O pop não pode ficar em cima do muro

O pop não pode ficar em cima do muro

Já se passaram quase duas semanas desde que a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL), foi brutalmente assassinada após sair do evento “Mulheres Negras Movendo Estruturas”. Ela foi coordenadora da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), e era relatora da comissão que investigava a intervenção federal na cidade.

Desde então, o Brasil se mobilizou para que o trabalho e os ideais de Marielle não fossem esquecidos ou apagados. Manifestações ocorreram pelo país e pelo mundo, reunindo milhares de pessoas, protestando não apenas sobre caso, mas também pelo desrespeito com os direitos humanos em território brasileiro. A Organização das Nações Unidas (ONU) cobrou uma investigação rigorosa sobre a morte da vereadora, e recebeu 100 denúncias de entidades, as quais alegam que “muitos que falam a verdade ao poder no Brasil enfrentam violência e estigmatização sem precedentes, já que o país está no topo das mortes dos defensores”.

A morte de Marielle também mobilizou a classe artística brasileira, que utilizou suas redes sociais para engajar seus fãs e seguidores a ir para as ruas protestar. Porém, uma artista em particular permaneceu em silêncio. E no único momento em que decidiu quebrá-lo, voltou atrás: Anitta. De uns tempos para cá, a cantora carioca tem se mostrado simpática a diversas causas, principalmente do empoderamento feminino. Em diversas situações, a estrela da música pop fez discursos e ações para defender a igualdade de gênero, raça, sexualidade e de corpos. Sob essa perspectiva, era de se esperar que ela se manifestasse sobre Marielle.

Porém, ela não o fez. Nas redes sociais, fãs e seguidores cobraram um posicionamento da “malandra”, que só veio depois da homenagem de Katy Perry à vereadora morta. Em um post publicado em seu Instagram, o qual foi apagado tempos depois, Anitta disse que iria falar algo só depois de 3 meses, mas havia decidido se manifestar antes, pois não teve “muita paciência pra aturar o ódio gratuito dos internautas”.

Ela havia escrito, segundo o Papel Pop:

“Então.. se alguém estiver interessado em saber minha opinião sobre o caso Marielle, leia esse texto imaginando que o escrevi daqui 3 meses. / Marielle ainda está presente? Espero que sim, espero que pra sempre. Essa seria a melhor demonstração da frase “o feitiço virou contra o feiticeiro” que já presenciei. Quem achou que calaria uma voz tão alta com um tiro se enganou. Milhões de brasileiros fizeram com que essa morte não fosse em vão e essa voz não se calasse. Eles pensam “daqui um mês o povo esquece”. Não se esqueçam, povo, por favor. Ainda lembramos da juíza Patricia Acioli (morta nas mesmas circunstâncias)?, ainda lembramos do menino João Hélio? Sentimos a dor da perda de cada policial que morre em serviço? Espero que sim. Não me importa se Marielle era de direita, de esquerda, de frente, de costas , lésbica, ou mãe precoce ou sabe lá mais o que. Ninguém merece morrer. Nada justifica que se tire a vida de qualquer pessoa. Acredito que a própria não pediria a morte dos corruptos que denunciava. Pedir justiça é diferente de pedir a morte. Para mim, Anderson, seu motorista, era tão importante quanto ela, pois são todos seres humanos. Se ela não fosse feminista como eu, também teria meus sentimentos, se não fosse favelada como eu, também teria meus sentimentos. De esquerda, direita, hétero, gay, pecador, religioso, o que for… Ninguém merece morrer.”

Anitta está certa quando diz que ninguém merece morrer. Aliás, era essa a luta de Marielle: para que as vidas dos moradores das favelas fossem tão importantes quanto àquelas dos moradores de bairros ricos. Sua luta era para que a polícia deixasse de matar os negros e mais pobres. E diga-se de passagem, o fato de que ela era negra, lésbica, moradora de favela são importantes e que merecem ser lembrados, pois essas identidades são alvos da constante violência no Brasil. E todas elas estavam presentes em Marielle. Não é à toa que ela é um símbolo para quem defende a igualdade e os direitos de mulheres, negros e LGBTs.

