O Globo de Ouro premiou filmes problemáticos: nossa avaliação da premiação

O Globo de Ouro premiou filmes problemáticos: nossa avaliação da premiação

Durante a noite de domingo e a madrugada desta segunda-feira (7), aconteceu a entrega do Globo de Ouro, prêmio concedido pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood. Foi um evento de celebração de Sandra Oh, que fez história na premiação, e de reconhecimento a dois filmes problemáticos: “Green Book – O Guia” e “Bohemian Rhapsody”.

Mas vamos começar pelo começo: embora sempre haja espaço para melhorias, o Globo de Ouro tinha entre seus indicados, uma boa dose de diversidade. “Pantera Negra”, “Podres de Ricos” e “Pose”, por exemplo, contam histórias de comunidades com pouquíssima representatividade na mídia, e que concorriam em grandes categorias. Nenhuma dessas produções venceu, mas é positivo que a premiação tenha considerado obras que tenham equipes majoritariamente negra, asiática e LGBTQ para concorrer a um prêmio tão importante em Hollywood.

Seguindo em frente, para apresentar a cerimônia, foram escalados Andy Samberg e Sandra Oh. A dupla havia prometido um evento pouco politizado, mas entregaram um resultado bem diferente. Sandra, que é a primeira mulher de origem asiática a apresentar o Globo de Ouro, logo na abertura, comentou que “‘Podres de Ricos’ está indicado a Melhor Filme. É o primeiro filme de um estúdio com protagonistas asiáticos desde ‘Ghost in the Shell’ e ‘Aloha'”.

Os dois longa-metragens foram protagonizados por mulheres brancas (Scarlett Johansson e Emma Stone, respectivamente), enquanto as personagens eram asiáticas. O shade da artista chegou a Emma Stone, que atuou em “Aloha”, e gritou para todos ouvirem: “me desculpe”. “Eu não planejei, mas eu disse isso, sim”, afirmou Stone ao jornal The Los Angeles Times.

A apresentadora do Globo de Ouro saiu vencedora do evento com a estatueta dourada de Melhor Atriz em Série Dramática por seu trabalho em “Killing Eve”. Com isso, Sandra fez história ao ser a primeira mulher premiada na categoria em quase 40 anos: Yoko Shimada foi a última mulher a receber a honraria, pelo papel em “Shogun”, em 1981. E como já havia recebido um Globo de Ouro, em 2006, como Melhor Atriz Coadjuvante, Sandra se tornou a primeira mulher de origem asiática a receber mais de um troféu na premiação. A artista levou os pais para o evento, que não disfarçaram o orgulho pela filha.

E em uma nota também importante: Sandra Oh vestiu apenas vestidos feitos por mulheres na premiação.

Michael Douglas levou Melhor Ator em Série de Comédia ou Musical (“O Método Kominsky”); Richard Madden foi o Melhor Ator em Série Dramática (“Bodyguard”); “The Americans” foi a Melhor Série Dramática; Ben Whishaw foi o Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para TV (“A Very English Scandal”) e Patricia Arquette foi a Melhor Atriz em Série, Minissérie ou Filme para TV (“Escape at Dannemora”).

Foi bonito ver Arquette levando um prêmio, já que desde seu famoso discurso por igualdade salarial no Oscar, a atriz foi pouco vista e reconhecida por seu trabalho. Ela chegou a dizer que perdeu papéis por conta de suas palavras na premiação. Porém, desde então, a indústria cinematográfica nunca mais foi a mesma e conversas sobre salários e igualdade entre homens e mulheres nunca foram tão presentes.

A Melhor Animação de 2018 foi “Homem-Aranha: No Aranhaverso”, que apresenta o famoso super-herói como um menino negro – e não branco como estamos acostumados a ver. “Qualquer um pode vestir a máscara”, disse Peter Ramsey, diretor do filme. “Todos são poderosos e necessários, e esse é o espírito do filme”.

E já que estamos falando de um personagem negro, artistas negros também saíram vitoriosos. Mahershala Ali levou Melhor Ator Coadjuvante por “Green Book – O Guia”, filme que reconta a vida do pianista Don Shirley. No mês passado, o artista pediu desculpas à família do músico, a qual viu problemas na forma como Don Shirley foi representado. Além disso, o filme foi duramente criticado por perpetuar estereótipos racistas e por colocar um branco como salvador do personagem negro.

Regina King foi premiada como Melhor Atriz Coadjuvante em Filme por “Se a Rua Beale Falasse”, do diretor Barry Jenkins (“Moonlight”). No palco, ela firmou um compromisso de ter uma equipe 50% feminina nos projetos futuros que produzirá. E não parou por aí, não. “Eu desafio a todos que estejam em posição de poder a fazer o mesmo”, disse Regina. 

E antes de prosseguirmos: essa foi a reação de Taraji P. Henson ao ver Janelle Monáe no palco, com quem atuou no filme “Estrelas Além do Tempo”. Se essa não é a melhor amiga de todas, eu não sei qual é.

