Nair de Teffé: caricatura e os primórdios do feminismo nos desenhos brasileiros

08. novembro 2018 Literatura 0
Nair de Teffé: caricatura e os primórdios do feminismo nos desenhos brasileiros

Por muito tempo, o mercado de comics e de desenhos foi predominantemente masculino, apesar do cenário estar mudando. Mas isso não significa que desde muito cedo, as mulheres não pegavam a caneta e caprichavam suas obras no papel. É o caso de Nair de Teffé. Ela, mais conhecida como esposa do ex-presidente brasileiro Hermes da Fonseca (para variar, reconhecida como esposa do herói, e não a heroína, a dona de sua própria vida), tinha uma conduta muito moderna para a época. Desafiava o perfil exigido pela elite da sociedade brasileira, que exigia das moças recato e submissão, tornado-as verdadeiros bibelôs (SILVA & SIMILI, 2011, p. 125-126). Mais do que isso, Nair tinha um lado que não muita gente sabe: ela era caricaturista, sendo uma referência para o feminismo na área dos desenhos e dos comics brasileiros.

Em 1887, com um ano de idade, foi morar em Paris com a família, voltando ao Brasil em 1893. No mesmo ano, seu pai foi enviado a Roma e para lá se dirigiu com a família. No ano seguinte, Nair iniciou seus estudos em Nice, na França, no convento da Assomption, das madres ursulinas. Nessa época, experimentou pela primeira vez usar o lápis para desenhar caricaturas. Tomou gosto pelo desenho e transformou esse gosto em forma de extravasar sentimentos, desenhando figuras masculinas e femininas porque gostava ou não delas. Em 1897, ingressou no melhor colégio da região, o Cours Vivaudy. Em 1901, seu pai mudou-se para Paris, e aí continuou a frequentar as melhores escolas, inclusive de pintura, como o curso de Madame Lavrut. Em 1903, a família retornou ao Brasil para logo voltar a Paris. Ingressou no célebre Cours Julien para, novamente, em dezembro de 1905, voltar ao Brasil. Essa vida movimentada só fez com que aprimorasse o seu traço caricatural. (RODRIGUES).

Depois de um tempo, morou em Petrópolis. Lá, conseguiu desenvolver seus trabalhos de caricatura. Tornou-se famosa ao publicar suas obras em vários jornais (nacionais e internacionais).

Mas a sua vida como uma mulher caricaturista tinha defeitos. Ela recebeu desaprovação do pai em determinados momentos. Além disso, ela era considerada exótica por muitos, sendo que na maioria dos lugares em que frequentava, era a única mulher (como o fato de ser a única fosse algo maravilhoso). Além disso, Nair assinava suas obras como “Rian” (“Nair” ao contrário). Na época, era muito comum mulheres assinarem suas obras de desenhos e de comics com pseudônimos masculinos ou de ambos os gêneros.

A vida depois do casamento — Teffé se casou tarde para os padrões da época: a maioria se casava aos 15, 20 anos, mas ela se casou aos 27, não por falta de opção, mas porque realmente não queria se casar. Preferia viver uma vida boêmia, indo a festejos e se divertindo (detalhe: sendo assim, ela desafiou a família que, apesar de ser considerada muito a frente de seu tempo, não aceitava o comportamento baladeiro da filha por ela ser uma mulher).

Mas ela se apaixonou por Hermes da Fonseca, um homem próximo à família Teffé. Os dois se casaram.

E, mesmo após o casamento, ela não deixou de ter uma vida que desafiava os padrões da época.

Hermes não é mais presidente — Depois do governo Hermes da Fonseca, Nair sofreu um acidente e, junto com o marido, mudou-se para a Europa.

Depois de ter voltado ao Brasil, ela tentou voltar a se dedicar ao que mais gostava de fazer: pintar e desenhar. Tentou abrir uma escola de desenhos para crianças.

Mas apenas tentou. O marido passava por um momento politicamente difícil, pois a oposição ao tal ex-presidente era muito forte. Então, por vontade própria, ela decidiu largar o seu plano de abrir uma nova escola para ajudar o marido.

A morte do marido e dos pais — Após a morte do marido e dos pais (mais especificamente, na década de 20 e início da década de 30), viveu tempos difíceis. Por ser mulher, não só foi esquecida pela mídia, como também não aprendeu a lidar com finanças.

Passou o resto da sua vida esquecida e com suas contas no vermelho. Faleceu no dia 10 de junho de 1981, no exato dia em que completou 95 anos.

REFERÊNCIAS

SILVA, Ivanete Paschoalotto da; SIMILI, Ivana Guilherme. Nair de Teffé: uma Narrativa Biográfica para as Mulheres dos Séculos XIX e XX. Diálogos & Saberes, Mandaguari, v. 7, n. 1, p. 121-134, 2011.

RODRIGUES,Antonio Edmilson Martins. Nair de