Por fim: a morte de Marielle é um atentado contra a democracia. Ela foi a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, que foi executada numa tentativa brutal de silenciá-la e interromper seu trabalho. Foi uma tentativa de causar medo à população, demonstrando num ato extremo que os votos depositados nas urnas pouco ou nada valem quando eles elegem alguém que bate de frente com os poderosos, contra aqueles que querem manter o sistema exatamente como ele está. Porém, com as demonstrações que tomaram as ruas do Brasil, Marielle viverá para sempre.

Entender a figura de Marielle e o que levou à sua morte é importante para que possamos nos unir e reagir. Por isso, é decepcionante quando uma artista como Anitta não se manifesta. Ou se manifesta de maneira tão superficial. Agora não é a hora de ficar em cima do muro. Estamos em um momento de fragilidade na democracia e é fundamental que grandes personalidades brasileiras se manifestem e que cobrem respostas e ações do governo.

Para muitos, parece que estamos exigindo demais de pessoas do entretenimento, quando eles estão ali para isso: entreter. Contudo, a arte pode ser política e pode chamar a atenção do público a questões que precisam ser debatidas. Artistas como Anitta possuem uma grande plataforma, podendo mobilizar pessoas – e até empresas – a tomar atitudes.

Quando as artistas de Hollywood decidiram que era hora de acabar com o assédio sexual no ambiente de trabalho, elas criaram o movimento Time’s Up, o qual possui um fundo para auxilar mulheres de diversas indústrias nos Estados Unidos a processar seus agressores. O que começou com algumas denúncias acabou se tornando uma onda de acusações contra abuso de poder na indústria cinematográfica, resultando em novos códigos de conduta dentro dos sets de filmagem e uma nova forma de conversar sobre assédio sexual no mundo. E isso aconteceu porque as mulheres “ousaram” bater de frente com homens poderosos.

É de se entender, também, que Anitta nunca pediu para ser porta-voz de nenhuma minoria, mas soube aproveitar do “pedestal” que foi dado a ela pelos fãs (eu, inclusive). Por ter se mostrado simpática a diversas causas, nós a ajudamos a expandir sua carreira e seus lucros, mesmo que ela nunca tenha dito que era essa “militante” toda.

Mas dito isso, acredito que seja justo cobrar uma postura dela. Ela possui fãs que são mulheres, que são negras, que são lésbicas e que moram nas favelas. A morte de Marielle ressoa de maneira forte para elas e um simples gesto de apoio poderia proporcionar um alívio momentâneo de que não estão sozinhas em suas lutas. Indo além, a falta de posição de Anitta coloca em xeque o quão genuíno é o seu apoio às causas sociais que diz defender.

“Nos tempos que vivemos hoje no Brasil, quando uma artista que desafia as estruturas conservadoras da sociedade, que vem do morro, que se impõe pelo direito de ser livre se cala após um assassinato de uma mulher negra militante, não só o discurso artístico pode parecer vazio, mas ela perde a chance de levar sua mensagem de transformação para milhares de pessoas de forma bem mais forte e direta”, afirmou Fabiana Batistella, diretora da conferência musical SIM, ao jornal NEXO.

Essa não é a hora de evitar posicionamentos políticos. Essa é a hora de se manifestar e ajudar a transformar a sociedade. A música, especialmente o pop, chega a milhões de pessoas e, por isso, poderia se aproveitar disso para cobrar ações e fazer discursos sobre justiça e igualdade. Pensando nisso, gosto de uma fala da lendária cantora Nina Simone: “Escolhi refletir o tempo e as situações em que me encontro. Como ser artista e não refletir a época?”.

A arte pode ser apenas para entreter, e tudo bem. Mas é ótimo quando ela ajuda a transformar o mundo.