Nenhum homem falou sobre assédio sexual no palco do Globo de Ouro – e isso diz muito

Nenhum homem falou sobre assédio sexual no palco do Globo de Ouro – e isso diz muito

O Globo de Ouro aconteceu no último domingo (8), abrindo a temporada de premiações em Hollywood. Foi uma noite das mulheres, as quais se uniram em preto para protestar contra o assédio sexual e abuso de poder, problemas que ganharam repercussão no mundo depois das denúncias envolvendo o produtor Harvey Weinstein. 

Basicamente, todas vestiram a mesma cor para comparecer à cerimônia, foram perguntadas sobre a persistente violência contra a mulher e usaram o tempo que tiveram em cima do palco para falar sobre o assunto. Ao mesmo tempo, seus colegas homens também foram ao Globo de Ouro com caros ternos pretos e pins da campanha Time’s Up, uma iniciativa de combate ao assédio sexual criada pelas próprias mulheres de Hollywood.

Porém, nenhum deles aproveitou o holofote dado ao ganharem o prêmio da noite para tocar sobre o assunto mais importante do evento. E isso diz muita coisa. O silêncio masculino contribui para a continuação da violência contra as mulheres.

Seth Myers, que foi o apresentador do evento, tocou no assunto em seu monólogo de abertura. Era um movimento esperado, afinal, depois de homens poderosos começarem a cair e um exército de atrizes, diretoras, roteiristas e produtoras se unirem para ir ao Globo de Ouro usando roupas pretas, você não pode simplesmente ignorar o motivo disso.

Mas além dele, o diretor-executivo de “Handmaid’s Tale”, Bruce Miller, foi o mais perto de se manifestar contra a violência de gênero, pedindo a “todas as pessoas que fazem tudo o que podem para impedir que ‘The Handmaid’s Tale’ aconteça de verdade: continuem fazendo isso”.

Fora eles, os homens homenageados na 75ª edição do Globo de Ouro, subiram ao palco para pegar seus prêmios, agradecer suas famílias, colegas de elenco e equipes. Nem mesmo Alexander Skarsgård, o qual viveu um marido violento em “Big Little Lies”, foi capaz de falar um pouco sobre o assunto. 

(Sterling K. Brown fez um discurso tão brilhante, que não estou levando ele consideração neste post)

Talvez eles tenham sentido que não queriam roubar o protagonismo das mulheres. Talvez eles tenham pensado que aquele não era o momento ou a ocasião para isso. Ou tenham sentido que esse não era um tema que lhes diz respeito. Independente de seus motivos, foi uma oportunidade perdida de chamar a atenção de outros homens, além de participar de uma luta que diz, sim, muito respeito a eles.

É importante que as mulheres se manifestem e falem sobre suas experiências e possam romper com o silêncio e mudar essa cultura que permite que o abuso e o assédio aconteçam. Mas essa função não pode ser só delas, afinal, são os homens os responsáveis pela perpetuação das agressões contra as mulheres. Não dá para mudar o mundo com apenas metade da população engajada em fazer isso acontecer: a outra parte precisa e deve participar.

Muitos atores e diretores foram ao Globo de Ouro usando pins e vestindo preto, mas esses gestos, embora simbólicos, não dizem muito, caso eles não se manifestem. Veja os casos, por exemplo, de Gary Oldman e James Franco: ambos foram ao evento com o broche da Time’s Up, mas os dois têm acusações de assédio sexual e violência doméstica contra eles. De que adianta acenar para o movimento das mulheres, se eles não as respeitam como merecem? “Não era para ser diferente?”, como diria aquele meme que circulou à exaustão na internet.

Homens têm uma dificuldade muito grande em conversar sobre tudo isso, especialmente com outros homens, justamente porque exige uma mudança na forma como a masculinidade é construída. E isso significa não passar mais pano para as piadas machistas dos seus amigos, não ignorar mais o seu chefe assediando suas colegas de trabalho, não fazer vista grossa para seu irmão que embebedou uma mulher e fez sexo à força com ela, quando a mesma não tinha como consentir com o ato.

É preciso agir. As mulheres estão se mexendo e mostrando que não irão mais tolerar nenhum tipo de violência contra elas. Por isso, é fundamental que os homens também se mexam e construam com elas uma sociedade mais segura para todos. E os homens de Hollywood podem fazer mais e melhor. E a hora para isso é agora. A hora chegou.


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