Lady Gaga não levou o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama, mas levou Melhor Canção por “Shallow”! Já a Melhor Trilha Sonora foi para “O Primeiro Homem”. Dois gigantes de Hollywood também foram premiados: Carol Burnett, recebeu um prêmio que leva seu nome, enquanto Jeff Bridges foi reconhecido por sua longa carreira no cinema.

E teve mais girl power no Globo de Ouro: Rachel Brosnahan levou Melhor Atriz em Série de Comédia ou Musical pelo segundo ano consecutivo, e agradeceu à equipe que trabalha na série “The Marvelous Mrs. Maisel”, dizendo que quem faz ela acontecer é o “matriarcado”. Olivia Colman foi a Melhor Atriz em Filme de Comédia e Musical, por “A Favorita” (e ainda brincou no palco, chamando suas colegas de elenco Emma Stone e Rachel Weisz de “minhas vagabundas”). Glenn Close foi a Melhor Atriz em Filme de Drama, pelo papel em “The Wife”, conquistando seu terceiro Globo de Ouro (e o terceiro da carreira). A artista fez ainda um emocionante discurso na premiação.

“Eu penso na minha mãe, que se submeteu ao meu pai por toda sua vida”, começou. “E aos oitenta anos, ela me disse: ‘eu sinto que não realizei nada’. E isso não estava certo. Eu acho que o que aprendi com toda essa experiência é que nós, mulheres, somos provedoras, é o que se espera de nós. Nós temos filhos, maridos – se tivermos sorte – e nossos parceiros, mas precisamos ter uma realização pessoal. Temos que seguir nossos sonhos. Temos que dizer: ‘eu posso fazer isso e devo ter permissão para tal”.

Alfonso Cuarón foi mais um artista a levar prêmios para a Netflix, com o belíssimo filme “Roma”. O cineasta mexicano levantou duas estatuetas: Melhor Diretor e Melhor Filme Estrangeiro. 

“O cinema, na sua melhor forma, constrói pontes a outras culturas. Enquanto atravessamos essas pontes, essa experiência e essas novas formas e rostos… Nós precisamos perceber que, embora sejam estranhos, eles não são desconhecidos. Precisamos entender o quanto nós temos em comum. Esse filme não seria possível sem as cores específicas que fizeram quem eu sou hoje. Obrigado à minha família e obrigado, México”, agradeceu Cuarón.

Além do diretor, o produtor de “O Assassinato de Gianni Versace”, Brad Simpson, aproveitou seu momento no palco para pedir a todos que resistam em meio a tantos crimes de ódio e de ameaça à democracia (um discurso sobre a realidade americana, mas que serve para o Brasil também).

“Gianni Versace foi morto há 21 anos. Ele foi uma das poucas figuras públicas fora do armário durante uma época de ódio e medo intensos”, disse o produtor. “Essas forças de ódio e medo ainda estão conosco. Elas dizem a nós que nós devemos ter medo de quem é diferente da gente. Dizem para criarmos um muro em volta da gente. Enquanto seres humanos, nos devemos resistir nas ruas, nas urnas e praticar a empatia todos os dias. Essas forças não são históricas. Elas estão aqui, estão conosco e nós devemos resistir”.

Darren Criss foi o Melhor Ator em Série, Minissérie ou Filme para TV (“O Assassinato de Gianni Versace”); Christian Bale o Melhor Ator em Filme de Comédia ou Musical (“Vice”); Patricia Clarkson a Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Filme para TV (“Sharp Objects”) e “Green Book” levou outro prêmio, dessa vez por Melhor Roteiro – ainda que o filme seja problemático, como dito anteriormente.

E se a cota de produções problemáticas não tivesse sido preenchida, “Bohemian Rhapsody”, que faz uma representação terrível da sexualidade de Freddie Mercury, basicamente colocando-a como fator responsável pela queda e morte de Freddie Mercury, levou dois prêmios: Melhor Ator em Filme Dramático (Rami Malek, nada contra – ele é ótimo no papel) e Melhor Filme Dramático. Nesta última categoria, havia “Pantera Negra”, “Infiltrado na Klan”, “Se a Rua Beale Falasse” e “Nasce Uma Estrela” concorrendo. Como “Bohemian Rhapsody” levou, eu não sei, mas foi a maior surpresa – e desapontamento – da noite. Bryan Singer, primeiro diretor do longa-metragem, não foi citado em nenhum discurso de agradecimento, já que o diretor é acusado de estupro.

O Globo de Ouro surpreendeu muita gente – para o bem ou para o mal – , mas não deixa claro se há favoritos para o Oscar, prêmio mais importante do cinema americano. Foi uma noite de uma boa e merecida celebração de representação asiática, mas também de algumas frustrações, como a arte de artistas negros não recebendo o reconhecimento que merece. Representatividade importa muito, mas sabemos que nem toda representação é uma boa representação. E nesse ponto, Hollywood ainda precisa evoluir.

Tradução: “Bohemian Rhapsody’ e ‘Green Book’ são os filmes do ano com certeza, a menos que você pergunte para as comunidades das quais esses filmes deveriam representar”.