O mais impressionante em “Feud” é perceber que Hollywood pouco mudou a forma como trata as mulheres

O mais impressionante em “Feud” é perceber que Hollywood pouco mudou a forma como trata as mulheres

Ryan Murphy possui uma nova atração: “Feud”, estrelada pelas grandes atrizes Jessica Lange e Susan Sarandon. As duas interpretam, respectivamente, outras duas grandes atrizes do cinema americano, Joan Crawford e Bette Davis, as quais não faziam questão de esconder o quanto se odiavam.

A série explora o desafeto entre elas antes, durante e depois das gravações de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?”, filme de 1962, dirigido por Robert Aldrich. Para se ter uma ideia, dizem que Davis chegou a chutar, de propósito, a cabeça de Crawford em uma cena, enquanto a segunda teria colocado pedras em seus bolsos quando a sua colega de elenco teria de carregá-la.

O longa-metragem recebeu cinco indicações ao Oscar, inclusive de Melhor Atriz para Bette Davis, enquanto Joan Crawford foi esnobada pela Academia, o que acabou gerando mais conflitos entre as duas.

O seriado se apoia sobre o talento de suas duas protagonistas, que trabalham muito bem na pele dessas duas mulheres que foram e ainda são ícones do cinema (Susan Sarandon está incrível, diga-se de passagem), e utiliza passagens bem-humoradas para contar uma das rivalidades mais conhecidas de Hollywood. Porém, o que mais impressiona é que, mesmo depois de mais de 50 anos, a indústria cinematográfica pouco mudou a sua forma de tratar as mulheres.

Veja bem, a trama de “Feud” se passa na década de 60, com flashbacks para décadas anteriores, e é possível perceber que, desde sempre, as mulheres vêm buscando papéis mais consistentes, que fujam dos velhos estereótipos de namoradas, esposas ou mães. E já naquela época, Hollywood demonstrava que tinha pouco interesse em oferecer trabalhos para mulheres mais velhas. Joan Crawford e Bette Davis, embora tenham construído carreiras de sucesso, não conseguiam bons papéis por terem seguido o curso da vida. Isto é, envelhecido. Não importa o quão boas ambas fossem –  e elas eram – , as duas não conseguiam bons papéis. Ou qualquer papel.

Cinquenta anos para frente, e vemos que as mulheres continuam tendo a mesma dificuldade. Segundo um estudo recente do Center for the Study of Women in Television and Film, mulheres com mais 40 anos ou mais foram apenas 32% de todas as personagens femininas nos 100 maiores filmes de 2016. Para comparação, homens com 40 anos ou mais foram 52% de todos os personagens masculinos.

Um dos exemplos mais recentes, e que chamaram a atenção da mídia e do público para a discriminação de mulheres mais velhas em Hollywood veio de Maggie Gyllenhaal, que aos 37 anos, foi considerada ‘velha demais’ para viver a amante de um homem de 55 anos em um filme.

“No início isso me fez sentir mal, depois fiquei com raiva e no final me fez rir”, ela disse ao The Wrap.

Isso é problemático em vários sentidos, pois a mensagem que é transmitida pela indústria do cinema, a qual ajuda a moldar a cultura, é de que as mulheres teriam um ‘prazo de validade’ bem apertado para conquistar o que almejam. Não só isso, é bom que elas se adequem aos padrões de beleza. Do contrário, elas terão muito problema para arrumar trabalho.

E é exatamente isso o que Hollywood fez no passado e continua fazendo hoje: descartando as mulheres enquanto elas envelhecem. E isso acontece, boto fé, porque os grandes estúdios são comandados por homens, os quais ainda têm dificuldade de apreciar o trabalho de uma mulher de qualquer idade, cor ou sexualidade.

“Feud”, embora seja um bom entretenimento, também é um retrato de como o cinema pouco mudou nesses mais de 50 anos: homens continuam controlando o que mulheres podem ser e alcançar, a mídia segue reforçando a rivalidade feminina e a escassez de papéis para mulheres mais velhas segue em voga.

Quando é que essas histórias vão finalmente parar de ganhar continuações no cinema?


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