O MC Livinho achou que era legal cantar “vou abusar bem dessa mina” em uma música

30. agosto 2017 POP 0
O MC Livinho achou que era legal cantar “vou abusar bem dessa mina” em uma música

Na mesma semana em que a escritora Clara Averbuck denunciou ter sido estuprada por um motorista do Uber, o funkeiro MC Livinho liberou uma nova música, chamada “Covardia”, cuja letra é problemática, para não dizer que ela incita a violência sexual contra as mulheres. Na canção, liberada na segunda-feira (28), ele canta: “vou abusar bem dessa mina/ toma toma pica tranquilinha”. 

É provável que o artista não esteja falando sobre violentar sexualmente uma mulher de alguma maneira, mas sobre transar bastante com ela. Pelo menos é o que dá para perceber acompanhando os outros versos de “Covardia”. Porém, palavras importam, tanto quanto contexto. E ao se tratar de um homem dizendo que vai “abusar bem dessa mina”, é difícil não relacioná-la a um tipo de crime que deixa traumas, diversas vítimas e é muito comum no país.

De acordo com um levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Em 2015, o país registrou 45,4 mil desses casos. E no passado, segundo o Ministério da Saúde, 3.526 casos de estupro coletivo aconteceram em território brasileiro. Ainda assim, esses números podem ser ainda muito maiores, já que a violência sexual é um crime muito subnotificado, pois muitas mulheres não registram ocorrência: apenas 35% dos casos chegam a ser reportados. Os outros 65% permanecem no escuro e no silêncio das vítimas.

Isso nos faz questionar: precisamos de mais um produto cultural propagando a violência contra a mulher? Eu aposto que não.

Nas redes sociais, muitas pessoas reclamaram, com razão, do conteúdo da música. Por enquanto, MC Livinho mantém-se em silêncio, mas parece não ter dado ouvido às críticas, já que em seu Facebook, ele compartilhou uma arte justamente com o verso misógino. 

Tantas outras pessoas não viram problema na canção, o que demonstra como a violência contra a mulher é naturalizada socialmente e tratada como algo menor. Em algum lugar alguém deve achar um “exagero” falar sobre a letra de “Covardia”, pois é funk e é sobre sexo. Enquanto isso, mulheres vão sendo abusadas justamente porque homens sentem que têm direito sobre os corpos delas. E sentem isso com a ajuda de uma música que reafirma o lugar do homem como “pegador” e o da mulher que precisa “ceder” às investidas dele.

Contudo, isso tudo não é para dizer que o funk deva ser proibido e que o gênero musical fala apenas sobre sexo e drogas. Letras problemáticas estão no rock, no samba, no pop, no hip-hop, na MPB, no sertanejo e em outros estilos. O que fazemos é fechar os olhos para as outras e apontar o dedo para uma música que nasceu nas periferias. 

Quanto ao MC Livinho, seria bom ele prestar mais atenção ao mundo e às conversas que temos sobre os direitos das mulheres. Nós não precisamos de mais músicas falando sobre violência sexual. O que precisamos é de mais canções sobre a importância do consentimento. Fica a dica aí. 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *