As diferenças e semelhanças entre as quatro versões de “Nasce Uma Estrela”

22. outubro 2018 Cinema 0
As diferenças e semelhanças entre as quatro versões de “Nasce Uma Estrela”

[SE VOCÊ AINDA NÃO ASSISTIU AO FILME “NASCE UMA ESTRELA”, FICA O AVISO DE SPOILERS A SEGUIR]

Lady Gaga está tendo muito o que comemorar com “Nasce Uma Estrela”, filme que marca sua estreia no cinema. Até o momento, o longa-metragem já arrecadou mais de US$ 100 milhões e sua atuação gerou um burburinho de que ela é uma das favoritas ao Oscar de Melhor Atriz no ano que vem. De fato, a cantora e atriz fez um trabalho incrível com a sua Ally, que sai de um emprego como garçonete para se transformar em uma grande estrela da música.

Para tal, ela tem a ajuda do roqueiro Jackson Maine (Bradley Cooper), que depois de ouvi-la cantar em um bar de drag queens, se apaixona pela moça e a leva em sua turnê, convidando-a para dividir o microfone  com ele. Ela solta a voz, o mundo se apaixona e, ao mesmo tempo em que sua carreira desponta, a carreira de Jack vai decaindo, graças ao vício em álcool e drogas. Sem saber lidar com a dependência em substâncias e com o sucesso de Ally, o músico se afunda cada vez mais, até que tira sua própria vida.

E caso você não saiba, essa é a quarta vez que “Nasce Uma Estrela” chega às telonas: em 1937, o filme foi lançado pela primeira vez, com Janet Gaynor e Fredrich March nos papéis principais, os quais tinham os nomes fictícios de Esther Blodgett e Norman Maine. Em essência, o filme permanece o mesmo, apresentando uma perspectiva sobre a construção e manutenção da fama em cada época, além, é claro, de seguir o mesmo enredo principal. Contudo, apesar da estrutura não sofrer tantas alterações, os roteiristas tomaram a liberdade de adaptar a história de forma a tornar essa franquia relevante a cada década.

Aproveitei para assistir a cada uma das versões do filme e eis o que percebi em cada uma delas:

1937: “Nasce Uma Estrela” – com Janet Gaynor e Fredrich March

Em 1937, chegava aos cinemas o primeiro “Nasce Uma Estrela”, com Janet Gaynor no papel de Esther Blodgett, uma jovem de uma cidadezinha em Dakota do Norte, e que sonhava em ser uma atriz de cinema. Com a ajuda da avó, ela vai para Hollywood tentar construir sua carreira, mas a sorte não bate à porta da novata, que trabalha como garçonete em uma festa repleta de artistas conhecidos, apenas para, quem sabe, conseguir uma oportunidade na indústria cinematográfica.

É nesse evento onde ela conhece Norman Maine (Fredrich March), um famoso ator de cinema, que se encanta com ela, e consegue um teste para a jovem. Daí em diante, a carreira de Esther deslancha, ela ganha o nome artístico de Vicky Lester, e se casa com Norman, o qual vê sua estrela sendo apagada por conta do seu vício em bebidas alcoólicas. Ele tenta se livrar da dependência em álcool, mas não consegue, e quando sua esposa planeja desistir de seu sonho para cuidar dele, o artista decide tirar sua própria vida.

Essa versão original de “Nasce Uma Estrela” é a menos conhecida de todas, muito por conta do peso dos nomes de Judy Garland e Barbra Streisand, as quais continuam sendo grandes ícones do cinema até hoje. Mas isso não significa que o filme de 1937 mereça menos prestígio: tanto Janet quanto Fredrich oferecem boas atuações; especialmente a primeira, que mesmo com um Oscar em sua estante, conseguiu convencer muito bem no papel da menina inexperiente, que tenta a vida em Hollywood. Aliás, Janet é quem comanda a fita, dando profundidade à sua personagem, que se vê dividida entre o amor e o trabalho, deixando claro que a obra é sobre ela, e não sobre Norman. 

Esther, ou Vicky Lester, é construída como uma mulher muito segura de si, que sabe o que quer e que não duvida de sua capacidade. Essa é uma das diferenças com a versão de 2018, a qual tem Ally insegura em relação ao seu talento e aparência. Esther não tem nada disso dentro dela, apenas uma vontade imensa em se destacar. 

Já Fredrich faz um trabalho correto com um personagem pouco carismático, mas grosseiro e agressivo. O comportamento errático do personagem, um ator de Hollywood em decadência, acontece por conta do vício em álcool, que faz com que não apenas sua carreira sofra, mas sua esposa também, a qual vê seu grande momento no Oscar arruinado, graças á bebedeira do marido. Ele faz o Norman mais apático dos quatro, o qual não tem uma história de fundo como sua colega de elenco.

