O Oscar foi um evento político do começo ao fim – nosso resumo da maior noite do cinema

27. Fevereiro 2017 Cinema 3
O Oscar foi um evento político do começo ao fim – nosso resumo da maior noite do cinema

A 89ª edição do Oscar vai ficar para a história: seja por conta da diversidade dos indicados e dos vencedores, seja pela confusão na entrega do prêmio de ‘Melhor Filme’, que saiu das mãos de Damien Chazelle e “La La Land”, para cair nos braços de Barry Jenkins e seu “Moonlight”.

Porém, uma coisa é certa acima de tudo: a premiação foi política do começo ao fim.

Já no tapete vermelho, onde os artistas conversam com repórteres sobre suas roupas, trabalhos e expectativas para o evento, começaram as primeiras manifestações contra o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Algumas celebridades, como Ruth Negga e Lin-Manuel Miranda, usaram uma discreta fita azul sobre suas roupas. O acessório era, na verdade, um símbolo de apoio à União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês), uma organização que trabalha para “defender e preservar os direitos individuais e as liberdades garantidas pela Constituição e as leis” dos EUA, e tem atuado contra as políticas anti-imigração de Trump.

Ainda antes da cerimônia, Emma Stone, que recebeu o prêmio de ‘Melhor Atriz’ por sua atuação em “La La Land”, usou um pin da Planned Parenthood. Essa é uma organização que presta auxílio às mulheres – em sua maioria – de baixa renda, que precisam de suporte em questões de saúde reprodutiva. A ONG corre o risco de perder os fundos do governo federal sob a administração de Donald Trump.

Também no tapete vermelho, a diretora Ava DuVernay usou um vestido feito designer libanês Ashi Studio, como forma de apoio ao país, e a refugiada síria Hala Kamil, que inspirou o curta em documentário indicado “Watani: My Homeland”, conseguiu comparecer ao evento, depois de não saber se poderia, afinal, Trump havia assinado um decreto que proibia a entrada de refugiados sírios nos Estados Unidos.

E então deu-se início ao Oscar. O mestre de cerimônias deste ano, o apresentador Jimmy Kimmel, não poupou Trump de suas piada. Logo no começo de seu monólogo, ele brincou que o evento estava sendo assistido em “225 países que agora nos odeiam”.

“Eu gostaria de agradecer ao presidente Trump. Lembram-se quando achávamos que o Oscar era racista? Acabou, graças a ele”, disse Kimmel, em referência ao racismo do novo chefe do Executivo americano.

Em seguida, ele também brincou, afirmando que Hollywood não discrimina ninguém por conta do país de origem de alguém, mas pelo peso e idade da pessoa em questão (o que é bem apurado, para dizer o mínimo, especialmente para as mulheres).

Em outro momento, ele fez graça com o comentário de Trump sobre Meryl Streep, dizendo que ela era uma artista ‘superestimada’.

“E de todos os ‘grandes’ atores aqui em Hollywood, um deles tirou um tempo entre alguns de seus filmes nada inspiradores e superestimados. Eu posso dizer que, desde seu trabalho medíocre em ‘O Franco Atirador’ e ‘Entre Dois Amores’, até seus trabalhos ruins em ‘Kramer Vs Kramer’ e ‘A Escolha de Sofia’, Meryl Streep esteve em mais de 50 filmes”, disse Kimmel, que depois pediu para que todos aplaudissem a artista de pé.

No meio da cerimônia, o mestre de cerimônia mandou dois tweets para o presidente dos EUA. No primeiro, ele perguntava se Trump estava acordado, já que ele disse que não assistiria ao Oscar, e depois brincou escrevendo que Meryl estava mandando um ‘oi’.

E o primeiro prêmio da noite foi para Mahershala Ali, vencedor na categoria ‘Melhor Ator Coadjuvante’. Embora ele não tenha feito um discurso muito politizado, a figura do artista é política por si só: ele é o primeiro negro a vencer naquela categoria desde 2004 e é o primeiro ator muçulmano a ganhar um Oscar.

Sua conquista acontece apenas semanas depois de Trump banir a entrada de qualquer pessoa de países de maioria muçulmana.

“Eu queria agradecer meus professores. Uma coisa que eles diziam muito era de que isso [atuar] não é sobre você. É sobre os personagens. Você está a serviço dessas histórias”, lembrou o artista, que terminou seu discurso agradecendo sua esposa, a qual teve a primeira filha do casal há apenas quatro dias. “Eu só queria agradecer a ela por ter sido uma guerreira durante todo esse processo”.

Durante o prêmio de ‘Melhor Cabelo e Maquiagem’, do qual “Esquadrão Suicida” saiu vencedor, Alessandro Bertolazzi, que nasceu na Itália, dedicou sua estatueta dourada “a todos os imigrantes”.

Depois dele, Asghar Farhadi, diretor do ‘Melhor Filme Estrangeiro’, “O Apartamento”, também saiu em defesa dos imigrantes e da união. Ele não compareceu ao evento, mas deixou um discurso, o qual foi lido no palco por Anousheh Ansari.

