Um post apenas para lembrar por que Madonna é um ícone

16. agosto 2018 POP 0
Um post apenas para lembrar por que Madonna é um ícone

Desde que nasci, e isso já vai fazer 28 anos, Madonna sempre esteve em cena. Não vou mentir e dizer que sempre fui ligado em sua música ou me sentia atraído por seu trabalho. Eu mal a conhecia, só sabia que ela existia e fazia polêmica, pois o noticiário sempre associava o nome da rainha do pop à palavra controvérsia. Meu primeiro contato com ela se deu em 2002, na época em que ela lançava a música “Die Another Day”, do álbum “American Life”. A canção chamou a minha atenção, mas não ao ponto de querer saber mais sobre a cantora. Eu estava fazendo 13 anos e a música pop ainda não me atraía tanto.

Foi em 2005, com o lançamento de “Hung Up”, do disco “Confessions on a Dancefloor”, que as coisas mudaram para mim. Lembro-me que meu pai até me deu aquele álbum, tamanha era a minha admiração pelo trabalho que Madonna realizava naquela era. Naquela mesma época, quando a cantora estava perto dos seus 50 anos, ouvi pela primeira vez alguém questionar se era a hora da artista aposentar seu collant. A princípio, me perguntei o motivo para isso. Nem passou pela minha cabeça que a idade dela poderia ser um problema, apenas quis entender por qual motivo ela deveria parar de usar o famoso maiô que todas as artistas pop de hoje usam.

Na cabeça de quem pensou nisso, provavelmente era a hora da material girl pendurá-lo. Já para Madonna, a história era outra.

Hoje, 16 de agosto, a voz de “Vogue” completa 60 anos como um dos maiores ícones vivos da música pop. Em 35 anos de carreira, a qual começou em 1983 com um álbum que levava nome da cantora, foram lançados outros 12 discos. No munto todo, foram vendidos mais de 300 milhões deles, 10 turnês mundiais aconteceram, e Madonna se tornou a artista feminina mais bem sucedida de todos os tempos. E não há sinal de que ela vá parar tão cedo: o 14º álbum já está sendo gravado.

São números que impressionam e que demonstram a força dessa leonina que lutou para conquistar seu lugar no Olimpo do pop. Mas antes de ser a Madonna que o mundo aprendeu a reverenciar, ela foi uma mulher que perdeu a mãe quando ainda era uma criança e que sonhava alto. Com apenas 35 dólares no bolso e uma grande ambição, ela se mudou para a cidade de Nova York em 1978. Cinco anos depois, ela lançava um disco com seu próprio nome, o qual daria início a uma grande mudança na música pop, na moda e na sociedade. 

Madonna era ousada e rebelde, recusando-se a ficar no local submisso concedido às mulheres. Se hoje vemos cantoras pop assumindo controle sobre a sexualidade, com discursos empoderadores e com trabalhos estéticos cheios de conceito, é porque Madonna pavimentou o caminho para isso. “Like a Virgin”, um dos seus maiores sucessos, trazia a artista cantando sobre sexo antes do casamento, algo que era chocante para o conservadorismo da década de 80. Essa seria apenas uma das ‘polêmicas’ que ela enfrentaria ao longo de sua brilhante carreira. Mas fato é que Madonna não tinha paciência para caretice, e foi exatamente a sua transgressão que fez a música pop evoluir e forçou o mundo repensar o lugar da mulher na sociedade.

E isso só aconteceu porque ela bateu de frente com os valores vigentes da época: enquanto o mundo condenava (ainda mais) mulheres com opinião e com controle sobre o próprio corpo, lá estava a rainha do pop para reescrever as regras. Com “Papa Don’t Preach”, do disco “True Blue”, Madonna cantava sobre a possibilidade do aborto. Se hoje é difícil falar sobre interrupção da gravidez, imagine em 1986? Madonna forçou uma conversa necessária sobre os direitos reprodutivos da mulher, os quais estão sob ameça nos Estados Unidos com o governo Trump (que, diga-se de passagem, Madonna abomina), e que estão em pauta no cenário brasileiro, graças a uma audiência pública convocada pelo Supremo Tribunal Federal para a descriminalização do aborto no país.

