A máscara da masculinidade

14. julho 2016 Cinema 0
A máscara da masculinidade

Assistir ao documentário “The Mask You Live In” (2015) em meio às discussões dos projetos de leis inspirados no movimento Escola Sem Partido, no Brasil, me fez refletir sobre os prejuízos, os danos e os preconceitos que vão continuar naturalizados em nossos estudantes, caso os projetos vigorem.

Hoje, quatro projetos tramitam na Câmara dos Deputados e um no Senado. Mais alguns pipocam nas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. E isso é perigoso. Os projetos que visam “neutralizar a educação” e combater a “doutrinação ideológica”, supostamente feita por professores nas escolas, trazem com eles a contradição de serem extremamente ideológicos, já que cercear o debate e o livre pensamento também faz parte de um plano ideológico de políticos e empresários da direita brasileira.

No Paraná, famoso pelo apelido de Rússia Brasileira, surpreendentemente a proposta foi arquivada, assim como em Goiás.  Em Alagoas, a Assembleia Legislativa do estado aprovou o projeto Escola Livre, com bases semelhantes aos projetos inspirados no Escola Sem Partido. Surpreendentemente também, o governador Renan Filho (PMDB) vetou o projeto. Porém, os deputados derrubaram o veto e o governador tenta, por meio da Procuradoria-Geral do Estado (PGE), pedir a inconstitucionalidade da matéria. O Ministério da Educação (MEC) encaminhou à Advocacia-Geral da União (AGU) argumentos que justificam a inconstitucionalidade da lei alagoana.

O Escola Sem Partido foi idealizado pelo advogado Miguel Nagib, em 2004, mas é agora, em um contexto de crise econômica e política que a discussão vem à tona e se materializa em forma de projetos de leis. Com a polaridade política, parte da sociedade, vulnerável e carente por líderes, acata soluções práticas para problemas complexos. Por isso, vemos tantos líderes de índole duvidosa, para dizer o mínimo, ganhando notoriedade.

A onda conservadora que volta a atingir o mundo, em pleno 2016, suscita a discussão de leis baseadas no projeto Escola Sem Partido. Existe, entre políticos e empresários, o medo de que as escolas brasileiras formem cidadãos críticos, com a capacidade de pensar além do que os livros a TV ditam. Esses projetos de leis incentivam e legitimam que práticas, como as vistas no documentário “The Mask You Live In”, se perpetuem nas escolas brasileiras, já que a discussão sobre as escolas livres de “doutrinação ideológica” vem atrelada à chamada “ideologia de gênero”.

No Brasil, o Plano Nacional de Educação (PNE) foi aprovado em 2014, com a exclusão da promoção das equidades de gênero, raça/etnia, regional e orientação sexual. O lobby dos conservadores fez com que a discussão fosse excluída também dos planos estaduais e municipais, alegando a tal da “ideologia de gênero”, termo que é usado de forma desonesta pelos fundamentalistas para justificar suas políticas contra os direitos humanos.

Antes de prosseguir com a leitura desse texto, é bom dar uma olhada nesse vídeo aqui:

“The Mask You Live In” e a masculinidade

Agora, podemos voltar a discutir sobre o documentário citado no início do texto – que pode ser assistido na Netflix. Ele foi produzido nos EUA, mas é possível traçar paralelos com o Brasil, já que o mote do filme é a construção da masculinidade. O filme dialoga com as discussões que enfrentamos hoje sobre a “ideologia de gênero” e a “escola sem partido”. “The Mask You Live In” mostra o quão prejudicial é não tratarmos nas escolas sobre assuntos que são tradicionalmente ignorados por quem educa em casa.

Condutas tidas como masculinas são cobradas dos meninos desde quando ainda são bebês. Homem não chora, homem não brinca com boneca, homem usa azul, homem precisa ser forte… e por aí vai. Esse tipo de pensamento machista, fruto de um patriarcado secular, é reproduzido pelas famílias e pelas escolas, minando qualquer chance de um garoto expressar suas subjetividades.

O documentário não é uma defesa dos homens, pelo contrário. Mostra as diferentes maneiras que muitos canalizam as opressões sofridas ao longo da vida: manifestações violentas, condutas abusivas, hábitos destrutivos, participações em crimes e até suicídio. Discutir assuntos como a igualdade de gênero nas escolas não é doutrinar os estudantes, é completar uma lacuna que a família não se preocupa, tem medo de preencher ou não sabe como abordar.

A defesa do fim das opressões, a igualdade de gênero, o fim do racismo e o fim da LGBTfobia, é considerada uma prática da esquerda no Brasil. Portanto, de acordo com os proponentes dos projetos de leis baseados no Escola Sem Partido, discutir esses assuntos em sala de aula seria uma doutrinação ideológica de esquerda. Além de subestimar o livre arbítrio dos estudantes, como pessoas que se dizem “cidadãos de bem” lutam contra direitos básicos do ser humano? Um grupo da “associação escola sem partido” moveu uma ação contra o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), alegando que o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), de 2015, contra a violência sofrida pelas mulheres, era doutrinador.

