Michel Teló tentou lutar contra o racismo, mas fez isso de maneira errada

09. julho 2015 POP 0
Michel Teló tentou lutar contra o racismo, mas fez isso de maneira errada

Na semana passada, Maju Coutinho, jornalista e garota do tempo do Jornal Nacional, foi vítima de racismo nas redes sociais. Numa postagem na página do noticiário no Facebook, usuários fizeram vários comentários ofensivos a ela, que foi defendida por milhares de internautas, tendo a oportunidade de responder, ao vivo, o que lhe aconteceu. “Os preconceituosos ladram, mas a caravana passa”, disse ela no programa.

O racismo tem sido cada vez mais discutido, seja através das redes sociais, impulsionado pela articulação do movimento negro na internet, seja fora delas. Em fevereiro, uma aluna da UnB,  Lorena Monique, convidou colegas e outros alunos para participarem de seu projeto fotográfico, onde cada um deles segura uma placa com frases ofensivas que já escutaram. “Para quem sofre cotidianamente, é como repisar uma ferida ainda não cicatrizada. Espero que as falas expressadas nas imagens sensibilizem, causem reflexão e deem início à um diálogo no sentido de nos tornarmos pessoas melhores”, explica Lorena em seu Tumblr, “Ah, Branco, Dá Um Tempo“.

Ninguém melhor do que uma pessoa negra para apontar o que é racismo. Quando confrontado, procure refletir e entender que determinada atitude é ofensiva. Foi o que aconteceu com o cantor sertanejo Michel Teló, que tentou lutar contra o racismo, mas fez isso de maneira errada. Nesta quinta-feira, o rapaz postou uma foto sua, onde aparece com metade do rosto pintado de preto. “Contra todo e qualquer tipo de preconceito”, escreveu ele em seu Facebook, convidando outros artistas e sua esposa, a atriz Thais Fersoza, a fazerem o mesmo.

michel teló racismo

O que Michel Teló fez é chamado de black face, uma prática do teatro, durante o século 19, quando pessoas brancas pintavam seus rostos de carvão, fazendo uma representação ridicularizada da população negra. Como escreve a filósofa e militante do movimento feminista negro, Djamila Ribeiro, o black face “serve tanto como estereótipo racista e como forma de exclusão. Se no primeiro caso, ridiculariza, no segundo, não dá oportunidades para atores, atrizes, modelos negros e negras”.

No Brasil, temos dois exemplos de black face, que ilustram as questões levantadas por Djamila Ribeiro. No final da década de 60, a Rede Globo exibiu “A Cabana do Pai Tomás”, cujo papel principal ficou a cargo do ator branco Sérgio Cardoso, que foi pintado de preto, já que a agência de publicidade Colgate-Palmolive era quem patrocinava os folhetins dessa época e não queria um ator negro como protagonista.

Trazendo a discussão para 2015, a peça teatral ‘A mulher do trem’, da companhia ‘Os Fofos Encenam’, foi cancelada após pressão de ativistas ao saberem que a peça em questão traria um personagem pintado de preto, uma caricatura estereotipada do que seria a mulher negra. “A questão não é esta peça, mas a visão dos brancos sobre nós”, afirmou Stephanie Ribeiro, militante que iniciou os protestos na internet.

A prática do black face precisa ser abandonada, uma vez que não colabora na luta contra o racismo, mas ofende, ridiculariza e apaga as pessoas negras.

O Buzzfeed Brasil mostra que vários usuários alertaram Michel Teló nos comentários de sua foto. “Faz black face e acha que tá abalando. Você percebe que a pessoa não sabe NADA sobre racismo quando faz black face. Meu querido, se você quer lutar contra o racismo, faça isso no seu dia a dia, incentivando e dando o devido respeito aos negros ao seu redor, dê espaço a eles, procure saber da nossa história. Não estamos sendo maldosos não, se estamos lhe dizendo que isso não é legal então ouça, veja e reflita mais um pouco”, escreveu uma internauta.

Michel Teló parece ter refletido e entendido a questão, uma vez que apagou a postagem algum tempo depois.