Uma luz no fim do túnel: mulheres com deficiência para você se inspirar

Uma luz no fim do túnel: mulheres com deficiência para você se inspirar

Desde a década de 60, vemos que a representação das mulheres na mídia tem melhorado e, cada vez mais, elas estão se tornando personagens donas de si. Os espaços de ação, de personalidades fortes, de complexidades das personagens, antes dominados por homens, agora estão sendo ocupados por presenças femininas.

Mas quando falamos de tal melhora, será que incluímos todas as mulheres? É claro que, por causa da cultura capitalista, é muito mais fácil a ascensão de uma mulher que não faça parte de nenhuma outra minoria.

E, como hoje é o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, vamos responder a uma pergunta: por que mulheres com deficiência têm mais dificuldade em aparecer na mídia (ainda que com boas representações) do que aquelas sem deficiência? Listei aqui alguns motivos para isso, porém, se você pensar em mais algum, por favor, escreva nos comentários.

QUANTO MAIS MINORIA, PIOR — é fato que há capacitismo (preconceito em relação a pessoas com deficiência) no movimento feminista, assim como há machismo no movimento PCD (Pessoas Com Deficiência). Muitas pessoas podem não ter preconceito contra um grupo, mas têm contra o outro. Sendo assim, é mais difícil uma personagem mulher com deficiência ganhar audiência e espaço, já que há uma intersecção de opressões e, na mídia capitalista, audiência é dinheiro. Não só isso, é difícil, também, encontrarmos mulheres com deficiência que sejam atrizes, quadrinistas, diretoras, etc.

A SEXUALIDADE DAS MULHERES COM DEFICIÊNCIA — As pessoas acreditam que a partir do momento em que você se descobre com deficiência ou acaba tendo alguma deficiência na vida, você perde a sua sexualidade. Na verdade, a sexualidade faz parte de um combo. No meu caso, por exemplo, eu fui muito menos incentivada a fazer diversas tarefas que estão dentro do estereótipo feminino, como lavar a louça ou cuidar de crianças – ou ainda namorar, para depois casar e ter filhos. E isso tudo não foi por conta de questões feministas, mas porque o mundo capitalista incentiva o tempo todo a ideia de que pessoas com deficiência não conseguem fazer nada. Aliás, para as mulheres com deficiência, isso perpassa outras questões: você não pode trocar de roupa sozinha, não pode desenhar, não pode escrever, etc. Não pode fazer nada com autonomia. E quando a mídia (filmes, séries, quadrinhos, etc.), retrata tudo isso, é como se ela reforçasse a ideia de que: “se não serve nem para namorar, para quê vai aparecer?”. E, assim, somos invisibilizadas. E outra: acho que é mais difícil uma mulher com deficiência ser atriz, cartunista, etc., se ela ouvir o tempo todo que pessoas com deficiência não consegue fazer nada. Não é mesmo?

A FALTA DE ACESSIBILIDADE — Em muitos eventos de cultura pop, não existe acessibilidade. Onde estão os intérpretes de libra nas palestras? Onde estão as rampas? E não só em eventos. Já parou para pensar, por exemplo, que não há nenhum aplicativo ou algo do tipo para pessoas cegas lerem quadrinhos? Como elas lerão quadrinhos de grandes editoras assim?

Não estou dizendo que, por causa da falta acessibilidade, nenhuma pessoa com deficiência consiga trabalhar com cultura pop ou não consiga fazer qualquer coisa. Não é isso. Mas seria de extrema ignorância negar que a falta de acessibilidade não atrapalharia todo esse processo de independência. E, para as mulheres, a situação só piora, pois soma-se a essa situação os estereótipos de gênero e o machismo como barreiras. 

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL: MULHERES COM DEFICIÊNCIA DA CULTURA POP PARA VOCÊ SE INSPIRAR — Apesar das invisibilidades, encontrei por aí muita mulher com deficiência, sejam elas da vida real ou personagens da ficção. Selecionei apenas 3, mas há outras tantas por aí:

TOPH BEIFONG (de “Avatar: a Lenda de Aang”, disponível na Netflix):

A personagem Toph Beifong levantando um cinturão

O episódio 6 da temporada 2 de “Avatar: a Lenda de Aang” é uma aula sobre capacitismo. Toph nasceu em uma família riquíssima. Por causa de sua deficiência, ela era considerada inválida pelos pais e, por isso, era protegida o tempo todo. Ela não podia sequer sair para o quintal de sua casa. Como consequência, Toph nunca conseguiu aproveitar a vida ou ter amigos. Contudo, ela nunca ficou parada. Escondida de seus pais, ela luta em grandes ringues de batalha, sendo conhecida pelos lutadores como “A bandida cega”. Ela era o contrário do que se esperava dos grandes lutadores: mulher, baixinha, cega e menor de idade. Quando teve a oportunidade de sair em aventuras com Aang e seus amigos, agiu de imediato: reconheceu que eles eram seguros e foi com eles.

ORÁCULO (DC Comics):

A Oráculo com óculos em sua cadeira de rodas

Em 1999, ela foi a primeira mulher com deficiência a se tornar protagonista de uma série de quadrinhos Marvel/DC, mesmo que ainda em uma equipe – as “Aves de Rapina”. A série de quadrinhos “Aves de Rapina V1” é outra aula sobre capacitismo e representa muito bem várias questões envolvendo as mulheres com deficiência.

Mas, afinal, quem é a Oráculo? A bibliotecária Bárbara Gordon, a mesma que antes pegava a capa de Batgirl e lutava contra o crime (e contra o machismo), tomou um tiro do Coringa e se tornou paraplégica. A partir daí, ela tem que passar por um processo de aceitação e reestruturação de sua vida, mas não deixa de combater o crime. Torna-se uma hacker e, assim, continua a lutar contra o mal.

JULIE DACHEZ (quadrinista francesa):

A autora Julie Dachez

Diferentemente de Oráculo, Dachez conseguiu se aceitar como uma mulher com deficiência mais facilmente. Diagnosticada com autismo somente aos 27 anos (lembrando que autismo aparece na infância), Dachez fez um quadrinho auto-biográfico, entitulado “A diferença invisível” (disponível na Amazon neste link).

PS: A autora mudou o nome da protagonista. Ao invés de “Julie”, virou “Marguerite”.

FONTES:

Toph Beifong: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Toph_Beifong

Julie Dachez: https://grupoautentica.com.br/nemo/autor/julie-dachez/1559