NYT: “Corajosa o bastante para ficar com raiva”

12. novembro 2017 Famosos 0
NYT: “Corajosa o bastante para ficar com raiva”

*O artigo abaixo é uma tradução do editorial do jornal The New York Times, escrito por Lindy West

No mês passado, um correspondente do Access Hollywood pediu à atriz Uma Thurman que comentasse o abuso de poder em Hollywood, provavelmente por conta das acusações de assédio sexual contra o produtor Harvey Weinstein. Falando devagar e deliberadamente contra sua vontade, Thurman respondeu: “eu não tenho nada para você. Eu aprendi, pois eu não sou criança, e aprendi que, quando falava com raiva, geralmente eu me arrependia da forma como eu me expressava. Por isso, eu estou esperando sentir menos raiva. E quando eu estiver pronta, vou ter algo a dizer”.

Thurman está furiosa, como todas nós estamos, nas nossas variadas formas, ou como Thurman prefere: esperar. Estamos furiosas com a quantidade de tempo em que fomos ignoradas; furiosas por aquelas que, por anos, foram punidas por dizerem a verdade; furiosas por dizerem as nossas vidas inteiras que não temos direito de ficarmos furiosas. A raiva de Thurman é palpável, ainda que seja contida, transportando não apenas as profundezas tempestuosas da [campanha] #MeToo, mas um entendimento maior de como a raiva feminina é recebida e transformada em arma contra as mulheres.

Nos últimos meses, vimos Carmen Yulín Cruz, prefeita de San Juan, em Porto Rico, atacada pela extrema direita por ter criticado a anêmica reposta de Donald Trump ao furacão Maria (“Nós estamos morrendo aqui”, disse Cruz à mídia, “estou furiosa”), e a deputada Frederica Wilson ser inundada por abusos depois que ela considerou a ligação de Trump para a viúva de um militar, Myeshia Johnson, como ‘insensível’ e ‘um insulto’. Cruz e Wilson foram diretamente atacadas pelo presidente no Twitter e, então, transformadas em memes, regurgitadas, digeridas novamente e feitas em memes pela corja obediente e online dele.

Na semana passada, Juli Briskman, uma contratada do governo, perdeu seu emprego depois de uma foto em que mostra o dedo do meio para a comitiva presidencial viralizou. Solange, Britney Spears, Sinead O’Connor, as Dixie Chicks, Rosie O’Donnell – eu luto para pensar nas mulheres que perderam a cabeça em público e não foram ridicularizadas, temporariamente ou não. E nós nem precisamos ter raiva para sermos chamadas assim. Acusações de ‘mulher negra raivosa’ perseguiram Michelle Obama durante toda a sua estadia na Casa Branca, apesar de 8 anos de pose imperturbável (as mulheres negras sofrem desproporcionalmente com esse paradigma). As longas décadas de chamar Hillary Clinton de megera louca terminaram há um ano, quando hoje, apesar de manter uma calma além do normal durante toda a campanha mais brutal da memória, ela perdeu a eleição para um exemplo de masculinidade exaltada.

Como qualquer outra feminista com uma plataforma pública, sou perpetuamente vista com reprovação. Mas qual é a alternativa? Aprovar? Eu não aprovo.

As mulheres não apenas têm que resistir à violência sexual, à violência de um parceiro íntimo, à discriminação no local de trabalho, à subordinação institucional, às expectativas de trabalho doméstico livre, à culpa por sua própria vitimização, e acima de tudo isso, aos cortes invisíveis que nos destroem diariamente. Não nós é permitido nem ficar com raiva disso. Feche seus olhos e pense nos Estados Unidos.

Esperam que nós fiquemos quietas sobre homens que nos perseguem, como se a perseguição deles fosse nossa escolha, não deles. Esperam que nós fiquemos sentadas enquanto homens debatem se o estado deveria permitir que nossos corpos fossem encubadores. Esperam que nós não reclamemos enquanto somos diminuídas, degradadas e desacreditadas.

Esperam que nós concordemos (e nós concordamos!) com a repressão paterna de que é irresponsável e hiperemocional pedir que uma mulher seja presidente, depois de 241 anos de homens sendo presidentes – porque isso seria tokenismo, anti-democrático e perigoso – embora gerações de homens brancos políticos não se tivessem se mostrado completamente desinteressados às necessidades das comunidades das quais não fazem parte. Como se o monopólio de homens brancos de luta pelo poder nos Estados Unidos não seja precisamente o tipo de ‘política de identidade’ que eles alegam abominar. Como se mulheres competentes e qualificadas sejam tão difíceis de encontrar, que mesmo uma longa e sincera busca por uma levaria muito tempo, e qualquer candidata fosse um meio-termo.

Enquanto isso, um lembrete do nível da competência masculina: Donald Trump é o presidente.

Na terça-feira, eleitores – alguns nervosos, alguns esperançosos, apesar de si mesmos – foram às urnas e contaram uma história diferente: a primeira mulher trans eleita para a legislação da Virgínia e houve um aumento de candidatas Democratas em toda a nação, muitas delas vitoriosas.

Eu não me considerava feminista até meus 20 anos. Meu mundo me ensinou que feministas eram feias e ridículas, e eu não queria ser essas coisas. Eu queria ser legal e desejada pelos homens, porque mesmo adolescente, eu sabia de maneira implícita que buscar a aprovação masculina era a moeda mais efetiva de uma mulher. Era minha melhor chance de ter sucesso, ou pelo menos segurança, e eu nem era sofisticada o bastante para ver que sucesso e segurança, dados sob condições, não são sucesso e segurança. Eles são domesticação e violência implícitas.

Colocando de outra maneira, levei duas décadas para ter coragem o bastante para ter raiva. Feminismo é a manifestação coletiva da raiva feminina.

Eles suprimem nossa raiva por um motivo. Vamos provar que eles estão certos.


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