“Mas é só uma brincadeira…” Será?

“Mas é só uma brincadeira…” Será?

Quem nunca ouviu uma piada sobre loira? Ou sobre mulheres em geral (vale o famoso “mulher no volante, perigo constante”)? Sobre gays? Negrxs? Gordxs? É só unir as palavras “piada + qualquer indivíduo citadx anteriormente (e muitos outrxs)” e temos uma longa e infinita lista de chacota. Mas será que isso é só brincadeira mesmo?

Existe diferença entre liberdade de expressão e liberdade de opressão. A primeira lhe dá o direito da livre manifestação de pensamento. Seu limite se dá quando ferimos o espaço do outro. Por exemplo, a apologia ao crime ou ideias que acabam por discriminar outro indivíduo. Quando isso acontece, já não é mais liberdade de expressão, mas de opressão.

Exemplo de discurso opressor
Exemplo de discurso opressor

Muitos podem alegar “liberdade de expressão” enquanto fazem suas piadas. Esse direito é garantido em qualquer democracia. No entanto, as “brincadeiras”, que não passam de “brincadeiras” (segundo os próprios), fazem parte de um discurso opressor, e somente perpetuam discriminação e estigmatização de quem é o alvo da chacota. Já ouviu a piada sobre o homem branco, hétero e rico? Pois é, ela não existe. Mas piada sobre todos aquelxs que não partilham dessas características, essas existem aos montes.

piadas racistas

O engraçado é que, para quem faz a “piada”, a liberdade de expressão só existe em uma via. A crítica à sua piada nunca é aceita, já que é considerada “cerceamento da liberdade de expressão”. Ora, o mesmo direito de manifestação que você tem, eu também tenho.

liberdade de expressão para quem? para opressor ou para oprimido?

Outro argumento muito defendido para a continuação dessas “brincadeiras” é o famoso “eu não tenho preconceito. Até tenho amigxs [preencha este espaço com algum grupo de pessoas oprimidas]”. Ter um amigo negro, por exemplo, não te faz menos racista, somente hipócrita. Como é possível brincar com uma característica de outra pessoa e não ser preconceituoso? “Mas, Artur, é só uma brincadeira”, alguém pode pensar. Faça aquele famoso exercício de “se colocar no lugar do outro”. Imagine quem é zombadx por ser mulher, por ser pobre ou por conta da sua cor, da sua crença, da sua orientação sexual, do seu tipo físico e/ou sua origem. Imagine isso todo dia. Imagine uma vida inteira ouvindo sempre a mesma coisa. Só quem passa por isso sabe como é ter de enfrentar diversos preconceitos travestidos de “piadas” e de “liberdade de expressão”.

piada com a empregada

piada gordaPortanto, piadas preconceituosas não são só “piadas”. Elas reforçam estereótipos, discriminam e somente aumentam o abismo que existe entre o intacto homem branco, hétero e rico do restante da população. Com certeza você já ouviu aquela famosa frase atribuída a Confúcio (e a Jesus também): “não faça para os outros o que você não quer para você”.

Rir de quem faz esse tipo de brincadeira, mesmo que não gostando do que foi dito, não te faz menos conivente com o preconceito. Não se silencie. Se aquilo foi preconceituoso, fale. Quem quer liberdade de expressão para falar o que quer, tem que saber escutar o que não quer. Isso quando não houver processo. Danilo Gentili, apresentador do “The Noite”, no SBT, sabe bem como é fazer piada de mau gosto e ter que responder por ela. Fica aí o exemplo.

*todas as imagens são prints de mensagens escritas por usuários do Twitter.


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