Um problema em “Master of None”? Francesca

Um problema em “Master of None”? Francesca

[O TEXTO CONTÉM SPOILER DE “MASTER OF NONE”]

Eu amo “Master of None”. O seriado criado e estrelado por Aziz Ansari é uma comédia leve e encantadora sobre a vida de qualquer pessoa nos seus vinte e poucos anos, que está ainda entendendo como funciona a vida adulta. Não só isso, a atração da Netflix trata de outros temas, como o ‘sair do armário’ para LGBTs, racismo e até propõe uma nova masculinidade.

Isso torna a série ainda mais interessante, porém, ela também possui seus problemas. E na segunda temporada, um deles é bem aparente: Francesca, personagem da atriz Alessandra Mastronardi. Dev (Aziz Ansari) a conhece durante seu estágio em uma loja de massas na cidade de Módena, na Itália, onde aprende a fazer o que mais ama: macarrão. Lá, ambos se tornam bons amigos, mas pouco se sabe sobre ela. E mesmo depois que Dev volta à cidade de Nova York, para onde Francesca vai tempos depois com seu noivo Pino (Riccardo Scamarcio), nós continuamos sabendo quase nada sobre ela. E isso me incomodou muito.

Veja, a personagem vai à NY com seu futuro marido, pois ele possui negócios com azulejos. Lá, ele foca no trabalho, enquanto Francesca possui muito tempo livre, e aproveita para passá-lo ao lado de Dev, que aos poucos vai se apaixonando por ela. E vice-versa. Contudo, “Master of None” faz pouco para se aprofundar na personalidade da mulher. O que temos dela é que ela é formada em história da arte  (um diploma que ela não usa para nada, pois preferiu ajudar a família com a loja de massas), está em um relacionamento que não a faz feliz e que está confusa em relação ao que sente por seu amigo/interesse romântico.

Fora isso, Francesca possui as mesmas características de personagens femininas que estamos acostumados a ver em filmes: ela é doce, divertida, gosta de coisas ‘esquisitas’, como passear por farmácias (o motivo para isso, não se sabe), seu inglês não é perfeito, o que lhe confere um charme, e só teve um namorado em toda sua vida: Pino. 

E é isso. Claro, o foco do seriado é a vida de Dev, mas se ele se propõe a contar uma história de amor, o mínimo que se espera é que dê a chance ao público de entender o que levou um personagem a se apaixonar pelo outro. No caso de Francesca, nos apaixonamos pela ideia de quem ela é, em vez de quem ela realmente é.

No que diz à relação que tem com Dev, ela também é um tanto problemática. Eu não acho que Francesca tenha feito de propósito, mas ela se aproveitou dos sentimentos do seu amigo para que ela não se sentisse sozinha o tempo todo. Isso fica claro com os convites que faz a ele para ver um filme em casa ou ir a um museu. Ter companhia é sempre bom, mas não é ruim ou impossível fazer coisas sozinho. 

E é visível que ela começa a se apaixonar por Dev nesses encontros, pois ele dá a ela o que Pino não dá. E o pior é que quando o noivo percebe que as coisas não estão bem entre os dois e pergunta a ela o que está acontecendo, Francesca não se abre. Em vez de ser madura e conversar abertamente sobre o que está funcionando e o que não está na relação, ela opta por se retrair. Talvez fosse melhor continuar com Pino. Talvez com Dev. Talvez fosse bom até que ela ficasse sozinha para poder entender tudo o que está sentindo. Mas não é essa a sua escolha. Ao menos não parece na cena final de “Master of None”.

Nos segundos finais, ficamos sem entender se Dev e Francesca enfim terminam juntos ou se tudo não passou de um sonho. Para ser sincero, não sei bem o que eu prefiro. Mas se houver uma terceira temporada de “Master of None”, espero que Francesca se encontre. E que o seriado encontre uma forma melhor de compor uma personagem feminina.


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