Por que é importante que as mulheres vítimas de Bill Cosby estampem a capa da ‘New York Magazine’

28. julho 2015 POP 1
Por que é importante que as mulheres vítimas de Bill Cosby estampem a capa da ‘New York Magazine’

A revista ‘New York Magazine‘ divulgou no domingo, 26, a capa de sua edição de julho/agosto: 35 das 46 mulheres que acusam o comediante Bill Cosby de dar a elas drogas e estuprá-las estampam a publicação. Um assento foi deixado vazio, um gesto simbólico feito para homenagear as mulheres que não puderam ou não quiseram, por qualquer motivo que seja, serem fotografadas e compartilharem suas histórias.

Unidas pela dor, as 35 mulheres relatam como foram enganadas e violentadas por Cosby, e como foram silenciadas por décadas. São depoimentos fortes, que detalham a crueldade do ator e o medo de irem contra uma figura querida e aclamada pela mídia americana. Essa mesma mídia o protege e diminui em manchetes e palavras o que Bill Cosby fez. Não foi sexo. Não foram relações sexuais. Foi estupro.

O comediante começou sua carreira nos palcos de stand up comedy na década de 60, fazendo enorme sucesso nos Estados Unidos, e entrando na televisão logo em seguida. Em 1984, ele estrelou o sitcom “The Cosby Show”, série de enorme audiência no país. A história girava em torno de um casal negro americano rico, quebrando o estereótipo de que negros não poderiam ser inteligentes e endinheirados. O “papai favorito da América”, como ficou conhecido, teve uma longa e bem-sucedida trajetória. Ninguém ousaria dizer algo contra ele.

Até 2005, quando Andrea Constand, uma jogadora de basquete revelou que Cosby a drogou e a estuprou. Isso levou outra mulher a denunciar a mesma violência. Tamara Green foi ao programa televisivo, ‘The Daily Show‘, onde acusou o ator de ter feito o mesmo contra ela, 30 anos atrás. Outras mulheres apareceram alegando terem sido drogadas e estupradas por Bill Cosby. Com o tempo foram desacreditadas e esquecidas.

10 anos para frente, 46 das mulheres que foram vítimas do ator saíram das sombras e encontraram meios de se fazerem ouvidas. 35 delas estampam a capa da ‘The New York Magazine’, dando rosto e nomes àquelas que foram marcadas pela violência misógina do ator. “Eu não tenho mais medo”, diz Chelan Lasha, estuprada por Cosby quando tinha 17 anos. “Me sinto mais poderosa do que ele”.

Na segunda-feira, o site da ‘New York Magazine’ foi alvo de ataque de um hacker, que disse não ter nada contra a revista ou contra as vítimas, mas contra a cidade de Nova York. A publicação divulgou alguns áudios das entrevistas das mulheres em seu Instagram, enquanto a página estava fora do ar. O problema já foi resolvido.

https://instagram.com/p/5nvURDuBZs/?taken-by=nymag

Essa é uma edição história e importante. 35 mulheres se uniram para denunciar não somente o homem que drogou e violentou a cada uma delas, mas também denunciar o silenciamento a qual vítimas de estupro são submetidas. Muitas foram desencorajadas a relatar o ocorrido; outras tantas, tinham medo do que podia lhes acontecer, afinal, estamos falando de uma poderosa estrela da televisão americana. Quem iria acreditar nessas mulheres? Aliás, quem acredita em qualquer mulher que relata um estupro? A maioria é desacreditada e é culpabilizada pelo ocorrido: “a roupa era muito provocativa”, “quem mandou sair sozinha à noite”, e por aí vai.

O caso ilustra a forma como tratamos vítimas de estupro: foi necessário o próprio Bill Cosby confessar o estupro para que o mundo acreditasse nessas mulheres. Agora, 35 delas estão na capa de uma revista, para que finalmente todos possamos ouvi-las e para que possam ampliar as vozes de tantas outras mulheres, que sofrem caladas. Esse é um lembrete da poderosa cultura de estupro, que agride, cala e mata tantas mulheres. Mas esse também é um lembrete de que a união de mulheres pode mudar essa triste realidade.

“Acho que seu legado será parecido com o de O. J.. Quando você ouve o nome ‘O. J. Simpson, você não pensa ‘Oh, grande jogador de futebol’. Isso não vem à mente logo de cara. Acho que não será ‘Oh, grande comediante’. Será, ‘Oh, estuprador em série’. E esse será o nosso legado”. – Joan Tarshis.

A matéria completa está aqui. Ela conta com áudios, vídeos, texto e as entrevistas.

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