de algo, mas sim a representação existir, seja quem for que estiver nesse espaço. Se perceber nos textos, se perceber no vídeo, se perceber na televisão, no teatro, no cinema, se perceber na vaga de trabalho…tudo isso é muito importante pra construção da identidade de qualquer ser humano, ainda mais quando estamos falando de pessoas marginalizadas e invisibilizadas, que normalmente não estão representadas em lugar nenhum. As pessoas trans geralmente só ocupam as páginas policiais, enquanto vítimas de crimes violentos causados pela transfobia.

Joely Nunes: Eu acredito no poder transformador da representação, tudo o que é transmitido na mídia, por exemplo, nos molda enquanto indivíduos. Mas gosto de sempre levar essa discussão para um viés mais político, porque isso acaba sendo mais relevante. Não adianta falarmos desse assunto apenas quando é para questionar a presença de minorias nos meios de comunicação, vai para além: a representatividade, como uma ferramenta de poder em lugares onde a hegemonia é heterossexual, patriarcal e branca, porque com o poder em nossas mãos para tomadas de decisões conseguiremos mudar estruturas.

Thalita Coelho: Enquanto criança e adolescente, principalmente, sempre foi difícil não ter referências lésbicas no meu cotidiano e nas mídias de forma geral. Quando havia, os seus destinos não eram muito felizes. A representatividade importa na medida em que, ao me ver na outra, compartilho dos seus sentimentos e sofrimentos. Ter referências empoderadas e visíveis me ensina que eu também posso chegar lá. Por isso me posiciono muito honestamente enquanto professora, escritora e lésbica. Sei que meu posicionamento e minha recusa à invisibilidade fortalecerá jovens LGBT.

Gabi Brito: Acho que ela é essencial para o fortalecimento do ativismo, para o empoderamento da comunidade, para que mais pessoas que não conseguem entender ou não aceitam sua orientação sexual e/ou identidade de gênero possam se inspirar ao ver o orgulho e luta de pessoas que são como elas.

Louie Ponto: Minha infância e minha adolescência foram momentos muito difíceis pra mim porque eu não via representatividade em nenhum espaço. Me sentia sozinha, estranha e imaginava que era a única menina “diferente” no mundo. Desde que a gente nasce, a gente aprende que a única forma de existência possível é a heteronormativa, e por isso meus processos de autoconhecimento e de autoaceitação foram muito complicados. Acredito que representatividade importa pra gente entender que não está sozinha e que tá tudo bem ser diferente desse modelo que nos obrigam a seguir.

3) Como você imagina o futuro para a população LGBT?

Samuel Gomes: Imagino um futuro onde pessoas não sejam mortas por amar um igual. Com mais direitos e acesso a empregos, condições dignas para população T e para LGBTs periféricos.

Herbet Castro: Um futuro de constante luta! Acho que muitas outras minorias ainda sofrem com n questões que estão inseridas de forma estrutural na nossa sociedade. E quebrar isso demanda muito trabalho, e um trabalho constante! É preciso capacitar a sociedade com informação para que a luta por direitos básicos, como o direito à própria vida, seja prioridade.

Andy: Eu não sei quanto tempo vai demorar pra isso acontecer, e eu espero que seja breve, mas eu imagino, acredito e luto por um futuro digno. Acho que daqui algum tempo, as pessoas vão entender que nossas escolhas só dizem respeito a nós mesmo e nós vamos viver, no mínimo, com um pouco mais de segurança.

Lana de Holanda: Olha, geralmente eu sou positiva. Se eu não acreditar em algo melhor, num mundo melhor, a minha militância não vai fazer sentido. A gente vive num mundo capitalista, machista, racista e LGBTfóbico, então não é fácil encontrar forças. Mas eu tento olhar pra trás, quando a mulher ocupava o lugar de servidão, quando o negro sofria com a escravidão, e quando LGBTs nem eram figuras pensadas como possíveis. É claro que historicamente existem registros de populações que quebravam as regras de sexualidade e gênero, mas eram coisas pontuais. Hoje nós estamos num lugar de muito mais visibilidade, muito mais voz e muito mais afirmação. Mas eu também acho que devemos lembrar de quais LGBTs estamos falando. Do gay branco de classe média, ou do afeminado e negro que mora na periferia? Da mulher trans universitária, ou da travesti que se prostitui e que nem terminou o ensino fundamental? Enfim, não dá pra dizer que o mundo tá melhor pra todo mundo, mas enquanto comunidade nós evoluímos, certamente, e precisamos fazer por onde essa evolução social chegar a todas e todos os LGBTs, não apenas os privilegiados pela cor de pele, pelo lugar onde moram ou pelo capital.

