Pequeno manual de sobrevivência para o Oscar 2018

04. Março 2018 Cinema 0
Pequeno manual de sobrevivência para o Oscar 2018

Já preparou suas apostas para o Oscar 2018? Está pronto para assistir horas de premiação com incontáveis intervalos comerciais? Ou você é do tipo que prefere só conferir a lista de vencedores na manhã seguinte? Seja como for, se você também está de olho no prêmio mais comentado do cinema americano, o Prosa Livre preparou um pequeno guia de sobrevivência para você passar ileso pela cerimônia que acontece em Los Angeles nesse domingo.

E a primeira coisa que você precisa saber, e que pode ser uma verdade bastante cruel para os mais desavisados, é essa:

O Oscar não é justo.

Primeiro, porque nem todos os filmes do ano estão no Oscar – o que já elimina a máxima de premiar o melhor de todos. E nem é porque eles não eram bons o bastante para receber uma indicação. A questão é que os estúdios fazem uma campanha para que alguns filmes (normalmente os que julgam mais elegíveis, por um motivo ou outro) sejam indicados.

É claro que isso não é regra, e às vezes aparece algum azarão, um filme que caiu nas graças da Academia por qualquer razão que seja. Mas de modo geral, os indicados não estão lá por acaso. Percebemos isso quando os estúdios, salvo poucas exceções, esperam até a temporada de premiações para lançar as produções no cinema. Esse ano, apenas dois dos indicados estrearam antes da temporada: “Corra!” e “Dunkirk”.

Isso exemplifica bem outra verdade sobre a premiação:

O Oscar é sobre política.

Embora muitos critérios técnicos e artísticos sejam levados em conta, o que faz com que os filmes sejam indicados e premiados tem muito mais a ver com política do que com pura e simplesmente arte.

O Oscar nada mais é do que uma “festa da firma”, onde Hollywood premia a si mesma e também aponta os caminhos da indústria cinematográfica para os próximos anos. Quando a Academia premiou “O Artista” em 2012, estava em busca de um resgate da essência da arte cinematográfica. Premiar “Guerra ao Terror” no lugar do blockbuster “Avatar” também continha um recado político, o que o Melhor Filme tinha a dizer sobre o que Hollywood pensava naquele momento.

No prêmio de Melhor Direção isso também acontece. Muitos foram os grandes diretores premiados por filmes menores dentro de sua cinematografia, mas que serviram para que a Academia fizesse justiça a seu trabalho. Quase como um “prêmio pelo conjunto da obra”, como foi o caso de Martin Scorsese em 2007 com “Os Infiltrados”, nem de longe um dos seus melhores filmes.

Não é diferente com os prêmios de atuação. Muitas atrizes e atores já levaram estatuetas que continham o “já está na hora dessa figura levar um Oscar para casa” embutido. Para pensarmos em exemplos recentes, Julia Roberts em 2001 por “Erin Brockovich” e Leonardo DiCaprio por “O Regresso” em 2016. Isso sem falar em Meryl Streep, que depois de tantos papeis memoráveis, levou seu terceiro Oscar pelo mediano “A Dama de Ferro”.

E por último, a verdade mais preciosa para você assimilar antes de querer quebrar tudo enquanto assiste à cerimônia:

O Oscar vai te deixar triste (ou com raiva).

Apenas aceite esse fato. É natural que seu filme ou artista favorito não leve o prêmio. Acontece com todo mundo, e com frequência (a fanbase de “La La Land – Cantando Estações” que o diga). E isso tem uma explicação muito simples: é impossível julgar algo tão subjetivo quanto um produto artístico, seja ele uma interpretação, um roteiro ou um filme como um todo. Seria o mesmo que dizer que a cor vermelha é melhor que a cor verde, etc.

O que o Oscar faz é reconhecer, a partir daqueles tais critérios políticos, o trabalho de seus profissionais, e celebrar a si mesmo. Muitas vezes isso não significa premiar o melhor, mesmo que seja bastante óbvio quem mereça mais.

Mas, para confortar seu coração partido, basta saber que o vencedor do Oscar nem sempre será mais lembrado que muitos perdedores. Alguma dúvida de que “Brokeback Mountain” sobreviveu ao tempo e “Crash – No Limite” não?

E depois disso, você certamente está se perguntando:

E, afinal, o que esperar desse ano?

Depois de todo o movimento iniciado pela campanha do #OscarsSoWhite e dos recentes escândalos de abusos sexuais levantados pelas atrizes de Hollywood, a premiação desse domingo certamente não passará imune. O número de negros indicados, embora ainda longe do ideal, vem crescendo – mesmo que hajam deslizes ao longo das últimas edições. As mulheres deram as caras em categorias antes dominadas por homens, como a de Melhor Fotografia (onde Rachel Morrison é a primeira mulher indicada, por “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi”) e Melhor Direção (na qual Greta Gerwig, diretora de “Lady Bird – A Hora de Voar”, é a quinta mulher indicada em 90 anos de premiação).

E embora um dos favoritos ao prêmio de Melhor Filme (“Três Anúncios Para um Crime”) seja escrito e dirigido por um homem branco, e trate do pior que existe no estilo de vida da América de Donald Trump, os indicados ao prêmio esse ano trazem representatividade como em nenhuma outra edição no passado: tem filme sobre relação homossexual (“Me Chame Pelo Seu Nome”); filme sobre racismo escrito e dirigido por um negro (“Corra!”); filme realizado por uma mulher e que trata da relação familiar entre duas mulheres (“Lady Bird”); conto de fadas moderno sobre as minorias dirigido por um latino (“A Forma da Água”).

E, se a Academia seguir a tendência dos últimos anos, vai ter prêmio para todo mundo. Foi-se o tempo em que um único filme favorito vencia todas as principais categorias. Mais democrático (logo, mais político no bom sentido também), o Oscar segue cumprindo seu papel de ser um reflexo de Hollywood. E cada vez mais a indústria do cinema, por demanda do público e dos seus próprios artistas, ou talvez para manter sua força na era do streaming, tem apostado na diversidade, aliada à qualidade. Longe de ser perfeito. Mas a luta está ai, acontecendo.

Agora é só esperar para ver. E nós estaremos de olho na cerimônia – e no que seus vencedores nos dirão sobre os caminhos do cinema daqui para frente.

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