“Master of None” propõe uma masculinidade mais saudável aos homens

“Master of None” propõe uma masculinidade mais saudável aos homens

[O TEXTO CONTÉM SPOILER DE “MASTER OF NONE”]

Além de fazer um dos melhores retratos de como é ‘sair do armário para muitos LGBTs, outro motivo para amar “Master of None” é como a masculinidade dos personagens é trabalhada nas duas temporadas dos seriado.

E isso é fácil de ser percebido ao vermos a relação de amizade entre Dev (Aziz Ansari) e Arnold (Eric Wareheim), que é marcada por apoio mútuo, carinho e cuidado, muito diferente do arquétipo do ‘machão’ que estamos acostumados. Ambos são sensíveis e não têm problemas em falar sobre suas emoções – algo que meninos são ensinados desde pequenos a não fazer – e a demonstrar o afeto que sentem um pelo outro.

Logo na primeira temporada, é possível perceber que a dinâmica dessa amizade é diferente daquelas que vemos por aí. Quando Dev precisa comprar um brinquedo de presente para uma criança, ele não leva uma amiga com ele, mas Arnold. E adivinhe só? Eles se divertem muito na loja. E em outros momentos, ambos gostam de se abraçar e tecer elogios sobre a aparência um do outro, além de destacar as qualidades que possuem. 

Já na segunda temporada, Arnold vai para a Itália visitar Dev e, juntos, eles passeiam, experimentam novas comidas (há uma cena em que um dá comida na boca do outro) e falam abertamente sobre suas vidas amorosas. Em especial, vemos Arnold desabando porque sua ex-namorada vai casar com outro homem, o que leva Dev a incentivá-lo a falar  sobre o que está passando por sua cabeça. Em nenhum momento ele oferece uma bebida ou pede ao amigo para que ‘engula o choro’ e parta para outra, pois ele entende que isso não resolve o problema.

Pelo contrário, Dev oferece seus ombros e ouvidos, já que essa é uma forma muito mais saudável de ajudar quem está passando por momentos difíceis. Existe uma conexão profunda de amor e confiança entre os dois, e ambos sentem que podem ser quem são sem precisar ficar fingindo. 

E segundo um dos criadores de “Master of None”, Alan Yang, essa relação entre os dois não foi feita de propósito, mas é apenas um reflexo de como ela deveria ser na vida real.

“Não sei se foi de propósito. Eu acho que estamos somente tentando ser honestos com a forma que nos sentimos nessas situações”, disse Yang ao site Bustle, ao mesmo tempo em que concorda que a maneira que a masculinidade é representada na mídia é muitas vezes tóxica. “Há uma imagem dos homens na televisão, que acho que vimos por muito tempo: o pai que quer assistir futebol e ignora sua esposa e seus filhos. Isso acontece em todos os comerciais de cerveja. Acho que se você saísse comigo e Aziz, você não acharia que somos masculinos, mas também não acharia que somos dois bobões”.

Esse é um outro lado da representação masculina que é muito problemática: quando não são retratados como violentos e loucos por sexo, homens são representados como nerds, com quase nenhuma habilidade social e com medo de se relacionar com outras garotas.

Isso não acontece na série da Netflix: tanto Dev quanto Arnold têm seus interesses e suas personalidades retratadas de maneira humana, sem parecer que são saíram de algum filme de comédia americano. Ambos têm suas qualidades e defeitos, mas eles não são vistos como menores, tampouco sentem a necessidade de se sobressair entre si ou entre as mulheres.

Na primeira temporada, um dos episódios é dedicado a explorar as experiências das mulheres em uma sociedade machista, e como comportamentos naturalizados como ‘coisas de homem’ acabam são muito problemáticos. Na segunda temporada, há outro exemplo que vale ser destacado: Dev se apaixona por Francesca (Alessandra Mastronardi), que é noiva de Pino (Riccardo Scamarcio). Os dois vivem coisas muito boas juntos e Dev é sempre muito gentil com sua amiga, mas nunca cobra dela algo por isso. Ele nunca reclama de estar na tal ‘friend zone’, porque entende que ser legal não lhe dá passe para fazer sexo ou ter um relacionamento com outra pessoa.

“Master of None” é uma série que aborda vários temas, e é animador que ela também se engaje em mostrar que outro tipo de masculinidade é possível: uma que não é violenta, mas sensível, honesta e saudável, tanto para as mulheres quanto para os próprios homens.


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