Ao menos o clipe do Nego do Borel abriu uma importante e necessária conversa sobre pink money

15. julho 2018 POP 0
Ao menos o clipe do Nego do Borel abriu uma importante e necessária conversa sobre pink money

A menos que você tenha evitado a internet durante a semana, provavelmente soube que o Nego do Borel lançou um clipe que fez a comunidade LGBTQ revirar os olhos. Isso porque na segunda-feira passada (9), o cantor liberou o clipe da música “Me Solta”. Todo filmado no Morro do Borel, favela na Zona Norte do Rio de Janeiro, o vídeo destaca as pessoas e a música que a sociedade finge não enxergar e ouvir. Seria tudo bonito, não fosse por Borel aparecer vestido em trajes tipicamente femininos, incorporando o estereótipo da bicha preta afeminada, e beijando um rapaz na boca.

Se você não vê mal algum nisso, é preciso questionar alguns pontos. A começar pela personagem Nega da Borelli, criada pelo artista, e que carrega todos os elementos utilizados para ridicularizar homens gays, principalmente dos afeminados: ela é efusiva, rebolativa, fala alto e se veste como uma mulher. Segundo o músico contou ao Popline, a intenção não era zombar do público LGBTQ, mas fazer um discurso sobre respeito.

“Reencarnei uma personagem que fazia há tempos para lembrar de forma bem humorada que as pessoas são livres para escolherem o que querem ser. O respeito ao outro tem que estar acima de tudo”, disse o artista. Porém, a mensagem se perdeu pelo caminho quando ele optou por se vestir como uma bicha preta afeminada, em um papel feito para arrancar risos do público heterossexual. Sem contar que gays negros raramente se vêem representados em produções culturais e possuem poucos exemplos de imagens positivas de suas identidades, o que faz com que a intenção e mensagem de Nego do Borel sejam jogadas no lixo. Como bem colocou o youtuber Spartakus Santiago em um post deletado pelo Facebook, “a bicha preta afeminada sempre foi motivo de piada. Se vestir de bicha preta e fazer piada ainda não é representatividade e nem empoderamento. Empoderamento é colocar quem sempre foi silenciado numa situação de poder. De respeito”.

Outro ponto a ser analisado é o envolvimento de Nego do Borel com as causas LGBTQ. Não há um histórico que demonstre um apoio dele com as nossas questões, mas há imagens que demonstram uma simpatia pela família Bolsonaro, cujo patriarca Jair Bolsonaro, é um político conhecidamente homofóbico, que não tem interesse nos direitos LGBTQ e, sempre que pode, os ataca. Sendo um candidato à presidência do Brasil, o temor é que as conquistas nos direitos de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans regridam durante um possível mandato dele. Portanto, ao aparecer em fotos ou comentando imagens com o político, Nego do Borel parece estar completamente despreocupado com uma população que é alvo constante de violência no país. Segundo um levantamento do Grupo Gay da Bahia, houve um aumento de 30% nos homicídios de LGBTQs entre 2016 e 2017. Cadê o Nego do Borel se manifestando sobre essas vidas que estão sendo ceifadas? 

E esse último ponto leva à questão principal do texto: não venha atrás do pink money se você não quer vestir a nossa camisa. O pink money é o dinheiro gasto por LGBTQs, e que segundo a Out Leadership, chega a ser US$ 5,2 trilhões no mundo todo. No Brasil, esse valor representa R$ 150 bilhões, o que facilmente gera interesse de empresas e artistas. Se até pouco tempo nós não éramos vistos pelas marcas, ou seja, não éramos considerados consumidores, muitas companhias resolveram que era hora de sermos representados em propagandas e até termos produtos específicos. Skol, Avon, Doritos, Burger King, Uber, Coca-Cola, Starkbucks e Magnum são algumas empresas que utilizaram personagens LGBTQs em seus anúncios. E quando falamos de artistas, muitas cantoras e cantores ‘saíram do armário’ pela gente. Especialmente as mulheres, muitas construíram suas marcas associando suas imagens a discursos e ações em defesa de lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans. É o caso de Madonna, Lady Gaga e Ariana Grande, por exemplo, que estão sempre demonstrando apoio à comunidade que ajudou a construir suas carreiras.

Contudo, nós estamos muito mais atentos e sabemos diferenciar oportunismo de apoio genuíno. Quem quer o nosso dinheiro também precisa estar disposto a comprar as nossas dores. Pintar suas redes sociais nas cores do arco-íris, introduzir personagens LGBTQs e dizer que não tem preconceitos não é mais o suficiente, aliás, é muito pouco. Quando falamos de marcas, queremos saber se o apoio que aparece nas propagandas durante o mês do Orgulho LGBTQ continuará ao longo do ano. E mais: queremos saber se existem iniciativas de empregabilidade e proteção para funcionários que estejam dentro das minorias de gênero e sexuais. A diversidade pregada tem de estar dentro dos seus corredores. No caso de artistas: não basta dizer que ama os gays ou usar bordões para parecer ‘descolado’ ou ‘vanguardista’. Com quem vocês estão trabalhando? Quem são seus ícones? Vocês dão espaço e oportunidades para que artistas LGBTQs também possam fazer sucesso? Temos lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans cheias de talentos, por que não conhecê-las e impulsionar suas carreiras?

Nego do Borel não foi o primeiro a tentar lucrar o pink money. Jojo Toddynho, que fez sucesso no Carnaval com a música “Que Tiro Foi Esse?”, foi outra a tentar surfar na nossa onda, mas logo que rebateu um hater dizendo que ele tinha ‘cara de baitola’, a cantora levou um caldo. Na mesma semana de “Me Solta”, ela lançou “Arrasou, viado”, uma música cujo clipe traz a sua intérprete vestindo as cores da bandeira LGBTQ, e acompanhada de artistas e ativistas. Embora seja positivo que essas figuras ganhem destaque, a canção só faz falar de Jojo e  como “não tem quem não olhe” quando ela passa.  Talvez seja a hora de ouvir mais o que estamos dizendo já há um bom tempo.

É ótimo que marcas e heterossexuais apoiem direitos LGBTQ e se manifestem pela gente. Mas se for para falar que ama as gays, sem fazer algo, de fato, pelas gays, então não precisa. Sabemos separar quem quer estar com a gente de quem só quer fazer dinheiro em cima das nossas costas. E se você não está disposto a abraçar nossas cores e dores, eu vou pedir que nos soltem.