Mulheres, minorias étnicas, LGBTs e pessoas com deficiência ainda precisam brigar por espaço no cinema

21. agosto 2018 Cinema 0
Mulheres, minorias étnicas, LGBTs e pessoas com deficiência ainda precisam brigar por espaço no cinema

Nos últimos anos, com as mulheres ganhando mais voz na indústria do entretenimento, muito se tem falado sobre diversidade. Mas embora muito tenha sido dito, pouco se tem feito para garantir que mulheres e demais minorias tenham o mesmo espaço em Hollywood. Prova disso é o resultado de mais um levantamento sobre diversidade na sétima arte, realizado pela Fundação Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia.

Todos os anos, a instituição avalia como anda a representação de mulheres, minorias étnicas, LGBTs e pessoas com deficiência nas telonas, com foco nos 100 maiores filmes de cada ano. Isto é, as produções de maior bilheteria de cada ano, a começar por 2007. Neste ano, os resultados continuam demonstrando que há muito a ser feito para que a indústria cinematográfica crie um ambiente realmente inclusivo para todos. Por exemplo, em 2007, mulheres representaram 29,9% das personagens com falas nos grandes filmes daquele ano. O percentual pouco mudou em 10 anos: no ano passado, ele subiu para apenas 31,8%. Ou seja, nem 2% a mais. O ano de 2014 foi o pior para a representação feminina, quando foi registrado que somente 28,1% das personagens eram mulheres.

Segundo Stacy L. Smith, responsável pelo estudo, um passo simples para combater a desigualdade de gênero seria incluir 5 personagens femininas nos roteiros. Incluir minorias atrás das câmeras também apresenta um resultado simples: filmes dirigidos/escritos por minorias trazem mais diversidade entre atores e atrizes. Mas isso não é tudo: é preciso combater preconceitos, criar regras que garantam oportunidades iguais para todos, fazer metas para os próximos anos, dentre outras possibilidades.

Abaixo você confere a (falta de) diversidade em Hollywood em 2017 e um comparativo com os outros anos:

Gênero:

  • em 2017, 4.454 personagens apareceram nos 100 maiores filmes de 2017, sendo 68,2% homens e 31,8% mulheres. Isso significa que a cada mulher, há 2,15 homens nas produções cinematográficas. O percentual é apenas 1,9% maior em relação a 2007, quando o levantamento começou;
  • 33 dos 100 filmes do último ano foram protagonizados por mulheres. A quantidade é quase a mesma encontrada em 2016 (33) e 2015 (32), mas é bem maior do que em 2007 (20). Somente 4 mulheres eram de minorias étnicas e 5 tinham mais de 45 anos. Apenas uma mulher de minoria étnica tinha mais de 45 anos;
  • 17 filmes tinham protagonistas masculinos de minorias étnicas, 31 protagonizados por homens com mais de 45 anos, sendo 9 deles de minorias étnicas;
  • personagens femininas têm mais chances de aparecer com roupas justas ou curtas (28,4% contra 7,5%), com alguma nudez (25,4% contra 9,6%) e serem descritas como belas (11% contra 3,9%). Meninas entre 13 e 20 anos têm a mesma probabilidade de mulheres entre 21 e 39 anos de aparecerem com pouca roupa ou com alguma nudez;
  • mulheres têm mais chances (40,3% contra 33%) de aparecerem como mães ou cuidadoras. Elas também têm mais probabilidades de serem representadas com um par romântico do que os homens (46,4% contra 41,5%);
  • mulheres somem mais das telas enquanto envelhecem do que os homens. O percentual delas quando crianças (de 0 a 12 anos) é de 47,3% e diminui para 24,6% (aos 40 anos ou mais). O percentual masculino começa com 52,7% (de 0 a 12 anos) e sobe para 75,4% (aos 40 anos e mais);
  • a quantidade de filmes com elencos mistos (entre 45 e 54,9% de mulheres e meninas em cena) em 2017 foi de 19%, 7 pontos a mais do que o encontrado em 2007, mas muito similar ao ano de 2009 (17%) e 2015 (18%);
  • a comédia foi o gênero cinematográfico com mais mulheres no ano passado: 42,9%. Filme de ação tiveram 24,5% de mulheres, enquanto animações registraram 30,8% de personagens femininas. Ao longo de 10 anos, não houve uma grande variação na representação feminina nos três gêneros;
  • dos 100 maiores filmes de 2017, homens dirigiram 92,7% deles (101), enquanto mulheres dirigiram 7,3% (8). As oportunidades na área de roteiro pouco mudam para as mulheres: 10,1% (34) escreveram roteiros no último ano, contra 89,9% dos homens (303). A área com mais oportunidades é a de produção: 21,7% (247) das mulheres são produtoras contra 78,3% (891) dos homens. No geral, 81,7% (1.295) dos profissionais que atuam atrás das câmeras são homens e apenas 18,2% (289) são mulheres;
  • as diretoras de 2017 foram: Patty Jenkins (“Mulher-Maravilha”), Trish Sie (“A Escolha Perfeita 3”), Greta Gerwig (“Lady Bird”), Stella Meghie (“Tudo e Todas as Coisas”), Anna Foerster (“Anjos da Noite: Guerras de Sangue”), Hallie Meyers-Shyer (“De Volta para Casa”) e Lucia Aniello (“A Noite É Delas”);
  • entre 2007 e 2017, somente 53 (4,3%) mulheres trabalharam como diretoras nos 1.100 maiores filmes lançados no período. Apenas 43 mulheres tiveram um ou mais filmes dentre os 100 maiores nos últimos 11 anos. 36% dirigiram apenas um;
  • dentre os 111 compositores dos 100 maiores filmes de 2017, houve apenas uma mulher, representando menos de 1% do total. Em 11 anos, apenas 16 mulheres trabalharam na área;
  • o percentual de mulheres em cena aumentou 43% em filmes dirigidos por mulheres. O mesmo acontece em filmes escritos por mulheres (37,7% a mais).

