Mallu Magalhães ainda tem muito o que aprender sobre racismo

24. junho 2017 POP 0
Mallu Magalhães ainda tem muito o que aprender sobre racismo

No mês passado, Mallu Magalhães lançou um clipe para a canção “Você Não Presta”, o qual possui várias implicações racistas, e que, obviamente, não foi bem recebido pelo público. Com a repercussão negativa, a cantora ofereceu um pedido de desculpas, afirmando que aquela era “uma oportunidade para aprender”.

Bem, depois de sua participação no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, realizada ontem (23), dá para ver que ela ainda tem muito a aprender sobre racismo e apropriação cultural.

Na atração matinal da Rede Globo, Mallu foi convidada a comentar a polêmica envolvendo seu trabalho, no que poderia ser uma oportunidade de mostrar que entendeu as críticas feitas a ela. Ela começou sua fala se justificando, dizendo que sua ideia era “de fazer um clipe de dança, de convite a todos”.

“Em nenhum momento eu considerei a cor de ninguém durante a seleção de casting, nem reparei no número de pessoas, qual cor elas eram, nada”, afirmou. “Teve um grupo de pessoas que se sentiram ofendidas, pessoas negras se sentiram ofendidas. Disseram que eu tava usando o corpo negro para adornar o meu clipe. Não foi mesmo essa intenção”.

Depois, a cantora disse que o debate iniciado com “Você Não Presta” a fez repensar suas escolhas, inclusive, a olhá-lo de forma diferente.

“Foi um momento de educação para mim. Hoje eu olho o clipe com outros olhos, sinceramente. Continuo com a minha opinião de achar que o clipe é bonito. E, claro, não foi minha intenção [ser racista] e continuo vendo o clipe como um vídeo de convite, mas [com] o debate que se acendeu, os argumentos das pessoas, a gente aprende também. Quer dizer, Fátima, a gente aprende também que a gente não consegue prever a ferida dos outros. […] Eu aprendi com isso. Foi um momento de educação para todos nós, inclusive a mim. […] Eu entendo essas pessoas [que se sentiram ofendidas]. São argumentos que nunca passaram pela minha cabeça e, por isso, eu fico triste. Realmente não foi a intenção”.

Outra convidada do programa, a jornalista e feminista negra Maíra Azevedo (a Tia Má), aproveitou a oportunidade para chamar a atenção da artista para o constante uso da expressão ‘intenção’.

“É como um crime, muitas vezes a gente não tem a intenção, mas acaba atropelando uma pessoa na rua, nem todo mundo que atropelou alguém tinha a intenção de matar, mas terminou cometendo aquilo”, disse.

E Mallu poderia parar ali. Mas quando chamada ao palco para cantar sua música, ela soltou o seguinte: “essa é para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba”.

A partir daí, ninguém mais conseguiu acreditar no arrependimento da cantora.

Mallu Magalhães no #Encontro (23/06/17)Cantando Voce Não Presta

Posted by Frases Mallu Magalhães on Friday, June 23, 2017

Quando escreveu seu pedido de desculpas no Facebook, vi com bons olhos a atitude da artista, e classifiquei suas palavras como “um bonito pedido de desculpas”. Mas como um rapaz comentou na página do Prosa Livre, Mallu “nada mais fez do que culpabilizar a vítima, deixando subtendido que racismo está nos olhos de quem vê e não de quem ofende”.

Ainda assim, mantive minhas palavras. E errei ao acreditar que ela realmente tinha aprendido algo com toda aquela situação. A cantora ainda tem muito trabalho a fazer.

Ao dizer que a sua performance era “para quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba”, Mallu pressupõe que existe um tipo de ‘racismo reverso’ contra brancos. Ele não é real. Como a filósofa Djamila Ribeiro bem explicou em um texto publicado no site da Carta Capital:

“Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui. Para haver racismo reverso, deveria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de 300 anos da população branca, negação de direitos a essa população. Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Quem são os donos dos meios de produção? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento de outro”.

A fala de Mallu ainda é mais problemática, porque demonstra que seu privilégio branco a cega a ponto de deixar de reconhecer que brancos nunca foram impedidos de fazer samba. Ou melhor, de fazer qualquer coisa. Afinal, enquanto negros possuem uma imensa dificuldade em fazer com que suas artes sejam o seu ganha-pão, Mallu estava em um programa de televisão transmitido para um país inteiro.

E mais: ela ignora o passado do gênero musical, que surgiu de uma mistura de ritmos criada pelos africanos que vieram como escravos para o Brasil. Por muito tempo, os negros que fossem vistos fazendo samba eram presos, como recordou Carlos Alberto Caetano, o Carlão, da Unidos do Peruche, em uma entrevista o BOL.

“A sociedade não aceitava, era coisa de negro, éramos reprimidos, nos prendiam. Sempre nos prendiam lá para 19h, 20h. Soltavam a gente às 6h”, disse. “É a cultura de um povo. E na minha cabeça, o português tem a cultura dele, o fado, o vira. O alemão tem a cultura dele, o judeu tem a cultura dele, todos os povos têm sua cultura. E a do negro é essa, qual é a diferença?”

Ou seja, tudo isso faz com que o sentimento de Mallu de achar que está sendo ‘censurada’ não faça qualquer sentido. Ela precisa prestar mais atenção ao que diz, pois seu pedido de desculpas agora parece apenas um punhado palavras vazias.

Se ela quer mesmo demonstrar arrependimento, poderia começar a escutar e entender DE VERDADE que o racismo é real e que ela não é – e nunca será – vítima dele. 


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