Essa versão de “Nasce Uma Estrela” é a primeira a mostrar a ‘fabricação’ de estrelas em Hollywood, especialmente no que diz respeito às mulheres: a preocupação com a aparência, a mudança de nome e de origem, para que sua história pessoal seja a mais agradável possível para o público, além da necessidade em jogar o jogo de uma indústria que controlava a ferro e fogo a imagem de seus artistas. Essa é uma das poucas semelhanças que as quatro versões carregam, sendo também o filme com o tom mais sério dos quatro.

Outra semelhança se dá pelo fato de que as quatro protagonistas femininas pouco interagem com outras mulheres. Embora seja uma Esther com uma certa quantidade de autonomia, a personagem de Janet Gaynor pouco conversa com outras personagens femininas, sendo a avó de Esther a mulher ‘mais frequente’ na vida dela. Na próxima versão, que foi ao cinemas em 1954, há ainda menos cenas entre a protagonista e outras mulheres.

1954: “Nasce Uma Estrela” – com Judy Garland e James Mason

Em 1954, quase 20 anos depois, “Nasce Uma Estrela” voltava aos cinemas com Judy Garland no papel de Esther Blodgett – ou Vicky Lester para Hollywood e o público. A principal diferença entre as duas versões é que agora não se trata mais de apenas um drama, mas de um musical – sendo essa uma escolha acertada, já que esse gênero cinematográfico está em seu auge na década de 50.

Contudo, a Esther de Judy Garland não tem mais uma história de origem, e já a conhecemos cantando no teatro. Aliás, é no palco do teatro onde ela conhece o Norman Maine de James Mason, que nessa versão é muito mais carismático, ainda que continue grosseiro e, por vezes, agressivo. Esse novo Norman também não tem uma história de origem e segue com problemas com álcool e é assim, bêbado, que ele cruza com Esther. Certa noite, ele a reencontra e fica fascinado por sua poderosa voz, e dá carona para ela, conquistando assim a amizade da moça, e conseguindo para ela um trabalho em Hollywood. Aqui vemos, mais uma vez, a subida ao estrelato de Esther, enquanto Norman vê a sua carreira afundar.

As diferenças entre as personagens de Janet Gaynor e Judy Garland vão além da falta de uma história de origem para a primeira: a Esther de Judy é muito insegura, se assemelhando mais, nesse sentido, à Ally de Lady Gaga. Não só isso, suas ambições também são, de certa maneira, menores, mas isso não a impede de se arriscar na oportunidade que Norman Maine oferece a ela, e se torna uma grande estrela de Hollywood. Além de tudo isso, a principal diferença entre as personagens está na vulnerabilidade da Esther de Judy Garland, que na época, teve seu retorno ao cinema com “Nasce Uma Estrela”. Ela não venceu o Oscar no ano seguinte, o que é considerado por muitos uma injustiça, mas levou o Globo de Ouro por sua atuação. Vale acrescentar, para quem não sabe, que Judy passou por problemas muito parecidos com os de Norman Maine, sendo viciada em drogas, e em 1969, cometeu um suicídio acidental, aos 47 anos.

Esse segundo “Nasce Uma Estrela” é muito mais colorido do que o primeiro, por conta de ser um musical, mas também possui um tom bem mais triste. Se na versão original Norman é apenas grosseiro, na iteração de 1954, ele é mais sensível e humano. Por exemplo, na cena em que destrói o discurso no Oscar de sua esposa, mesmo bêbado, ele não ataca a indústria que lhe virou as costas como o personagem de Fredrich March, mas pede desesperado uma nova oportunidade a ela. É uma diferença importante, que mostra a mudança de tom entre as obras. A sua eventual morte, e a reação de Esther, também são muito mais sentidas e têm um peso dramático muito maior.

Por fim, nessa versão, Esther é menos dona de si e mais entregue ao relacionamento com Norman, e suas decisões quase sempre são feitas tendo em mente o homem da sua vida. Além disso, essa versão possui pouquíssimos diálogos entre mulheres, o que demonstra a dificuldade de Hollywood em escrever personagens femininas que interajam umas com as outras.

1976: “Nasce Uma Estrela” – com Barbra Streisand e Kris Kristofferson

Mais de 20 anos depois, “Nasce Uma Estrela” ganhou um remake com Barbra Streisand, que fez de sua Esther a protagonista com mais agência das quatro versões. Mas essa não é a única novidade aqui: o filme continua sendo um musical, mas agora ambos os personagens principais são músicos e não mais estrelas de cinema. Essa é uma mudança significativa, já que o cenário cultural havia mudado e, para tornar a franquia moderna e relevante, era preciso que ela refletisse o momento atual.