Raça/Etnia:

  • dos 3.961 personagens com raça/etnia identificáveis, 70,7% eram brancos, 12,1% eram negros, 6,2% eram hispânicos/latinos, 4,8% eram asiáticos, 1,7% eram do Oriente Médio e menos de 1% eram de povos indígenas. A representação de minorias étnicas ficou em 29,3% em 2017;
  • o percentual de personagens brancos caiu quase 7% entre 2007 e 2017, enquanto não houve uma mudança significativa na representação de personagens de minorias étnicas no mesmo período;
  • 20 dos 100 filmes do ano passado não apresentaram nenhum personagem negro, 43 não apresentaram nenhum personagem latino37 não tinham qualquer personagem asiático;
  • no que diz respeito a gênero: 7 filmes não tinham mulheres brancas, 43 não tinham sequer uma mulher negra, 64 não tinham nenhuma latina e 65 deles não tinham nenhuma asiática. A quantidade de mulheres de minorias étnicas não aumentou consideravelmente entre 2007 e 2017;
  • ainda levando em conta a cor e o gênero dos personagens: entre os brancos, 68,2% são homens e 31,8% são mulheres;
  • entre negros, 69,6% são homens e 30,4% são mulheres;
  • entre latinos, 67,8% são homens e 32,2% são mulheres;
  • entre asiáticos, 61,4% são homens e 38,6% são mulheres;
  • a comédia é o gênero cinematográfico com maior número de personagens de minorias étnicas: 35,6%, um aumento de mais de 12% em comparação a 2007;
  • as animações aparecem em segundo lugar, com 34% dos personagens sendo de minorias étnicas. Em relação ao ano de 2007, houve um aumento expressivo: 26%. Porém, o ano de 2017 foi menos diverso em comparação a 2016, quando o percentual chegou a 48,5%;
  • nos filmes de ação, minorias étnicas chegaram a 28,1%, um aumento não tão grande em comparação a 2007 (21,5%). O maior percentual foi encontrado em 2008, quando chegou a 32,1%.
  • 21 filmes tinham um protagonista de minoria étnica, um aumento de 7 produções em relação aos dois anos anteriores. 7 deles eram homens negros, 4 eram homens asiáticos, 2 eram latinos e 8 eram eram multirraciais, sendo 4 homens e 4 mulheres;
  • no que diz respeito à forma como foram representadas, todas as raças e etnias permaneceram, em grande parte, retratados como pais e tendo um relacionamento. Os maiores percentuais de pais e mães foram encontrados entre homens latinos (46,4%) e mulheres latinas (46,4%). O maior percentual de relacionamentos foram encontrados entre homens asiáticos (56,3%) e mulheres brancas (49,7%);
  • mulheres latinas têm mais chances de aparecerem com pouca roupa (31%) e alguma nudez (29,6%) do que mulheres de outras raças e etnias. As mulheres asiáticas têm menos chances de aparecerem com pouca roupa (13,2%) e alguma nudez (8,8%). Mulheres brancas são descritas como belas com mais frequência (12,4%) do que as mulheres de outros grupos étnicos. No geral, porém, mulheres de minorias étnicas são mais sexualizadas;
  • homens latinos têm mais chances de aparecerem com pouca roupa (7,8%), mas homens brancos aparecem com alguma nudez com mais frequência (8,2%). Homens negros têm mais chances de serem descritos como belos (5,5%) do que os outros grupos. No geral, porém, homens são menos sexualizados do que as mulheres;
  • dos 109 profissionais que dirigiram os 100 maiores filmes de 2017, somente 5,5% eram negros. Eles são: Gary Gray (“Velozes e Furiosos 8”), Jordan Peele (“Corra!”), Malcolm D. Lee (“Girls Trip”), Tyler Perry (“Boo 2! A Madea Halloween”), Benny Boom (“All Eyez on Me”) e Stella Meghie (“Tudo e Todas as Coisas”);
  • entre 2007 e 2017, apenas 60 diretores negros (5,2%) dirigiram os 1.100 filmes lançados no período. Desse total, somente 4 mulheres negras dirigiram algumas dessas obras (menos de 1%);
  • filmes dirigidos por negros garantem um aumento de atores negros em cena;
  • 4 diretores asiáticos dirigiram filmes em 2017, sendo todos homens. Eles foram: Pierre Coffin (“Meu Malvado Favorito 3”), M. Night Shyamalan (“Fragmentado”), Yimou Zhang (“A Grande Muralha”) e Dean Devlin (“Tempestade: Planeta em Fúria”);
  • entre 2007 e 2017, 3,1% dos diretores do 1.100 maiores filmes eram asiáticos. Somente 3 foram dirigidos por mulheres, sendo dois deles da franquia “Kung Fu Panda” e ambos dirigidos por Jennifer Yuh Nelson.

