“A Mão Esquerda de Vênus”: a anti-Monalisa e seus rascunhos sobre o amor

“A Mão Esquerda de Vênus”: a anti-Monalisa e seus rascunhos sobre o amor

Lembro bem do dia que andava entre as prateleiras de uma livraria, procurando algo novo para ler e que fizesse eu me sentir inspirada novamente. Recém tinha fechado um ciclo na minha vida, precisava me encontrar em páginas que não fossem minhas. Livraria é aquele mar de cores, palavras e autores. Por vezes conhecidos, outros nem tanto. Peguei meu dedo indicador e passei por inúmeros títulos. Cores. Palavras. Tirei um, dois, três livros. Li algumas sinopses, outros eu sequer abri.

Não sei bem ao certo dizer em qual número eu me encontrava quando avistei “A Mão Esquerda de Vênus”. O título me abraçou. Às vezes, penso que foi o fato de eu ser canhota, ou quem sabe o vício em ler mapas astrais. Por fim, prefiro por a culpa na minha Vênus em Leão.

Lembro de ter corrido pra casa e lido o livro inteiro numa tarde. Como uma criança que ganha um brinquedo de presente e não vê a hora de abrir pra brincar. Nunca tinha lido Fernanda Young, sempre que ouvia falar dela, ligava imediatamente à imagem de uma mulher vestida de preto e cheia de tatuagens. E eu estava certa, era ela. O que eu não sabia era da grande facilidade que ela teria em me ganhar nas palavras. Poemas e poesias sempre foram meu ponto fraco, eu estava prestes a me apaixonar.

A “Mão Esquerda de Vênus” nasceu do encontro de Fernanda com um maço de cartas amarradas por uma fita de cetim, que ela achou em uma caixa cheia de livros da sua amiga Mônica Figueiredo numa tarde qualquer. As cartas eram de Laurinha, mãe de Mônica, que autorizou seguir a leitura. A identificação foi tanta, que fez com que Fernanda seguisse com o projeto do seu livro adiante.

Ao folhear, podemos perceber o quanto da autora tem nele. São páginas e mais páginas de recortes, rascunhos, desenhos, fotografias, anotações e até mesmo bordados, produzidos por ela nos últimos tempos. “Poesia é mesmo uma estrutura cruel, visto que, se não conseguimos ler corretamente um poema, ele não fará sentido algum. Há versos que, sozinhos, contam páginas e páginas de uma história; outros encerram, na medida cirúrgica, exatamente o que querem dizer. É como se um romance coubesse ali” afirma a autora.

O livro é dividido em duas partes. Uma que seria os rascunhos de Fernanda ‘scaneados’, e outra com os poemas reescritos, para melhor leitura. O diferencial do livro é seu jeito inacabado de ser. Os rascunhos trazem junto com os desenhos uma urgência que todo apaixonado já sentiu e uma sensação de mistério que todo diário pessoal constrói. Li de outro crítico a seguinte frase: “Com palavras cortantes, cruas, mas também com outras doces e românticas, Young fala, portanto, em ‘A mão esquerda de Vênus’, do sentimento de amor. O amor em sua maior potência. Seu poder de seduzir e de destruir a si e ao outro.” e concordo, muito.

“A Mão Esquerda de Vênus” é um livro que te abraça. Faz você se conhecer, se ouvir e se perceber. Perceber que nos pequenos detalhes do dia a dia também tem vida, tem história, tem mistério. Você se apaixona e desapaixonada com o virar das páginas. O livro faz você querer viver tudo, pedaço por pedaço, e registrar esses momentos nas suas próprias folhas finas de papel amarelado. Faz você entender que as vezes tudo bem estar perdido, inacabado, e que assim como os poemas nem sempre precisamos estar inteiros, completos, perfeitos. Pedaços de nós também contam histórias. As imperfeições também são válidas. E como diria Fernanda:

“Essa pele não me contorna,
Pouco ou muito caibo
Nela.
Essa mancha que a mão cria,
Após esbarrar na linha
Daquilo que escrevo, ela sim,
É o espectro do que transborda de Mim.
Não estou dentro somente,
E estou somente dentro, caso
Queira.
Quando mudo é porque estou
Ainda mais em mim.
E se circulo no outro, móvel ou
Não, é porque desejo distrair-me
Desse fluxo, crendo estar com um.
Nunca estive com ninguém!
Assumo nessa mancha que
Escrevo.
Desculpa se o enganei,
Casei-me somente
Comigo.”


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