O perigo de não se discutir a masculinidade na escola

O documentário “The Mask You Live In” mostra alguns dados, dentro do contexto dos EUA. No país, apenas 22 estados requerem que escolas públicas ensinem educação sexual. Um a cada quatro meninos sofre bullying na escola, apenas 30% notificam um adulto. Comparados às meninas, meninos têm duas vezes mais chance de precisar de reforço escolar. Três vezes mais chances de serem diagnosticados com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), duas vezes mais chances de serem suspensos e quatro vezes mais chances de serem expulsos da escola.

Homens, desde a infância, não têm abertura para manifestar suas subjetividades e sentimentos, seja com pessoas da família ou da escola.  Explorar esse viés da personalidade indica fraqueza. Possuir características consideradas femininas é visto como um aspecto ruim, desde os primeiros anos da infância até o fim da vida. O homem precisa provar o tempo todo que não é mulher, nem gay. A masculinidade foi construída de uma forma que deixa os meninos inseguros. Por isso a necessidade de se afirmar o tempo todo, reprimindo emoções, medos e dores.

Para a Drª. Caroline Heldman, cientista política e educadora, “a masculinidade não é orgânica, é reativa. Não é algo que se desenvolve sozinha. É a rejeição a tudo que é feminino. Nós os colocamos nesse caminho através da cultura popular, do estilo de criar filhos, do sistema educacional e pelas noções intuitivas de masculinidade e macheza que transmitimos que são incrivelmente ofensivas e danosas. E há todo um sistema social que os vigia através da ameaça velada dos outros homens se não forem machos o bastante”.

Pornografia e violência

A ligação entre a construção da masculinidade, a pornografia e a cultura do estupro fica evidente. 68% dos homens jovens usam pornografia semanalmente e 21% dos homens jovens usam pornografia diariamente. Em uma sociedade em que não se discute educação sexual nas escolas, a pornografia acaba por suprir esse papel. O menino acaba naturalizando as experiências com o pornô, acatando que é da maneira representada nos filmes que mulheres devem e querem ser tratadas, e que eles devem agir como os homens dos vídeos. 83% dos meninos já viram sexo grupal online, 39% dos meninos já viram sadomasoquismo online e 18% dos meninos já viram um estupro online. A exposição à pornografia aumenta a agressão sexual em 22% e aumenta a aceitação de mitos do estupro (mulheres querem ser violentadas) em 31%.

O vídeo abaixo traz uma reflexão mais profunda sobre o tema:

O alcoolismo torna-se uma realidade para muitos meninos, como forma de canalizar os sentimentos de fracasso, que surgem quando não conseguem atingir o ideal masculino cobrado pela sociedade. Um a cada quatro meninos bebe compulsivamente (consome cinco ou mais bebidas em sucessão). Os índices de violência também estão ligados com os danos que a construção da masculinidade impõe. 90% dos responsáveis por homicídios são homens. A cada hora mais de três pessoas são mortas por arma, são mais de 30.000 vidas por ano. Quase 50% tem menos de 25 anos. 94% dos homicídios em massa são cometidos por homens. “The Mask You Live In” mostra detentos do programa de prisão perpétua de San Quentin, que refletem as influências da construção da masculinidade nos atos que os levaram a cometer crimes, ao usar a violência para resolver os problemas. Gênero é um dos fatores mais importantes na discussão sobre a violências, mas quase nunca é mencionado.

Apesar do documentário ser sobre a realidade dos EUA, o filme se mostra importante ao alertar sobre os perigos da não discussão de temas como a masculinidade e educação sexual nas escolas. No Brasil, com as leis inspiradas no Escola Sem Partido, o professor que tratar desses temas pode ser criminalizado, caso algum estudante – ou a família dele – sinta que o conteúdo discutido é contrário às suas crenças pessoais, religiosas e morais.

Na escola, a diversidade de pensamentos e a reflexão devem ser estimuladas. Nossos valores pessoais devem ficar dentro de casa e não devemos impor aos outros. Ao contrário do que pensam os apoiadores do Escola Sem Partido, discutir sobre igualdade racial e violência de gênero nas escolas não é obrigar que uma pessoa se transforme em algo que ela não é. É formar cidadãos mais humanizados, que saibam romper estereótipos e não reproduzir preconceitos.

*Documentário produzido pelo The Representation Project, que utiliza os filmes como um catalisador para a transformação cultural. O projeto inspira indivíduos e comunidades a desafiar e a superar os estereótipos, para que todos, independentemente do sexo, raça, classe, idade, orientação sexual, ou circunstância, possam se realizar por completo como ser humano. No site oficial é possível conhecer outras produções e realizar doações.

Ficha Técnica:

Direção: Jennifer Siebel Newsom
Roteiro: Jessica Congdon, Jennifer Siebel Newsom
Lançamento: 25 de janeiro de 2015 (EUA)
97 minutos