Essa nova Esther também não possui uma história de origem, e a conhecemos em um bar, onde canta com outras duas mulheres. Ela é confiante, diferente da personagem anterior e não aceita tão facilmente o que o seu marido, ou o que qualquer homem diz para ela. Na década de 70, as mulheres americanas reivindicavam muitos direitos, como o acesso ao aborto seguro e salários iguais aos dos homens, e Esther era um espelho delas em muitos sentidos. Além de ser dona de si e saber do seu valor enquanto artista, é ela quem pede o homem em casamento, e durante a cerimônia, faz questão de dizer durante os votos que “obedecer” o marido “é coisa do século passado”. Além disso, ela também usa ternos e não abandona seu sobrenome mesmo depois de casada (é comum até hoje que as mulheres usem o sobrenome do marido depois do casamento).

Já o Norman de Kris Kristofferson agora é um roqueiro consagrado, mas cujo vício em álcool e drogas, está levando-o adotar comportamentos suicidas e ao fim de sua carreira. Nessa versão de “Nasce Uma Estrela”, Norman tem uma história mais aprofundada, ainda que também não tenha uma história de origem que explique de onde vem seu comportamento errático. Sua dependência é bem explorada durante todo o longa-metragem, que construiu o personagem com base nas famosas figuras do rock da época, o que contribuiu, em parte, para o sucesso do filme.

Nessa produção, o Grammy Awards, já existia (a premiação surgiu em 1959), o que fez com que os roteiristas trocassem a noite do Oscar pelo evento musical. A morte de Norman, também, teve uma mudança: se em todas as outras versões ele conscientemente decide tirar sua própria vida, em 1976, sua morte parece acidental, deixando para que o público tenha sua própria interpretação sobre o fato.

2018: “Nasce Uma Estrela” – com Lady Gaga e Bradley Cooper

Foram mais de 40 anos para que o filme voltasse às telonas. O responsável pelo feito é Bradley Cooper, que fez sua estreia na direção de um filme, além de co-escrever o roteiro e atuar na produção. Nesse remake, é possível ver as semelhanças com a obra de 1976: novamente, os personagens principais são músicos e há, mais uma vez, uma noite de Grammy arruinada. Contudo, também é possível perceber uma correspondência com a obra de 1954.

Em 2018, Esther vira Ally, interpretada por Lady Gaga, um ícone da música pop atual. Ally não é tão confiante quanto a Esther de Barbra Streisand, mas é tão insegura sobre seu talento e aparência quanto a Esther de Judy Garland (Gaga ainda canta um trecho de “Somewhere Over the Rainbow”, música que ficou mundialmente famosa na voz de Judy). Outra diferença na personagem é que ela possui muito menos autonomia que sua antecessora, e sua carreira é toda ditada pelo que os homens acreditam ser melhor: som, dançarinos e cor de cabelo. É somente no final, quando Ally canta em homenagem ao falecido marido (uma música escrita por ele, diga-se de passagem, ou seja, nem mesmo aquelas palavras são dela), que ela volta ao seu estilo, com uma sonoridade mais autêntica. E vale dizer: ela não possui qualquer figura feminina à sua volta, nem mesmo amigas, colegas de trabalho ou familiares, somente homens.

Já Norman torna-se Jackson Maine, um roqueiro em decadência, também viciado em álcool e drogas. A diferença entre ele e os outros três personagens, é que ele possui uma história de origem. Nessa versão de “Nasce Uma Estrela”, sabemos que seus problemas com a dependência de substâncias vem de muito tempo, por conta do pai, o que o leva a desenvolver sérios problemas mentais que nunca foram tratados. Norman também possui um irmão, o qual também é conhecido pelo público, e cuja relação também é desenvolvida nas telas. A todo instante, é possível torcer pelo músico, cujo vício é um retrato triste de um problema ainda muito atual.

E já que estamos falando de Jack, é preciso destacar seu comportamento abusivo, como quando ele se senta perto da banheira para ofender sua esposa, chamando-a de feia e sem talento. Ou quando, depois de mais uma noite de bebedeira e drogas, ela diz a ele que se o comportamento não mudar, ela não irá mais atrás dele, e Jack pede a mão dela em casamento. Pode parecer um momento fofo, mas também pode ser interpretado como uma tentativa dele de continuar a manter Ally sempre perto dele. 

Com tudo isso, a sensação que se tem é a de que o filme não é tanto sobre Ally, que aliás, não tem uma história de origem como a de seu futuro marido, mas de Jack. Ele possui um aprofundamento muito maior do que o dado à personagem de Lady Gaga, ainda que ela tenha feito um excelente trabalho. E numa época em que muito se cobra por uma representação feminina melhor no cinema, seria bom que o longa-metragem tivesse dado mais espaço e profundidade a Ally.

Essas são as diferenças e semelhanças nas quatro versões de “Nasce Uma Estrela”. Você já assistiu a elas também? O que achou delas? Deixe seu comentário!