Tão masculino quanto foi branco: o Oscar tem de levar a sério o debate sobre diversidade

01. março 2016 Cinema 0
Tão masculino quanto foi branco: o Oscar tem de levar a sério o debate sobre diversidade

A cerimônia de entrega do Oscar aconteceu no último domingo, 28, em meio a críticas por falta de diversidade racial entre os indicados à premiação. Pelo segundo ano consecutivo, a Academia não indicou qualquer ator e atriz de uma minoria étnica nas categorias de atuação, o que levou à volta da hashtag #OscarsSoWhite, uma forma de chamar atenção para o racismo dentro da organização que elege os considerados melhores do cinema.

Chris Rock teve a difícil tarefa de apresentar o evento, após receber uma enorme pressão para que deixasse a função, o que ele não fez, obviamente, mas encontrou uma outra forma de protestar: reescrevendo seu roteiro para a cerimônia.

Em seu monólogo de abertura no Oscar, o comediante tocou na ferida de Hollywood e falou sobre a exclusão dos negros na indústria cinematográfica, reforçando um discurso feito por Viola Davis no ano passado, quando se tornou a primeira mulher negra a ganhar um Emmy Awards. “Os atores negros querem as mesmas oportunidades. É isso. E não só uma vez. Leo [DiCaprio] tem bons papéis todos anos. Vocês todos conseguem todos os anos. E os atores negros?”

Contudo, Chris Rock falhou em incluir outras minorias étnicas em suas palavras. Quando April Reign iniciou o movimento #OscarsSoWhite em 2015, era uma forma de protesto contra a exclusão de negros, latinos, asiáticos e nativo americanos da indústria cinematográfica, não apenas dos negros, afinal, de acordo com um estudo da Universidade do Sul da Califórnia, todos os grupos citados possuem pouca representação na frente (e atrás) das telas: negros recebem 12,5% dos papéis, enquanto asiáticos são 5,3%, latinos 4,9% (e eles já representam 17% da população dos Estados Unidos e compõe 32% do público que vai ao cinema) e nativo americanos apenas 1%.

Tweets: “De repente, Chris Rock coloca as pessoas negras no centro [do #OscarsSoWhite] e agora nós temos que ‘criar nossas próprias hashtags’. Por quê? É sobre todos nós. April nunca disse que #OscarsSoWhite era um problema entre pessoas brancas e negras. Mas porque um apresentador negro o fez, agora é um problema.”

É por isso que nem todo mundo ficou contente com a performance de Chris Rock no Oscar. “Fiquei chocado que latinos, asiáticos e nativo americanos ficaram de fora da conversa”, disse Felix Sanchez, diretor e co-fundador da Fundação Nacional de Hispânicos para as Artes para a Associated Press. “Eles têm essa ideia de que o paradigma ainda é branco e preto e precisam expandir a conversa. Foi muito estreita que chega a ser indefensável.”

Um dos momentos que despertou maior fúria foi quando o apresentador levou ao palco três crianças asiáticas vestindo ternos e maletas, numa referência àquela ideia pré-concebida de que asiáticos são bons com matemática. “A cerimônia e, particularmente a ‘piada’ envolvendo crianças asiáticas, a qual resultou em mais de um esterótipo perigoso de asiáticos e asiático-americanos, expõe como falhamos em conversar sobre raça nos Estados Unidos: as relações de raça não são esse binário preto e branco”, afirmou Mee Moua, presidente e diretora-executiva de uma organização que trabalha com direitos civis de asiático-americanos.

Tweet: “Piada preguiçosa e nada criativa depois de um monólogo brilhante, Chris Rock. #DiversidadeMeuCu #DeAlgumaFormaPerdiEssaParte.”

Dito isso, a diversidade racial não foi o único problema entre os indicados: o Oscar foi tão branco quanto foi masculino. Mais um ano se passou sem que nenhuma mulher fosse indicada na categoria ‘Direção’. Aliás, em 88 anos de premiação, apenas uma mulher foi eleita ‘Melhor Diretora’, e apenas uma mulher teve sua produção eleita ‘Melhor Filme’. Em ambos os casos, a vencedora foi Kathryn Bigelow, por “Guerra ao Terror”, em 2010.

Indo um pouco além, o site Mic investigou qual era o gênero dos protagonistas das produções que ganharam ‘Melhor Filme’ até a penúltima edição do Oscar: 80,5% eram homens e 19,5% eram mulheres. Uma forma clara de demonstrar a pouca valorização que as histórias de mulheres recebem.

O Centro de Mídia das Mulheres identificou, também, que nos últimos 10 anos, 327 mulheres foram indicadas ao Oscar, contra 1.387 homens. Uma diferença de mais de 1.000 homens. Em uma indústria com poucos trabalhos para as mulheres em frente e atrás das câmeras, a realidade assusta, mas não surpreende.

É fácil pensar numa paridade de gênero quando existem categorias específicas para mulheres no Oscar (‘Melhor Atriz’ e ‘Coadjuvante’), mas talvez elas sejam tão necessárias que, do contrário, as mulheres não concorreriam.

Tweet: “A razão pela qual há categorias de atuação para homens e mulheres no Oscar é porque, sem elas, você nunca teria mulheres indicadas.”

E quando se trata de LGBTs, os números são ainda piores. Neste ano, Eddie Redmayne concorreu por seu papel como a mulher trans Lili Elbe em “A Garota Dinamarquesa”, e Cate Blanchett e Rooney Mara por suas personagens Carol e Therese em “Carol”. Uma pequena vitória, mas ambas histórias são protagonizadas por atores heterossexuais cisgêneros. Ou seja, faz pensar que para concorrer nas categorias de atuação, você tem mais chances de indicação se não for uma pessoa LGBT.

Muito diferente do Spirit Awards, que premiou Mya Taylor, uma mulher trans que interpreta uma mulher trans em “Tangerine”. “Há muito talento transgênero por aí. Então, é melhor que vocês os coloquem no seu próximo filme”, disse a atriz após ganhar o prêmio.

Em 2014, os 100 filmes campeões de bilheteria, tiveram apenas 19 personagens LGBT. Ou melhor, LGB, pois as pessoas trans que compõe a letra T sequer foram representadas. 10 eram gays, 4 eram lésbicas e 5 bissexuais, sendo a maioria branca (84,2%).

Isso tudo serve para explicar que a falta de diversidade no Oscar é só parte de um problema muito maior. Hollywood como um todo precisa se diversificar. Em 2015, as mulheres fizeram diversas manifestações por melhorias na indústria cinematográfica e 2016 já começou com protestos de falta de diversidade racial.

A Academia do Oscar prometeu mudanças para diversificar seu corpo de membros, com o objetivo de dobrar o percentual de mulheres e demais minorias até 2020, mas é preciso que a indústria cinematográfica toda mude seu sistema de fazer filmes.

“Nossa audiência é global e rica em diversidade. E cada faceta da nossa indústria deveria ser também”, disse a presidente da organização, Cheryl Boone Isaacs, na noite de domingo. “Não é o suficiente apenas ouvir e concordar. Precisamos agir.”