Joely Nunes: Eu imagino um futuro com muitas conquistas de direitos, ainda estamos no início do caminho. LGBTs são agredidos todos os dias, de diversas formas, alguns lugares somos até proibidos. Então, espero um futuro onde tenhamos dignidade plena e paz para sermos verdadeiros.

Thalita Coelho: Como boa capricorniana, sei que a luta não será fácil, ainda mais com a onda conservadora que enfrentamos. Desejo que no caminho possamos nos fortalecer para buscar sempre mais espaço, visibilidade e direitos.

Gabi Brito: Eu espero que, com mais poder, representação consciente, mais voz na sociedade. E dentro da comunidade, eu espero que tenha mais empatia, união.

Louie Ponto: Eu acredito que ainda precisamos lutar muito pelo nosso direito à vida e à cidadania plena. Vivemos um momento muito complicado no país, em que o conservadorismo e o fundamentalismo estão ganhando força. Mas, por outro lado, hoje há muito debate que anos atrás não se via. A internet tem sua responsabilidade nisso. Vejo crianças e adolescentes entrando em contato com conhecimentos que eu demorei para adquirir e isso é incrível!

4) Qual mensagem você deixaria para LGBTs no dia 28 de junho?

Samuel Gomes: Se você ainda está no armário, não desista de acreditar no amor e na sua felicidade. Não é real o que te falam, você não vai para o inferno, amar um outro homem, uma outra mulher ou se sentir num corpo que não é seu, não é errado! Você é valioso! Acredite nos seus sonhos e um dia tudo fará sentido.

Herbet Castro: Para quem não se orgulha, se permita viver! A não-aceitação mina diariamente toda a humanidade que existe dentro de você. Mas perceba que ela é somente uma reação interna às adversidades que frequentemente lidamos no dia-a-dia. O mundo sempre vai conter adversidades. Ter orgulho te capacita de alguma forma a encontrar meios para lidar com elas. Para quem é privilegiado, se permita ter empatia pelo outro, e aproveite o seu espaço para dar voz às demandas que ainda sofrem um apagamento diário. Olhe à sua volta e com certeza vai encontrar alguém precisando de ajuda.

Andy: Eu sei que é difícil, sei que você vive com medo de agressões físicas e psicológicas, mas conseguir amar e ser você mesmo em um mundo com tanta gente cheia de ódio e covarde, é motivo pra MUITO orgulho. Fica firme que a sua luta vai valer a pena!

Lana de Holanda: Tenham orgulho! Orgulho de ser quem são. Orgulho de amar quem amam. Orgulho de terem a aparência que têm. Orgulho de existir. O mundo hétero e cis nos impõe a vergonha, nos impõe a negação de quem somos. Todo dia é uma batalha diferente, mas essa batalha pode ser vencida. Não é fácil, não é simples, mas pode ser vencida. Procurem pessoas parecidas com vocês! Procurem uma rede de amigos, de apoio, uma comunidade! Procurem onde se sentir acolhidos, sem precisar se anular pra isso. E todo dia de manhã, quando se olhar no espelho, repita em voz alta pra você mesmo/mesma: eu sou foda!

Joely Nunes: Vivam cada segundo como se fosse o último e continuem florescendo por todos os espaços. Nunca esqueçam que vocês têm um valor imenso para nossa comunidade. Desejo muito amor e alegria para vida de todos.

Thalita Coelho: Força, resistência e amor. Não se deixe apagar.

Gabi Brito: Vamos comemorar, lutar, unir contra as opressões que cada um de nós sofremos e ouvir uns aos outros, por favor!

Louie Ponto: Eu gostaria de dizer muitas coisas para as pessoas LGBT, principalmente para quem é jovem e/ou está passando pelo processo de autoaceitação. Também gostaria de conversar com toda pessoa que não é aceita pela família ou que está sofrendo LBGTfobia dentro e fora de casa. A mensagem mais importante que eu poderia deixar é: você importa. Você é especial e não deve deixar que ninguém te convença do contrário. É possível ser feliz e ter uma vida plena. Tudo vai ficar bem! ❤

Samuel Gomes
Thalita Coelho
Joely Nunes
Lana de Holanda
Gabi Brito
Andy
Herbet Castro
Louie Ponto


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