Não tem espaço para sua singularidade lá fora?

Não tem espaço para sua singularidade lá fora?

Ele podia dormir mais um pouco. Não morava longe da escola mesmo. A aula começava às 7h da manhã. Se Marcelo acordasse às 6h15 ainda daria tempo de chegar a tempo no colégio. Mas não.

Era preciso tomar banho e passar um bom tempo em frente ao espelho arrumando-se. Tinha uma ordem certa para cada produto no cabelo. Uma sequência que Marcelo aprendeu para deixar o corte undercut bonito. Depois, ainda tinham os vários cosméticos para passar na pele. Espinhas não eram bem-vindas. A meia dúzia de pelos de barba na cara era aparada a cada dois dias. Ao todo, Marcelo levava uma hora e meia para se arrumar para ir ao colégio. O despertador tocava às 5h da manhã e lá ia ele fazer seu sagrado tratamento de beleza.

Tudo isso começou há dois anos, quando o jovem tinha 15 anos, e foi vítima de bullying por conta de sua aparência. A verdade é que não havia nada de errado com ele. Absolutamente nada. Era magro, como muitos jovens na idade dele; o cabelo vivia bagunçado, igual ao de tantos outros meninos, e tinha algumas espinhas na cara, afinal, estava na adolescência.

Ainda assim, por algum motivo, Marcelo foi escolhido para ser o alvo das chacotas. Ele as ignorou por muito tempo. Mas aí vieram as violências físicas. Ao invés de contar aos pais, o garoto guardou tudo com ele. Pensar que seu pai poderia ficar bravo por ele não se impôr contra os valentões da escola o deixava ainda mais assustado.

Num certo dia, após ser xingado mais uma vez, olhou-se no espelho. Marcelo chorava, mas conseguia ver seu reflexo, e não gostava do que via. O cabelo, as espinhas, o corpo magro. Nada estava certo ali. E ele só conseguia chorar. Se ao menos pudesse mudar qualquer coisa ali, ele o faria. Por muito tempo, o garoto rezou para que as provocações parassem, mas elas só aumentaram.

Foi então que decidiu fazer algo por si. A mesada que ganhava dos pais foi para os produtos para a pele. Cortou o cabelo. Os primos emprestaram alguns aparelhos de exercícios para ele treinar e assim começou a mudar a forma os outros o viam, afim de mudar o modo como ele mesmo se enxergava. No começo não funcionou. Mas, com o passar das semanas, as pessoas pararam de pegar no pé dele. A sensação era ótima. Estava livre.

As zoações pararam. No entanto, sua autoestima era tão frágil quanto uma bolha de sabão: ao menor toque, ela desaparecia. Para ele, o preço a pagar era razoável: se era mudando sua aparência que as chacotas acabariam, então era isso que faria. Não havia espaço para suas imperfeições fora de sua casa. Não havia espaço para sua singularidade lá fora, mas ele estava bem com isso. Ou pelo queria acreditar que sim.

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O porquê dos meninos quererem diminuir alguém para se autoafirmarem perante os outros era uma incógnita para ele. Só sabia que tinha que ser como eles se quisesse ser aceito.

Não havia jeito mais fácil, havia? Se não mudasse, continuariam a mexer com ele. Ao mesmo tempo, seria bom dormir um pouco mais antes de ir para a aula. Hoje, ao arrumar-se para a aula, não pode deixar de reparar: a maquiagem, que antes cobria o olho roxo, agora cobre as olheiras.


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