Eu poderia dizer que Madonna sempre buscou ‘chocar’ o mundo com a sua arte, mas isso seria esvaziar de sentido o seu trabalho, o qual sempre esteve alinhado aos seus valores progressistas, que nunca foram negociáveis. “Like a Prayer” talvez seja um dos melhores exemplos disso. No clipe lançado em 1989, a cantora mistura suas raízes católicas em um vídeo que mistura religião, sexo e racismo. Nele, a artista aparece dançando em frente a cruzes pegando fogo, beijando um santo negro (ou seria Jesus Cristo?), o qual na tentativa de ajudar uma mulher sendo morta por homens brancos, acaba sendo preso pela polícia. É impossível não relacionar isso ao preconceito que a população negra sofria – e ainda sofre. O Vaticano condenou o vídeo, cuja música havia sido cedida para a Pepsi utilizar em propagandas. Com a polêmica, a marca cancelou o contrato, mas Madonna manteve “Like a Prayer” exatamente como foi concebido. Quase 30 anos depois, o clipe continua sendo um marco na cultura pop.

Esse seu posicionamento firme se mantém até hoje. Ícone feminista, o empoderamento feminino sempre fez parte de seu trabalho. “Express Yourself”, também do mesmo disco que saiu “Like a Prayer”, traz Madonna cantando para que as mulheres não aceitem migalhas emocionais dos homens: se eles não as assumem, é melhor ficarem sozinhas. E para além disso, o controle da própria sexualidade e do corpo também foram temas explorados por ela, que ainda lançou clipes considerados sexuais demais e até censurados pela MTV. Nada disso a freou ou a fez perder seu status, mas fez com que ela se tornasse símbolo da libertação sexual feminina.

Não só isso, é impossível não associar Madonna à comunidade LGBT, a qual sempre recebeu apoio incondicional da rainha do pop. Numa época em que artistas tinham muito mais medo do que hoje para se associar a esse público, a cantora sempre esteve do lado da luta por tolerância, aceitação e combate à homofobia. E isso se deu graças ao seu professor de dança, Christopher Flynn, o qual sempre a incentivou a buscar seu sonhos e a expressar sua individualidade.

“No Michigan, eu não sabia o que era ser gay. Ele foi o primeiro homem, o primeiro ser humano, que me fez sentir especial e bem comigo mesma”, ela disse em uma entrevista de 2010. “Ele foi uma das primeiras pessoas que me disse que eu era linda e que eu tinha algo a oferecer ao mundo. E ele me encorajou a acreditar nos meus sonhos e ir para Nova York. Ele foi uma pessoa muito importante na minha vida. Ele morreu de Aids, mas ficou cego perto do fim da sua vida”.

A Aids também foi uma das causas pelas qual lutou, já que perdeu muitos amigos para a doença. Nessas três décadas de muito trabalho, ela arrecadou dinheiro para pesquisas e conscientizou o público sobre a prevenção ao vírus do HIV. Madonna tem e sempre terá o amor da comunidade gay, e boto fé que isso não se deve apenas por sua música e seus posicionamentos, mas porque desde sempre ela tratou esse público como seus iguais.

De 1983 para cá, Madonna criou sua marca, criou tendências, se reinventou diversas vezes e fez escola para os artistas pop de hoje. Recentemente, repassei por seus álbuns (o meu preferido é o “Ray of Light”, de 1998) e me vi descobrindo o que não havia descoberto quando a vi em 2002 com “Die Another Day”. Esse interesse foi o que me fez mergulhar em sua carreira e me fez perceber que essa mulher não deveria ser celebrada agora que fez 60 anos, mas em todos os outros anos. É inegável a influência dela nas artes e como ela fez o que podia – e até mais – para transmitir mensagens de empoderamento feminino, aceitação de LGBTs, quebra de tabus e encararmos o sexo de uma maneira positiva.

Hoje, depois de tudo que vivenciou, ela poderia simplesmente viver do seu legado, mas ela continua querendo romper estereótipos, agora o da idade. “Não envelheça. Porque a idade é um pecado. Você será criticada e vilipendiada e definitivamente não vai tocar na rádio”, foi o que Madonna disse em um evento de 2016, quando foi homenageada como a Mulher do Ano pela Billboard. “Acho que a coisa mais polêmica que já fiz foi resistir. Michael [Jackson] se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney [Houston] se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas eu ainda estou aqui”.

A rainha do pop segue resistindo e sendo um ícone. Com certeza, eu ainda tenho muito a aprender com Madonna. Mas uma coisa eu sei: ela continuará mudando o mundo e tornando-o um lugar para todos nós.