O que funciona bem no episódio sobre religião de “Master of None”

O que funciona bem no episódio sobre religião de “Master of None”

[O TEXTO POSSUI SPOILER DE “MASTER OF NONE”]

“Master of None” é um dos melhores seriados na Netflix, pois combina situações reais do dia a dia com um humor leve, mas que ao mesmo tempo nos faz refletir. E se você pensava que o oitavo episódio da segunda temporada, no qual acompanhamos a saída do armário Denise (Lena Waithe) ao longo dos anos, é o único que vale a pena ser assistido, eu estou aqui para chamar sua atenção para o terceiro episódio da atração, intitulado “Religião”, que faz uma ótima representação de uma família muçulmana.

De alguma maneira, o episódio parece uma continuação daquele na primeira temporada, no qual é contada as origens dos pais de Dev (Aziz Ansari). “Religião” começa com várias crianças sendo obrigadas por seus pais a participar dos cultos e orações de suas respectivas religiões, até que vemos nosso protagonista ainda pequeno, na casa de um amigo, comendo bacon. Ele fica maravilhado com aquilo que está colocando na boca, mas é interrompido por uma ligação de sua mãe, que manda o garoto para de comer, pois “bacon é porco! Somos muçulmanos! Não podemos comer carne de porco. É a nossa religião”. O menino para, olha para o prato e, ao som de “Only God Can Judge Me” (“Só Deus Pode Me Julgar”), do rapper Tupac Shakur, ele termina de comer o seu prato.

Anos mais tarde, descobrimos que Dev não é tão religioso quanto seus pais e o restante da família. Em um jantar com seus tios e um primo, o pai do rapaz pede a ele que finja estar jejuando para o Ramadã e que utilize expressões árabes ao conversar com eles. E, mais importante, que não coma porco na frente deles. É um diálogo divertido, pois mostra uma preocupação muito grande do pai em manter as aparências, o que não é diferente do que acontece em tantas outras famílias.

E o bacana nessa situação é que estamos falando de uma família muçulmana, cujos indivíduos são comumente representados na mídia como terroristas e prestes a detonar uma bomba em algum lugar. Já na série da Netflix, eles são tratados de maneira normal, como qualquer outra pessoa.

“O Islã possui os mesmos problemas leves como toda religião tem, como alguém sendo mais religioso e julgando pessoas menos religiosas”, explicou Aziz Ansari ao Vulture. “Eu me lembro de ler um artigo, no qual o presidente Obama disse que queria ver mais personagens na TV que fossem muçulmanos, mas não terroristas. E eu pensei: ‘eu fiz isso, cara. Vá assistir ‘Master of None’! Minha mãe e meu pai são muçulmanos'”. 

“Master of None” faz uma representação muito mais humanizada dos muçulmanos, ao mesmo tempo em que aproxima o público daquela realidade, que poderia ser de qualquer família e de qualquer religião. E é isso o que faz esse capítulo funcionar tão bem: como os pais lidam com filhos quando eles acabam não seguindo aquilo lhes ensinaram durante toda a vida?

Perto do fim, Dev conversa com seu pai, que explica a ele que não importa o que ele faça, ambos continuarão amando-o do mesmo jeito. Mas ao fazer coisas que seus pais desaprovam na frente deles, o rapaz acaba causando uma mágoa, pois eles sentem que falharam em sua criação.

Em seguida, ele pega o Alcorão, dado por sua mãe, e encontra uma passagem que conversa com sua situação: “para que você seja sua religião, e eu a minha”. É um lembrete importante de que a religião pode ser interpretada de diversas maneiras.

Mas, mais do que religião, esse é um episódio sobre relações familiares e como elas podem ser complicadas, às vezes. Mas nada que “Master of None” não saiba lidar com uma dose certa de bom humor.


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