O machismo também ajudou a matar Hannah Baker

O machismo também ajudou a matar Hannah Baker

[Este texto contém spoilers de “13 Reasons Why”]

Já há algumas semanas, “13 Reasons Why”, nova série da Netflix, tem sido o assunto nas redes sociais. A atração gira em torno do suicídio de Hannah Baker (Katherine Langford), uma adolescente que deixou fitas cassete destinadas às pessoas que tiveram participação em sua decisão de tirar a própria vida.

Dentre elas, há vários garotos, os quais, em sua maioria, expuseram, assediaram, isolaram e humilharam a garota. Um deles chegou a estuprar Hannah, que sucumbiu depois de tanta violência. Mais do que exibir os efeitos devastadores do bullying na vida de um indivíduo, o seriado mostra como é difícil caminhar pela vida sendo mulher em uma sociedade machista.

A menina, como qualquer jovem, tinha esperanças e sonhos de encontrar um namorado, fazer amigos e se divertir. Infelizmente, quase todas as pessoas que passaram por ela foram cruéis, especialmente os rapazes, que são exemplos de como a masculinidade é tóxica e agressiva contra as mulheres – e como é urgente discuti-la.

Justin Foley (Brandon Flynn) é o primeiro na lista de Hannah. Os dois flertaram por um tempo até se encontrarem em um parque, onde se beijaram. A garota ficou muito feliz, mas sua alegria durou pouco, já que o menino mostrou uma foto da calcinha dela (tirada sem ela perceber) para um grupo de amigos, incluindo Bryce (Justin Prentice), o pior rapaz de todo o colégio onde estudam. Logo que viu a imagem, ele a enviou para todos na escola e, assim, a menina começou a ser vista como uma menina ‘fácil’ e ‘vadia’.

O compartilhamento de imagens íntimas de uma pessoa sem seu o consentimento tem se tornado um crime muito comum nos dias de hoje, principalmente com a ajuda da internet, e que tem as mulheres como a grande maioria das vítimas: 81%, segundo dados da ONG Safernet. O slut-shaming, como é conhecida essa violação de privacidade, tem como objetivo o controle da vida e da sexualidade da mulher, como uma espécie de tentativa de colocá-la em ‘seu lugar’. Isso tem consequências devastadores na vida das vítimas, que não raramente perdem empregos, têm de mudar de cidade, desenvolvem ataques de pânico, entram em depressão e até chegam a cometer suicídio.

E não fosse aquela foto um começo ruim para seu ano no colégio, a garota ainda teve de lidar com os constantes assédios dos meninos, os quais começaram após Alex (Miles Heizer) fazer uma lista de ‘meninas gostosas’ na escola, colocando Hannah como tendo ‘a melhor bunda’. Isso fez com que os rapazes sentissem que tinham direito sobre o corpo dela, tocando-a sem o seu consentimento, muitas vezes de maneira invasiva, como fez Marcus (Steven Silver), em um encontro que marcou com Hannah, quando tentou levantar a saia dela.

A partir daí, percebemos como a vida da jovem é sacudida e sua autoestima vai sendo minada. Sem amigos e com uma péssima reputação, recebida graças aos rapazes que cruzaram em sua vida, Hannah não vê muita perspectiva em seu futuro, o que acaba afetando até sua relação com Clay (Dylan Minnette), o único garoto que sempre a respeitou e a tratou de forma gentil. 

Por fim, ferida de diversas maneiras, inclusive por meninas que considerava suas amigas, ela é estuprada por Bryce, que segundo a própria, foi o responsável por ‘partir sua alma’. Ela tenta procurar ajuda com o conselheiro da escola, mas que nada faz para aliviar as dores internas da garota.

Todas essas situações assustadoras contribuíram para que Hannah não visse outra solução, a não ser o suicídio. O machismo foi um dos fatores que a levaram a tirar sua própria vida, assim como o faz com mulheres no mundo todo. Embora a história da série da Netflix seja ficção, ela é um retrato fiel de como a violência de gênero no mundo real leva meninas e mulheres a adoecer e, em seguida, a morrer.

Embora muito se discuta se “13 Reasons Why” romantiza, ou não, o suicídio (o que é uma conversa importante), também é preciso levar em consideração o peso do machismo na decisão da garota e de milhares delas fora das telas do computador, celular e televisão. Se estamos, mais uma vez, conversando sobre doenças mentais, também devemos conversar sobre violência contra a mulher. Essa é, também, uma maneira de salvar muitas Hannahs espalhadas por aí.


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