O capacitismo nos universos DC e Marvel

15. setembro 2018 Cinema, Televisão 0
O capacitismo nos universos DC e Marvel

Hoje é o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência. E é certo que nós, pessoas com deficiência, sofremos preconceito por todo o lugar (acredite, nossa luta por acessibilidade e aceitação no mundo não é ‘mimimi’). Mas como é esse preconceito no mundo e no fandom dos nossos heróis da DC e Marvel? Bom, aqui trago uma lista das principais formas de preconceito contra essas pessoas que aparecem por aí nessa área.

A CURA

Muitos personagens que adquiriram ou nasceram com alguma deficiência acabam se curando. É o caso da Batgirl/ Bárbara Gordon, que na nova série de quadrinhos de sua equipe de super-heroínas, as “Aves de Rapina”, volta a andar com duas pernas, deixando de assumir a sua identidade como cadeirante, conhecida como “Oráculo” (série de quadrinhos completa disponível no HQBR). Ou, então, nas inúmeras vezes em que o Professor Xavier saiu de sua cadeira de rodas e começou a andar com duas pernas de repente. Ou no episódio 22 da quarta temporada da animação “Os Vingadores da Marvel” (temporada esta chamada de “Os vingadores da Marvel: Guerras secretas”), em que o Gavião Arqueiro se torna cego, mas se cura no final do episódio (seriado completo disponível na Netflix).

Em primeiro lugar, ter uma deficiência não é a mesma coisa que ficar de cadeira de rodas por pouco tempo por causa de uma fratura temporária, ou quebrar um braço ou qualquer outra coisa temporariamente. Quando você convive com uma deficiência por anos, sua vida muda. Você aprende coisas e toma rumos de sua vida que nunca faria se não tivesse a deficiência. E isso não acontece com gente que quebrou alguma coisa que daqui a pouco já está no lugar. Mas parece que a Marvel e a DC acham que tudo é a mesma coisa.

Em segundo lugar, constantemente ouvimos exigências de nos curarmos. São cadeirantes ouvindo que precisam se levantar de suas cadeiras, são pessoas com deficiência intelectual sendo exigidas de fazer as coisas de maneira normal (como se o tal “normal” realmente existisse). A Marvel e a DC, ao curarem seus personagens com deficiência, só reforçam o preconceito nesse sentido.

INVISIBILIZAÇÃO DAS DEFICIÊNCIAS DOS PERSONAGENS

Você já parou para pensar, por exemplo, que o Bucky, o Soldado Infernal, tem deficiência? Ou então que o Cable, que aparece em “Deadpool 2”, também tem?

São exemplos da invisibilização das deficiências dos personagens. Os roteiros são elaborados para que essas deficiência sejam esquecidas, deixando de lado uma parte importante da representatividade: o reconhecimento de que a pessoa é uma igual às outras. Isso gera a sensação de que nós, pessoas com deficiência, não temos espaços nos quadrinhos mainstream, quando na verdade temos, mesmo que pouco.

Isso é parte da cultura de massa capitalista, que tem como princípio agradar a todos os públicos para apenas ganhar dinheiro. Os grandes empresários encontraram a fórmula para agradar a todos os públicos, de forma que não percam nenhum grupo de massa consumista, nem daqueles que defendem os direitos das pessoas com deficiência nem daqueles que não os defendem. Assim, a quantidade de pessoas que percebem que tais heróis têm deficiência são pessoas que têm deficiência e/ou defendem os direitos delas, dando jus à representatividade. Enquanto isso, quem não defende sequer vai perceber a deficiência do herói, mas não deixando de consumir o conteúdo. Tudo isso para que pouquíssimos empresários ganhem muito, mas muito dinheiro. Nesse sentido, pessoas defensoras da tal causa são usadas como cobaias geradoras de dinheiro. 

FALTA DE TECNOLOGIA

Por que, por exemplo, o Sebastian Stand, o ator que faz o Bucky no Marvel Cinematic Universe (em tradução, “Universo Cinematográfico da Marvel”) não tem deficiência? Porque na vida real, quase não existe investimento científico-tecnológico para o aprimoramento de próteses.
As pesquisas que recebem mais investimentos são as de coisas voltadas para uma elite branca, heterossexual, sem deficiência e também para grandes capitais.

A QUESTÃO DA VINGANÇA

É o caso do Deadpool. A pessoa acaba adquirindo alguma deficiência em meio à trama de combates e quer se vingar de quem o deixou com deficiência, o que é diferente da vingança por tortura ou causas de acidentes dolorosos. Nesses casos, é errado, mas não no sentido capacitista. Buscar vingança porque adquiriu uma deficiência é, pois nesse caso, não é um exemplo de aceitação da própria deficiência, mas de tratar ela como algo ruim, algo como uma condição ‘demoníaca’. Quem tem deficiência sabe que, no começo, o sentimento de inferioridade pode até aparecer (aliás, todo o mundo é ensinado o tempo todo visões errôneas sobre nós). Mas, com o tempo, esta o ensina muitas coisas boas. É uma relação tão íntima que algumas (talvez até muitas) pessoas, ao serem perguntadas se preferem ficar sem ou com a deficiência, preferem ficar com ela.

Nota: Capacitismo é o preconceito contra pessoas com deficiência.