“É uma grande honra receber esse prêmio valioso pela segunda vez. Eu gostaria de agradecer aos membros da Academia, minha equipe iraniana, meu produtor, a Amazon e meus colegas indicados. Peço desculpas por não estar com vocês nessa noite. Minha ausência é em respeito às pessoas do meu país e daquelas das outras seis nações que foram desrespeitadas pela lei desumana que bane a entrada de imigrantes nos Estados Unidos. Dividir o mundo entre EUA e nossos inimigos cria medo. É uma justificativa enganosa para agressão e guerra. Essas guerras evitam a democracia e os direitos humanos nos países em que eles mesmos foram vítimas de agressão. Os cineastas podem filmar as qualidade humanas que partilhamos e quebrar estereótipos de várias nacionalidades e religiões. Eles criam empatia entre nós e nos outros. Uma empatia que nós precisamos hoje mais do que nunca”.

Já os vencedores de ‘Melhor Documentário’, Ezra Edelma e Caroline Waterlow, de “O.J. Made in America”, dedicaram o Oscar a todas as vítimas da violência policial.

“Isso é, também, para todas as vítimas de violência policial, de crimes motivados por raça e injustiça criminal”.

Antes de anunciar quem era o vencedor na categoria de ‘Melhor Animação’, o ator Gael García Bernal aproveitou o momento para criticar a construção do muro entre os Estados Unidos e o México, uma das promessas de campanha de Donald Trump.

“Como mexicano, latino-americano, imigrante trabalhador e ser humano, eu sou contra qualquer tipo de muro que queira nos dividir”.

Coincidentemente, ele chamou a equipe do filme “Zootopia” para pegar o prêmio de ‘Animação’, esta que é uma das produções mais politizadas do Oscar, mesmo sendo feita com o público infantil em mente.

“Há quase seis anos, tivemos essa ideia maluca de falar sobre humanidade por meio de animais falantes, na esperança de que, quando o filme fosse lançado, transformaria o mundo em um lugar um pouco melhor. E nós estamos agradecidos de que o público, no mundo todo, abraçou esse filme, essa história sobre a tolerância ser maior do que o medo do outro”.

https://www.youtube.com/watch?v=k2UmSdiEISs

Viola Davis foi finalmente reconhecida pela Academia. Concorrendo pela terceira vez ao Oscar, ela levou ‘Melhor Atriz Coadjuvante’, e fez um discurso memorável – como sempre. Com o prêmio, ela se tornou a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, um Tony e um Emmy por seus trabalhos (Whoopi Goldberg conseguiu seu Tony como produtora e não atriz).

“Há um lugar onde todas as pessoas com o máximo de seus potenciais se reúnem. Apenas um lugar e ele é o túmulo. As pessoas me perguntam o tempo todo quais tipos de histórias eu quero contar. E eu digo para exumarem aqueles corpos. Exumam aquelas histórias. As histórias de quem sonhou grande e nunca viu aqueles sonhos darem frutos. As pessoas que se apaixonam e se perdem. Eu me tornei uma artista. E ainda bem que fiz isso, pois essa é a única profissão que celebra o que significa viver uma vida”.

Mais tarde na cerimônia, os vencedores de ‘Melhor Curta em Documentário, “Os Capacetes Brancos”, cujo diretor de fotografia teve sua entrada negada nos Estados Unidos, fizeram seus agradecimentos, pedindo o fim da guerra na Síria.

“Estamos agradecidos que esse filme levou nosso trabalho para o mundo. Salvar uma vida é salvar a humanidade”, disseram.

Outro momento bonito do Oscar ficou por conta de Kevin O’Connell, que foi indicado 20 vezes antes de sua primeira vitória na premiação.

“O discurso de agradecimento sempre muda com o passar dos anos, mas uma  constante seria agradecer a minha mãe por me colocar nessa indústria há 40 anos. Ela estava no hospital e insistiu para que eu viesse ao evento, porque ela nunca gostaria que eu não fosse”, ele contou. Sua mãe, Skippy O’Connell, morreu em 2007.

Damien Chazelle levou a estatueta dourada de ‘Melhor Diretor’, por seu trabalho em “La La Land” e tornou-se o mais jovem vencedor na categoria, com 32 anos. Emma Stone foi a ‘Melhor Atriz’ pelo mesmo filme, e fez um discurso emocionado agradecendo suas colegas que concorriam na mesma categoria.

Agora, vamos falar sobre algumas  situações embaraçosas da premiação. A primeira é a indicação de dois homens com históricos ruins de violência e assédio contra mulheres: Mel Gibson, que concorria como ‘Melhor Diretor’ em “Até o Último Homem”, e a indicação e vitória de Casey Affleck como ‘Melhor Ator’, pelo filme “Manchester à Beira-Mar”.

Aparentemente, abusos contra mulheres não são um problema para a Academia. E isso é muito ruim, por motivos óbvios, e transmite uma mensagem de que homens poderosos sempre podem sair livres – e premiados – mesmo com passados tão problemáticos.

Por fim, “La La Land” ganhou o maior prêmio da noite, o de ‘Melhor Filme’. Ou pelo menos era isso o que toda a equipe acreditava quando subiu no palco para receber a estatueta dourada. Faye Dunaway e Warren Beatty anunciaram o nome do vencedor errado, quando a verdadeira vitória era de Barry Jenkins e seu “Moonlight”. Rolou uma cena muito constrangedora, mas que terminou com Jenkins fazendo seu discurso de agradecimento.

“Mesmo nos meus sonhos, isso não poderia ser possível. Mas que os sonhos vão para o inferno. Estou farto deles, porque isso é real”, finalizou o cineasta.

A lista completa de vencedores está no site do Oscar.