O melhor episódio de “Cara Gente Branca” é também o mais difícil de assistir

O melhor episódio de “Cara Gente Branca” é também o mais difícil de assistir

[ALERTA DE SPOILER DE “CARA GENTE BRANCA”]

Se você chegou à metade de “Cara Gente Branca” (ou se já terminou de assisti-la), provavelmente concorda que o quinto episódio do seriado é o melhor de todos – e também o mais difícil de assistir.

Nos cinco primeiros capítulos da atração da Netflix, acompanhamos um grupo de estudantes negros planejando uma maneira de protestar contra uma festa na universidade onde estudam, cujo tema é o black face. Em seguida, os vemos lidando com as consequências do evento e de uma outra festa, na qual a realidade de muitos negros americanos – e brasileiros – é retratada da maneira mais honesta possível.

Cada episódio de “Cara Gente Branca” foca em um estudante e, no quinto, o centro da narrativa é Reggie (Marque Richardson), estudante que participa ativamente da luta antirracista no campus da faculdade. Elogiado pelos colegas negros e detestado por muitos dos colegas brancos, Reggie é um militante incansável, e quer parar a qualquer custo a festa que dá o pontapé inicial na série. Mas é um sábado e, como lembra sua amiga Joelle (Ashley Blaine Featherson), “às vezes ser despreocupado e negro é um ato de revolução”. Assim, os dois e outros amigos aproveitam o dia para descansar a cabeça.

Até que todos terminam em uma festa na casa de um amigo branco, e é lá que as coisas ficam complicadas. Quando todos estão dançando “Trap Niggas”, do rapper Future, Reggie percebe que seu colega branco está usando uma palavra ofensiva, que ele não deveria estar falando (para esclarecimento: o termo em questão é “nigga”, o que poderia ser trazido como “preto”, e que possui origens racistas).

O rapaz diz que não é racista, ainda não entendendo que a palavra é preconceituosa quando dita por brancos. De repente, o que era para ser sobre a dor dos negros, torna-se sobre aquele garoto branco achando que está sendo censurado. Ou seja, aquilo vira a sua dor.

“O que acharia se eu cantasse músicas que dissessem ‘branquelo’ e ‘palmitão'”?, questiona Reggie.
“Eu não ia me importar”, responde o estudante branco.
“Exato. Essa é a diferença. Você não se importar, e eu sim. Entendeu?”, responde Reggie. 

Obviamente, o garoto não entende. E a partir daí a tensão entre eles e o restante das pessoas na festa aumenta, a ponto de alguém chamar a polícia. O policial pede a Reggie que mostre um documento. E você pode ter certeza que ele não pede o mesmo para o rapaz branco. Reggie diz que é um estudante, assim como todos os outros, que também confirmam isso. O policial não se convence e aponta uma arma para ele, gritando para que ele mostre um documento.

E ali, naquele momento, percebemos a desumanização a qual negros precisam enfrentar diariamente. A vida de Reggie poderia ter acabado ali, tão logo o policial apertasse o gatilho. É uma cena que choca, perturba e emociona, que nos faz refletir sobre o valor da vida negra e os privilégios de ser branco. Apavorado, Reggie mostra o documento para o policial, que vai embora. Mas o que aconteceria se ele não tivesse nada com ele naquele momento? Ele seria morto? Essa é uma realidade muito comum para a população negra, e que “Cara Gente Branca” teve a coragem e o cuidado de mostrar.

Segundo o ator Marque Richardson, durante toda a sequência, tudo o que ele conseguia pensar era em seu sobrinho.

“Eu só pensava no meu sobrinho, que tem um ano e meio de idade, e que terá de crescer em um mundo onde essa é a nossa realidade,  e de outros que perderam suas vidas para esse tipo de violência”, disse o artista para o site The Root. “Um policial nunca colocou uma arma na minha cara antes, mas durante as filmagens, eu foquei no medo e na humilhação”.

Talvez o que acontece naquela universidade fictícia não seja tão frequente, mas isso não quer dizer que não aconteça no mundo real. Quando se é negro, você é o alvo constante da polícia, especialmente nas periferias. Segundo um estudo da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a taxa de negros mortos pela polícia em São Paulo é quase três vezes mais que a de brancos. No Rio de Janeiro, 77% dos mortos pela polícia são negros e pardos. E no Brasil, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado.

Não dá para descolar o que acontece em “Cara Gente Branca” com o que acontece aqui, no dia a dia. Infelizmente, a arte imita a vida. Mas, com esperança, o seriado da Netflix pode provocar uma conversa urgente e uma mudança de pensamento e atitude. Ninguém precisa passar pelo que Reggie passou. E ninguém mais precisa morrer, como tantos outros negros morrem todos os dias.


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