O que há de errado com blackface

O que há de errado com blackface

Esse post foi feito por conta dos diversos comentários sobre a paródia do clipe “Work”, da Rihanna com o rapper Drake, feita pela Kéfera em seu canal no Youtube, o “5incoMinutos”.

No vídeo “Work (Paródia)”, todo o cenário do clipe original é recriado e Kéfera e seu namorado, Gusta Stockler, levaram a caracterização dos artistas ao pé da letra, tendo alguns até afirmado que o rapaz teria feito blackface para ficar parecido com Drake. A youtuber então postou uma foto em seu Instagram, para provar que só Gusta teve apenas a barba pintada. Talvez a iluminação do clipe dê a impressão errada. Contudo, muitos já haviam criticado o vídeo da dupla (inclusive o autor desse texto).

Ainda assim, blackface ou não, muitas pessoas não sabem o que é isso e por que ele não deveria existir.

Antes de mais nada, pessoas negras podem explicar a questão com muito mais propriedade do que eu. Inclusive, recomendo a leitura de um texto da filósofa Djamila Ribeiro, publicado no site da Carta Capital e um texto postado no Blogueiras Negras sobre o assunto.

Para entender por que o blackface é ofensivo, é preciso entender sua origem. Ele surgiu no teatro dos Estados Unidos, durante o século 19, quando homens brancos pintavam seus rostos de carvão, fazendo uma representação ridicularizada da população negra, o que além de tratar a população negra como piada, ainda fazia com que esse grupo não tivesse acesso a trabalhos no meio artístico.

No Brasil podemos citar alguns exemplos. No final da década de 60, a Rede Globo exibiu “A Cabana do Pai Tomás”, uma adaptação de um livro americano, cuja história é centrada na vida dos escravos dos Estados Unidos. O papel do personagem-título, que deveria ter ido a um ator negro, ficou a cargo do ator Sérgio Cardoso, que foi pintado de preto, já que a agência de publicidade Colgate-Palmolive, patrocinadora das novelas da época, não queria um ator negro como protagonista.

Trazendo para um contexto mais atual, no ano passado, a peça teatral ‘A mulher do trem’, da companhia ‘Os Fofos Encenam’, foi cancelada após pressão de ativistas ao saberem que a peça em questão traria um personagem pintado de preto, uma caricatura estereotipada do que seria a mulher negra.

Também em 2015, o músico Michel Teló tentou protestar contra o racismo, mas utilizou o blackface para isso, o que não repercutiu bem nas redes sociais do cantor, que apagou a foto em seguida.

A própria Kéfera já fez blackface. Em janeiro de 2015, ela compartilhou uma foto antiga, quando se pintou de nega maluca para um vídeo. Nos comentários, muitas pessoas ficaram entristecidos com a youtuber. “Me decepcionei muito com essa foto. Mas eu gosto muito da Kéfera Buchmann. Acho apenas que ela não refletiu sobre isso ainda. Sobre a representatividade negra. Mas espero que ela pense sobre. Vamos ajudar ela gente”, escreveu um usuário.

Recentemente, a Globo fez blackface na novela “Êta Mundo Bom!”, pintando o ator Marco Nanini de preto.

Em suma: negros não são fantasias. São seres humanos. Ao pintar-se de preto, você colabora com a manutenção de um sistema que desvaloriza as vidas da população negra, excluindo-os de espaços e continua a perpetuar estereótipos sobre essas pessoas.

E nós não precisamos mais disso, precisamos?