Meryl Streep e Ava DuVernay falam sobre a participação e representação feminina no cinema em evento

24. abril 2015 Cinema 2
Meryl Streep e Ava DuVernay falam sobre a participação e representação feminina no cinema em evento

No dia 22, a atriz Meryl Streep, a diretora Ava DuVernay e a documentarista paquistanesa, Sharmeen Obaid-Chinoy, participaram de uma conversa moderada pelo apresentador Jon Stewart, em um painel chamado “Story Power: Three Great Women in Film” (“O Poder da História: Três Grandes Mulheres no Cinema”), durante a sexta edição do evento “Women In The World Summit”. Na ocasião as três conversaram sobre a participação e a representatividade das mulheres na indústria cinematográfica.

As três falaram sobre diversos assuntos relacionados às mulheres, e eu encorajo os interessados a assistirem toda a conversa. Vou destacar, apenas, alguns pontos mais interessantes, como a teoria de Meryl Streep sobre a falta de produções protagonizadas por mulheres e como ser mulher no meio cinematográfico ainda é um ato radical, nas palavras da diretora Ava DuVernay.

Meryl Streep, que estará de volta aos cinemas na produção “Suffragette“, longa que contará a luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto, teorizou sobre o que leva à falta de filmes escritos por mulheres e que contam histórias de outras mulheres. Para ela, é a falta de imaginação dos homens. E ela explica o seu ponto de vista: ao contrário das meninas, meninos nunca precisaram pensar como uma mulher, porque a história e a cultura sempre foram feitas por eles.

“Tudo tem a ver com a imaginação. Esse ato de empatia, que mulheres experienciam desde pequenas. Nós lemos a literatura, a história… Tudo é sobre rapazes; a maioria delas. Mas, eu me sinto mais Peter Pan do que a Sininho, ou a Wendy, e as outras personagens. Eu queria ser Tom Swayer, e não a Becky.

Eu pensei sobre isso: esse ato de simpatizar com um enredo pautado na história de um homem. Isso é o que nós [mulheres] fizemos nossa vida toda: lemos história, literatura, Shakespeare… São só homens. Mas eles nunca precisaram fazer o contrário. E, para mim, como atriz, a coisa mais difícil é fazer com que os homens na plateia consigam se sentir como eu me sinto. Isso é muito difícil. É complicado fazer com que eles vistam os sapatos de uma protagonista feminina. E os estúdios sabem disso. Eles sabem que essa é a roupa mais difícil de vestir”.

Para reverter o jogo, Meryl Streep está financiando um laboratório profissionalizante para mulheres roteiristas, o chamado “Writer’s Lab“, que visa aumentar a participação de mulheres acima de 40 anos na indústria cinematográfica. Bacana demais a iniciativa dela, né?

Ava DuVernay também se manifestou e falou sobre como ser mulher num meio dominado por homens ainda é um ato político. Ela começa o vídeo abaixo falando sobre a desvalorização da vida dos negros, onde, as mortes dessa população precisam ser cada vez mais cruéis para irem ao noticiário.

“Toda semana há um caso novo [morte de negros]. As imagens de celular, as câmeras dentro do carro, têm que ser mais violentas, mais rudes e maldosas, para pelo menos ganhar uma manchete. […] Não é diferente o que aconteceu em 1969 até 2015. Só não havia uma câmera filmando”.

Meryl Streep, então, falou sobre a importância dos filmes que contam essas histórias, como foi o filme “Selma”, da diretora Ava DuVernay.

“As coisas que vão a fundo, que trabalham com a nossa empatia, nos fazem pensar não somente na indignidade feitas conosco, mas nos fazem sentir a indignidade feita com o outro. E isso nos faz sentir como se fosse conosco. É aí que seu filme [aponta para DuVernay] entra.

Eu me lembro que há muito tempo, havia na televisão um programa chamado “Roots“, e foi a primeira vez que muitas pessoas brancas foram convidadas a sentirem-se como era viver numa família escrava negra. E teve um ótimo impacto em todo o país”.

Ava DuVernay, em outro momento da conversa, declarou ainda: “quando uma mulher faz um filme, esse é um ato radical”. De fato, as três mulheres presentes são três grandes forças e de ativismo com seus trabalhos [a paquistanesa, Sharmeen Obaid-Chinoy ganhou um Oscar em 2012 por seu documentário “Saving Face”, sobre os ataques feitos às mulheres em seu país com ácido]. E, se assim podemos dizer, as três são radicais.