O Grammy Awards falhou em reconhecer o talento das mulheres

29. Janeiro 2018 POP 0
O Grammy Awards falhou em reconhecer o talento das mulheres

Kesha fez uma performance emocionante no Grammy Awards, logo após uma linda apresentação de Lady Gaga na premiação. Quem mais soltou a voz no evento foram SZA e Cardi B, que cantaram “Broken Colors” e “Finesse” no palco mais observado da indústria fonográfica. Contudo, todas elas voltaram para casa com as mãos abanando, já que as quatro perderam em todas as categorias que concorreram.

Aliás, elas não foram as únicas: Lana Del Rey, Lorde e Rapsody também ficaram a ver navios no Grammy Awards. Apenas uma mulher, Alessia Cara, ganhou em uma categoria grande, sendo eleita a Artista Revelação do ano. Porém, ao final, o que vimos foi mais uma noite de celebração e reconhecimento ao talento masculino.

E se você perguntar ao presidente da Academia Fonográfica, Neil Portnow, a culpa pela falta de prêmios às mulheres não é da indústria musical, mas das próprias artistas.

“É preciso começar com as mulheres, que têm a criatividade em seus corações e almas, que querem fazer música, que querem ser engenheiras, produtoras e querem fazer parte da indústria a nível executivo”, começou Portnow, segundo reporta a revista Variety. “Elas precisam elevar seus trabalhos, pois eu acho que eles seriam bem-vindos. Eu não tenho experiência pessoal sobre os tipos de muros que elas enfrentam, mas acho que nós, enquanto indústria, devemos fomentar oportunidades para todas as pessoas que querem ser criativas e levá-las adiante e criar a próxima geração de artistas”.

Falar sobre oportunidades é ótimo, mas a realidade é que a indústria musical como um todo oferece menos espaço para que as mulheres possam prosperar. Segundo um estudo deste ano sobre desigualdade de gênero no meio musical,, feito pela Dra. Stacy L. Smith, do Annenberg Inclusion Initiative, entre 2012 e 2017, as mulheres foram minoria no número de artistas, compositoras e produtoras no Top 100 da Billboard dentro do período pesquisado.

Enquanto artistas, somente no ano passado, elas foram 16,8% dos cantores que entraram na disputada parada musical. Já as compositoras foram 12,3% nos últimos seis anos, sendo que 73,8% delas escreveram apenas uma música entre 2012 e 2017. Embora os homens tenham um percentual parecido no quesito de composição única (70%), a quantidade de homens compositores que escreveram outra música de sucesso é relativamente maior que o encontrado entre as mulheres (12,4% contra 7,9%). E no que diz respeito à produção, 98% dos produtores eram homens.

E isso reflete diretamente nos indicados ao Grammy Awards. O mesmo relatório aponta que, entre 2013 e 2018, apenas 9,3% dos indicados nas principais categorias da premiação foram mulheres. Neste ano, as indicadas femininas formaram apenas um quinto do total nas categorias Álbum/Canção/Gravação do ano e Artista Revelação, sendo elas: Lorde, Julia Michaels, SZA e Alessia Cara. E como dito anteriormente, Alessia foi a única premiada do grupo. 

Ao longo da premiação, nós tivemos de assistir Kesha, Lady Gaga, Lana Del Rey e P!nk perderem prêmios para Ed Sheeran. No caso da voz de “Praying”, imagine enfrentar uma batalha judicial contra um homem que a abusou física, sexual e emocionalmente, ser impedida de fazer o que mais ama por se recusar a trabalhar novamente com seu estuprador, perder dinheiro e saúde em um processo demorado, para em seguida colocar sua verdade e seu coração em uma música, e perder justamente o prêmio para uma canção genérica de um homem sobre ter se apaixonado pela forma física de uma garota que ele conheceu em um bar. 

“Shape Of You” foi, sim, um grande hit em 2017, mas “Praying” tinha não apenas uma mensagem forte, mas também era melhor. Esse era para ser o momento de Kesha, que deu voz e rosto a uma campanha contra assédio e abuso de poder na indústria do entretenimento e na política, antes mesmo de Time’s Up acontecer. 

Mas se as artistas femininas brancas saíram perdendo, as cantoras negras indicadas foram ainda mais esnobadas pela Academia Fonográfica. SZA era a mulher com mais indicações e perdeu todas elas, mesmo com o elogiado e aclamado álbum “Ctrl”. Cardi B, que fez história na Billboard Hot 100 com “Bodak Yellow”, poderia também fazer história no Grammy, caso ganhasse nas categorias de rap em que concorria. Esse marco ficará para outro ano, pois a rapper também saiu de mãos vazias da premiação. Outra rapper, Rapsody, que poderia ser a primeira mulher a vencer Melhor Música de Rap, voltou para casa sem nenhum troféu.

Dos 84 gramofones dourados da noite, as mulheres levaram apenas 11 deles. Em um ano em que o tapete vermelho do Grammy foi tomado por rosas brancas, um gesto de apoio à iniciativa Time’s Up e às vítimas de assédio sexual, é frustrante que a premiação tenha se apoiado nas artistas femininas para fazer performances, conquistar a audiência, falar sobre temas sérios, mas que tenha reconhecido tão pouco seus talentos.

Em vez de pedir para que elas “elevem” seus trabalhos, seria melhor que o Grammy reconhecesse que tem um problema grave de gênero – e que ele precisa ser corrigido urgentemente.