O difícil exercício da empatia

16. setembro 2014 Internet 3
O difícil exercício da empatia

Quero começar o texto de hoje com uma frase do filósofo Cornell West a respeito de algo muito em falta hoje em dia: a empatia.

Empatia é mais que tentar imaginar o que os outros estão passando. Empatia é ter a disposição de reunir coragem o suficiente para fazer algo sobre isso. (Cornell West)

Como é difícil ser empático, não? Calçar o sapato do outro, tentar enxergar a realidade com os olhos de quem vive uma determinada situação não é tarefa fácil. Somos ensinados, desde pequenos, que devemos fazer nosso melhor, a nos esforçarmos para conseguir algo. Mas quando vemos alguém conseguindo alguma coisa de “mão beijada” ou “fazendo-se de vítima” (coloco em aspas e explicarei o motivo), já apontamos o dedo, prontos para condenação. Sempre estamos prontos para julgar o oprimido, mas nunca quem está com o poder na mão. Vejamos alguns exemplos:

  • há quem diga que o racismo não existe no Brasil; que as cotas raciais nas universidades, ao invés de serem políticas afirmativas de inclusão de negros no ensino superior, na verdade, são descriminatórias, uma vez que colocam quem as recebem como pessoas menos capazes;
  • há quem diga que a homofobia não deve ser caracterizada como crime, já que pessoas morrem todo os dias por diversos motivos, logo, seria injusto dar “preferência” a um grupo de pessoas;
  • há quem negue o machismo. Em pleno século XXI, seria impensável uma mulher ter de lutar todos os dias por igualdade, já que ela pode estudar, trabalhar e estudar. O que mais elas querem?;
  • e há quem diga que pobreza é opcional; que o Bolsa Família é uma esmola que o governo dá para quem é preguiçoso e não vai atrás de uma vida digna.

No caso do racismo, isenta-se completamente o homem branco que escravizou o negro e o fez de escravo por séculos e o expulsou dos centros acadêmicos de qualquer decisão política. Se você não acredita nisso e acha que a população negra vive de “coitadismo”, olhe para o lado. Veja quantos negros estão nas faculdades. Agora olhe para as universidades públicas. Quantos são? Quantos negros, que você conhece, ocupam cargo de chefia? Olhe para os programas de TV, para os protagonistas das novelas, para os nossos senadores. Se conhece um ou até nenhum, isso não é coincidência. Mesmo sendo um país onde a maioria da população é negra (50,7%, segundo o IBGE), nossa representatividade continua sendo branca.

Num caso recente de racismo, o do jogador Aranha, do Santos, que foi xingado de macaco durante uma partida contra o Grêmio, houve a expulsão do tricolor gaúcho do campeonato em que a partida estava sendo disputada. Para muitos (entende-se brancos) foi uma decisão exagerada. Aos revoltados, a charge abaixo explica muito:

racismo

Quanto à causa homossexual, criminalizar a homofobia é uma medida urgente. Não que deva ser a única medida; já que enquanto houver pessoas ensinando as crianças a odiarem outras crianças por serem diferentes, ainda é necessário o ensino de educação sexual e de diversidade nas escolas. Algo que me parece inexistente no Brasil. Pelo menos eu nunca tive aula de educação sexual durante minha vida escolar.

Aos que acham que criar leis específicas para os homossexuais é dar privilégios a essas pessoas, lembremos que casais heterossexuais não são impedidos de casar, de adotar crianças e não andam na rua com medo de serem atacados por alguém com uma lâmpada na mão. Lembremos também que ninguém morre por ser hétero. Mas um homossexual morre todos os dias por sua orientação sexual ser diferente. Imagina sua sexualidade ser fator a ser decidido por outra pessoa para viver, para casar, para andar na rua? Se você não imagina como é isso, não seja contra direitos básicos para alguém que só quer viver sua vida sem incomodar ninguém. Como diz o doutor Dráuzio Varella no vídeo abaixo, se faz diferença para você se a sua vizinha é casada com outra mulher, procure um psiquiatra, pois tem algo errado com você.

