O casamento real foi uma celebração à tradição britânica e às origens de Meghan Markle

O casamento real foi uma celebração à tradição britânica e às origens de Meghan Markle

Ame ou odeie a família real britânica e o que ela representa, é impossível negar que o casamento do príncipe Harry com a atriz Meghan Markle foi um grande acontecimento, assistido em todo o mundo.

O casal, que se conheceu através de uma amiga em comum, disseram ‘sim’ um ao outro em uma cerimônia realizada na Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor, no último sábado (19). Foi uma bonita comemoração, que uniu a tradição real britânica com a modernidade, o que combina com os noivos, especialmente Meghan.

Formada em teatro e relações internacionais, Markle é filha de pais divorciados (mãe negra e pai branco) e ficou conhecida por seu trabalho no seriado “Suits”. Mas ser atriz nunca foi sua única função: ela também fez trabalhos humanitários e, desde pequena, demonstrou ser uma ferrenha ativista pelos direitos das mulheres.

Com apenas 11 anos de idade, ao ver um comercial de detergente com o slogan “As mulheres dos Estados Unidos lutam contra frigideiras e panelas gordurosas”, a pequena Meghan decidiu fazer algo para mudar aquilo. Ela escreveu cartas para a então primeira-dama Hillary Clinton, a jornalista Linda Ellerbee, para a advogada Gloria Allred e para a fabricante do produto. O resultado de sua ação veio semanas depois, com respostas das mulheres para quem escreveu, e com uma mudança no anúncio que protestou: em vez de “as mulheres”, agora dizia-se “as pessoas”. 

“Naquele momento, aos 11 anos, eu entendi a magnitude das minhas ações. Eu criei um pequeno nível de impacto ao defender a igualdade”, disse Meghan em um evento da ONU Mulheres. “Dizem que meninas com sonhos se tornam mulheres com visão. Vamos nos empoderar para dar continuidade a essa visão. Apenas falar sobre igualdade não é o suficiente. É preciso acreditar nisso. E não é o bastante acreditar nisso, é preciso trabalhar para isso. Vamos trabalhar para isso juntas”.

Raça também teve um papel importante na vida da artista. Quando estava na sétima série, respondendo um questionário sobre sua identidade, era preciso marcar qual a sua cor. Ela, que é birracial, não encontrou uma resposta dentre as apresentadas que correspondesse consigo mesma. A professora pediu a ela que escolhesse branca, pois “é assim que você se parece, Meghan”. Porém, ela não marcou nada e, ao chegar em casa e contar ao pai sobre o que havia acontecido, ele disse: “se isso acontecer de novo, faça sua própria opção”.

E a raça teve outra significância no seu casamento com o príncipe Harry. Agora, ela é Duquesa de Sussex, e tornou-se oficialmente a primeira mulher negra a adentrar a família real britânica. Um marco tão importante quanto o fato de já ter sido divorciada anteriormente, e cuja questão não criou nenhum tipo de ruptura na família do marido (no século XX, o rei Eduardo VIII abdicou ao trono para poder se casar com Wallis Warfield, uma mulher americana que havia se divorciado duas vezes).

Além disso tudo, enquanto muitos especularam o quão feminista Meghan é para se casar com um membro da realeza do Reino Unido, ela inseriu parte de sua identidade e crenças em seu casamento. A começar com seu vestido, branco como pede a tradição, e ajustado na cintura, da marca Givenchy, assinado por Clare Waight Keller. A escolha pode não ter sido à toa: Clare se tornou no ano passado a primeira diretora artística da grife francesa. A noiva também utilizou uma leve maquiagem, destacando suas sardas e sua beleza natural.

Quanto à cerimônia, Meghan entrou na igreja sozinha e assim caminhou até metade do caminho, sendo acompanhada pelo príncipe Charles em seguida. A mãe da moça, Doria Ragland, estava presente vestindo um elegante conjunto verde pastel da marca Oscar de la Renta, finalizado com uma boina. O visual deixou visível os dreads de Doria, que fez questão de mostrar com orgulho um penteado ainda muito discriminado quando usado por pessoas negras.

Um dos momentos mais bonitos foi protagonizado pelo reverendo Michael Curry, que fez um bonito sermão sobre o “o poder redentor do amor”, citando o ativista Martin Luther King Jr., ativista pelos direitos civis dos negros. O religioso ainda falou sobre escravidão e como é preciso que o amor seja a força para que a desigualdade desapareça no mundo. E segundo o jornal inglês The Guardian, Curry é a favor do fim da injustiça racial, abuso sexual e é a favor dos direitos LGBT, inclusive, pelo direito de casais homossexuais se casarem na igreja.

“O falecido Dr. Martin Luther King disse e eu o citarei: nós precisamos descobrir o poder do amor. O poder redentor do amor. E quando nós o descobrirmos, vamos transformar esse velho mundo em um novo. O amor é o único caminho”, falou o reverendo. “Quando o amor for o caminho, a pobreza se tornará história. Quando o amor for o caminho, esse planeta se tornará um santuário. Quando o amor for o caminho, nós vamos colocar nossas espadas e escudos nas margens dos rios e não estudaremos mais sobre guerra. Quando o amor for o caminho, haverá espaço de sobra para todas as crianças de Deus”.

O Coral do Reino Unido também participou da celebração. Composto apenas por negros, o grupo cantou “Stand By Me”, de Ben E. King, e encantou a todos os presentes e a quem assistiu ao redor do mundo. Regravada por diversos artistas, a música foi lançada originalmente em 1961, e faz parte do Registro de Gravações Nacionais dos Estados Unidos, uma honraria dada a canções que “têm significância cultural, história e estética”. Isso porque “Stand By Me” ficou muito conhecida e divulgada durante a luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, como um hino pela solidariedade a todos que lutavam para terem suas vidas respeitadas.

Além do Coral do Reino Unido, quem mais se apresentou no casamento foi o violoncelista Sheku Kanneh-Mason, de apenas 19 anos. Em 2016, ele se tornou o primeiro negro a ganhar o  prêmio Jovem Músico da BBC, e já havia chamado a atenção do príncipe Harry em um evento de caridade, onde havia se apresentado. Pelo Twitter, o músico disse que foi convidado por Meghan Markle para tocar na cerimônia real, o que o deixou honrado com a oportunidade.

Sheku Kanneh-Mason performou três músicas: “Sicilienne”,  de Maria Theresia von Paradis; “Après un rêve”, de Gabriel Fauré; e “Ave Maria”, de Franz Schubert. 

Foi um bonito e emocionante casamento, o qual honrou tanto a tradição da família real, quanto as raízes de Meghan Markle, que imprimiu um toque seu em várias partes da cerimônia. Com essa mistura de culturas, é possível acreditar que a realeza britânica nunca mais será a mesma e que, ao que parece, está mais aberta ao novo. E enquanto esperamos os próximos passos da agora Duquesa de Sussex, felicidades aos noivos!

"Stand by me" performed at the Royal Wedding

Watch the breathtaking rendition of "Stand by me" performed at the royal wedding by Karen Gibson and The Kingdom Choir.

Posted by Vox on Saturday, May 19, 2018