Meu adeus à era Prism

15. agosto 2015 POP 0
Meu adeus à era Prism

Em 2013 dei início a uma caminhada de autoconhecimento e comecei a fazer terapia. Embora seja algo recompensador em vários sentidos, em tantos outros é dolorido. Lidar consigo mesmo é libertador, mas por vezes machuca. É confrontar-se com questões que você sequer sabia que tinha. De repente rola uma lágrima. De repente você está chorando copiosamente. De repente você se entende, faz as pazes consigo mesmo e aprende a tocar a vida de outra maneira. De maneira mais leve. Comigo foi assim.

Ao mesmo tempo em que entrei na terapia e revisitei locais doloridos, Katy Perry voltava com seu terceiro álbum de estúdio, o ‘Prism‘. Calma, antes que você desista desse texto, existe uma conexão nisso tudo. Sobre seu disco, havia a promessa de que ela voltaria mais dark, um reflexo do fim de seu casamento com o comediante Russell Brand. Em um vídeo promocional, a cantora chega a queimar sua peruca azul; em outro, ela enterra seu vestido de peitos giratórios. Ao que parecia, era um adeus à era ‘Teenage Dream’, seu trabalho de maior sucesso, marcado por nuvens de algodão doce e estética colorida e infantil.

Foi então que recebemos o primeiro single, “Roar”; nada muito diferente da Katy Perry que conhecíamos. Segundo a própria california gurl, essa é “uma música sobre falar por você”. “Porque houve um tempo em minha vida, onde eu não defendia nada, então eu caía em qualquer uma. Às vezes você se sente queimado por pessoas, coisas ou um relacionamento, e isso faz você se esconder, ao invés de levantar e dizer que não está nada bem. Foi muito terapêutico escrever essas músicas. Estou ficando mais forte”. Não era bem o que eu esperava, contudo, a letra ressoava com aquele meu momento. Até então, eu vivia uma vida cumprindo expectativas dos outros, e não como eu queria que ela fosse. Eu tinha medo: medo de ser rejeitado, medo de ficar sozinho, medo de decepcionar. Medo de ser julgado. Mas se algo aprendi nessa vida, é que basta estar vivo para isso.

“Roar” ecoava dentro de mim, ao passo em que a terapia ia quebrando minhas cascas. Um movimento interno de mudança começava e ele não iria parar. E não parou. Na minha análise, eu lidei com uma verdade que eu escondi minha vida toda, mas dentro do consultório eu precisava admitir para mim mesmo: eu era gay. Sempre fui. Não tinha mais como negar, mas eu não podia aceitar isso. A vida é muito difícil para homossexuais. Existe rejeição e violência, e eu não queria nada dessas coisas. Eu chorei muito. Lutei muito contra. No entanto, não dá para lutar contra si por muito tempo. Aos 23 anos, essa era a lição que eu levava.

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“Saiba que a Katy Perry já se sentiu péssima também”.

O próximo single de ‘Prism‘ era “Unconditionally”, uma balada sobre amar incondicionalmente alguém. E embora Katy Perry tenha dito isso, para mim, a música tinha outro significado, não tão diferente, mas incrivelmente poderoso: amar a si mesmo incondicionalmente. Minha tese era sustentada em dois versos que, mais uma vez, ressoavam comigo naquela época. “Liberte-se e seja livre” (“Let go and just be free“) e “A aceitação é a chave para ser verdadeiramente livre” (“Acceptance is the key to be, to be truly free”). Essas palavras – perdoe meu exagero – me quebraram ao meio. Era isso o tempo todo: eu precisava ser verdadeiro comigo mesmo. Eu já estava exausto de ser alguém que não era. Com o tempo, assimilei a mensagem. Com o tempo fiz as pazes comigo mesmo. Com o tempo abracei quem eu era.

Muita gente, uma vasta maioria eu diria, prefere a era ‘Teenage Dream’. É colorida, divertida e positiva. Mas eu vejo ‘Prism’ como um amadurecimento da Katy Perry e meu. Vejo como evoluímos juntos, de alguma maneira. A promessa de ser dark não veio. Katy Perry não mudou sua essência, não mudou aquela marca que a fez conhecida, no entanto, ela abriu suas vulnerabilidades, como podemos ouvir em “Ghost”, música sobre ex-marido, e “By The Grace of God”, sobre a depressão que a acompanhou após o fim de seu casamento. Mas a animação ainda está ali. “Birthday” e “Walking On Air” ainda refletem o estilo alto-astral da cantora. ‘Prism’ ainda é colorido, divertido e honesto em suas letras.

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“O nome da minha turnê é ‘the Prismatic World Tour’ e vamos rodar o mundo levando a luz”.

Percebi, após a terapia, que a minha essência é a mesma, o que muda é a minha capacidade, hoje, de me orgulhar em ser quem sou. E isso é maturidade, assim como ‘Prism’. Em uma entrevista ao Buzzfeed, Katy Perry disse que não gosta muito de falar sobre depressão, mas entende que outras pessoas podem precisar de seu exemplo: uma mulher que tinha tudo, mas passou pelo mesmo que outras pessoas e conseguiu superar sua doença. “Gosto quando as pessoas não se sentem tão sozinhas; eu gosto de levantá-las”, contou à ocasião. E de alguma forma, ela me levantou. Se hoje consigo falar  e escrever abertamente sobre minhas vivências, algum crédito eu dou a ela. Suas músicas deram um empurrãozinho necessário para que eu pudesse ser quem eu sou. E a ela – e à minha analista – eu serei eternamente grato.

Afinal, música é isso, não? É ouvir, sentir, se identificar, refletir. Katy Perry fez um barulho enorme dentro de mim. Mesmo que ela nunca leia essas palavras, o carinho por ter me ajudado na minha jornada de autoconhecimento e aceitação, é genuíno.

Ontem 14, ela postou uma foto dando adeus à era Prism. Mais alguns shows com a Prismatic World Tour, e aí é esperar o próximo passo. De alguma forma, caminhamos juntos. De alguma forma, estamos ainda tentando nos entender no mundo. De alguma forma continuamos crescendo. Eu me despeço da era Prism feliz por poder ouvir o disco sempre que eu quiser. Feliz pela maturidade que me proporcionou. E assim como a Katy Perry, eu também deixei “a luz entrar”. E ela continua iluminando aqui dentro.

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