Uma das coisas mais absurdas é negar o machismo na nossa sociedade. Aliás, negar que haja qualquer discriminação na nossa sociedade já é espantoso, mas o machismo é tão presente e tão intrínseco em nós, que nem percebemos como ele está presente em todas as partes. Mulheres conseguiram o direito ao estudo, ao voto, ao trabalho fora de casa. O que mais elas querem? Andarem sozinhas nas ruas sem medo de serem estupradas. E isso para dizer o mínimo. Se eu, enquanto homem, tenho medo de roubarem meu celular, imagine uma mulher andar com medo de ser violentada da pior forma? Imagine ter de conviver com cantadas e assédios em todo local, receber menos mesmo ocupando a mesma função numa empresa? Quantas mulheres estão em cargo de poder? Nossa presidente é mulher, o que é uma conquista enorme, mas ainda é pouco. Olhe a representatividade feminina no senado. Nas empresas. Ainda é pouco.

São as mulheres que engravidam, mas somos nós que controlamos se elas devem ter filho ou não. Controlamos o corpo, a sexualidade, suas liberdades individuais. Li esse relato aqui e, honestamente, só consigo dizer “moça, eu te entendo”. Nele, uma mulher relata suas péssimas experiências com homens e explica porque virou misândrica. Cara, no lugar dela, eu provavelmente me comportaria da mesma forma.

Outra coisa sobre feminismo, na verdade, sobre homens feministas. É ótimo que sejamos, mas não podemos querer ganhar uma estrelinha na testa por causa disso. É o mesmo que dizer “me deem um prêmio, porque eu não estuprei uma mulher”. Você precisa de aplauso para poder respeitar alguém? Que ego, hein? Respeita e fica na sua. Não é à toa que as feministas viram os olhos quando generalizam uma violência e aparece um homem para dizer “not all men” (nem todos os homens). Se você não é machista, amigão, você não tá fazendo mais do que sua parte.

feminismo

E, finalmente, quando falamos que quem é pobre, é porque está nessa porque quer, olha… Geralmente, quem diz isso está longe de estar na lista de bilionários da Forbes, mas abraça o discurso com muito amor. Ser julgado, ser motivo de piada, ter sua humanidade negada, não ter seus direitos respeitados, tudo isso não é escolha. Ninguém rouba porque é mais fácil. Ninguém passa fome porque é legal jejuar sem qualquer motivo aparente. O sistema é excludente. Ele não abraça a todos como o cara do discurso mentiroso.

O Bolsa Família, por exemplo, é uma política afirmativa de inclusão dos mais pobres. Com o benefício, as famílias podem gastar, consumir. Ser parte de uma sociedade. E para ganhá-lo, é necessário preencher uma série de requisitos. Fora que o dinheiro é muito pouco, por isso é um complemento da renda. Ninguém vive de Bolsa Família, como muitos gostam de argumentar. A socióloga Walquíria Leão Rego e o filósofo italiano Alessandro Pinzani foram aos rincões do Brasil para avaliar os impactos do programa do governo federal. Sim, eles foram a campo, não ficaram na frente do computador compartilhando qualquer montagem da TV Revolta no Facebook. Sabe o que concluíram?

“Acho que o Bolsa Família foi uma das coisas mais importantes que aconteceram no Brasil nos últimos anos. Tornou visíveis cerca de 50 milhões de pessoas, tornou-os mais cidadãos. Essa talvez seja a maior conquista”. 

É difícil ser empático, porque é necessário que quebremos com muito do que nos foi ensinado a nossa vida toda. Mas o efeito disso é liberador, porque entramos em contato com a dor do outro e fazemos dela a nossa. E assim, lutamos juntos contra aquilo que oprime nosso semelhante. Eu não sou mulher, mas imagino o que ela sofre. Por isso apoio o feminismo. Não quero ser livre sozinho, quero que todos sejamos livres, mas só podemos ser realmente livres a partir do momento em que calçamos o sapato do outro. Nem sempre é do nosso tamanho, mas cabe. É só fazer um esforço. Uma vez no seu pé, tente andar. E quando sentir a dificuldade no caminhar, lembre-se que tem gente nessa há mais tempo. E sempre dá para ajudar a fazer novos sapatos.

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