LGBT:

  • dos 4.403 personagens com uma sexualidade/identidade de gênero reconhecíveis, somente 31 deles eram lésbicas, gays e bissexuais (0,7%). Nenhum personagem transgênero apareceu nos 100 maiores filmes de 2017;
  • dentre os personagens LGB, 16 eram gays (51,6%), 9 eram lésbicas (29%) e 6 eram bissexuais (19,4%);
  • em comparação ao ano de 2016, houve uma queda de 20 homens gays  no ano passado. A representação de lésbicas e bissexuais pouco mudou desde 2014, quando a pesquisa começou a fazer feita com representação LGBT. O ano com maior representação de pessoas trans foi 2015: somente 1 personagem;
  • dois filmes apresentaram protagonistas LGB: ambos eram brancos e bissexuais, sendo um homem e uma mulher;
  • com a falta de protagonistas LGBT, a maioria dos personagens é secundária (48,4%). O percentual de personagens LGBT que não são fundamentais para o desenvolvimento do enredo caiu de 49%, em 2016, para 41,9%, em 2017;
  • 81 filmes não tinham nenhum personagem LGBT, um aumento em relação a 2016, quando o número ficou em 76;
  • 94 filmes não tinham nenhuma mulher LGBT representada;
  • dos 31 personagens LGB, 18 eram homens (58,1%) e 13 eram mulheres (41,9%);
  • a maioria dos personagens era branca (67,7% ou 21 personagens), enquanto 32,3% (10) eram personagens LGB de minorias étnicas;
  • personagens entre 21 e 39 anos foram maioria (38,7%) e personagens com mais de 65 anos foram minoria (6,5%);
  • 19 personagens podiam ser classificados como pais ou cuidadores, mas somente 1 foi representado dessa maneira (5,3%);
  • 21 personagens podiam ser classificados como tendo parceiros românticos. 7 deles tinham um parceiro e 14 não tinham nenhum parceiro com envolvimento amoroso.

Pessoa com deficiência:

  • somente 112 personagens (2,5%) foram representados com alguma deficiência, um percentual 0,2% menor do que em 2016;
  • 41 filmes não tinham nenhum personagem com deficiência, um aumento de 3 longa-metragens em comparação a 2016;
  • 78 filmes não tinham nenhuma personagem feminina com deficiência, um aumento de 8 produções em relação a 2016;
  • 14 filmes apresentaram protagonistas ou personagens centrais com alguma deficiência;
  • a maioria desses filmes eram protagonizados por homens (10). Somente 4 deles foram centrados em mulheres com deficiência;
  • desde 2015, quando a pesquisa com esse grupo começou a ser feito, não houve mudança substancial na representação de personagens com deficiência;
  • 51,8% (58) desses personagens eram secundários e 32,1% (36) deles não eram fundamentais para o enredo do filme;
  • 61,6% dos personagens tinham alguma deficiência física;
  • 30,4% tinham alguma deficiência na fala, visão ou audição;
  • 26,8% tinham alguma deficiência de ordem mental;
  • 69,6% dos personagens eram homens e 30,4% eram mulheres;
  • 73% dos personagens eram brancos e 27% eram de minorias étnicas;
  • somente 1 personagem era LGBT;
  • a maioria dos personagens tinha mais de 40 anos (56,4%) e a minoria tinha entre 0 e 12 anos (4,5%);
  • a quantidade de personagens com deficiência está longe de corresponder à quantidade de pessoas com deficiência que vive nos Estados Unidos: 18,7%.

Para ler o estudo completo, clique aqui.